Como é ser assexuado?

Publicado em 22.05.2012

Jenni Goodchild, de 21 anos, não sente atração sexual. Como é ser assexuado em uma sociedade que fica cada dia mais sexual? “Para mim, significa que eu não olho para as pessoas e penso ‘humm sim, eu faria sexo com você’, isso simplesmente não acontece”, comenta.

Aluna em Oxford, Jenni é parte do 1% de pessoas do Reino Unido que se identificam como assexuados. Esse gênero é descrito como uma orientação, ao invés do celibato, que é uma escolha.

“As pessoas dizem ‘bom, se você não tentou, então como pode saber?’”, afirma Jenni. “Se você é heterossexual, já tentou fazer sexo com alguém do mesmo sexo? Como sabe que não iria gostar? Você apenas sabe que não está interessado, tendo experimentado ou não”, explica.

O Assexual Visibility and Education Network (AVEN), o maior portal online da comunidade assexuada, argumenta que as necessidades emocionais variam muito nessas pessoas, assim como na “comunidade sexual”.

O sociólogo Mark Carrigan argumenta que existe uma diferença, por exemplo, entre os assexuados românticos e os não românticos.

Não românticos e românticos?

“Os primeiros não têm nenhuma atração romântica, então, em alguns casos, eles não querem ser tocados, não querem nenhuma intimidade física”, comenta Carrigan. “O segundo grupo não experimenta atração sexual, mas sim atração romântica. Então eles olham para alguém e não têm respostas sexuais, mas podem querer chegar mais perto para saber mais sobre a pessoa, dividir coisas”.

Isso é verdade para Jenni, que é “heterorromântica”, e, apesar de não ter interesse em sexo, ainda é atraída por pessoas, estando em um relacionamento com Tim, de 22 anos. Ele, entretanto, não é assexuado.

“Muitas pessoas perguntam se eu não estou sendo egoísta de mantê-lo em uma relação em que ele não vai conseguir nada do que quer, e que ele deveria sair com outra pessoa, mas ele parece bem feliz; então diria que a decisão é dele”, comenta Jenni.

Tim está aproveitando o tempo para conhecê-la melhor e aproveitar os aspectos românticos do relacionamento.

“A primeira vez que ela mencionou ser assexuada, meu pensamento inicial foi ‘humm, isso é estranho’”, conta Tim, “mas na época eu sabia o suficiente para não tomar decisões precipitadas. Eu nunca foi obcecado com sexo. Eu nunca fui de sair a noite para ter alguém para transar”.

O relacionamento dos dois tem sim um lado físico, já que se tocam e beijam para expressar afeição.

A assexualidade tem sido assunto de muitos estudo científicos, o que levou a especulações do porque algumas pessoas não sentem atração sexual.

“Existem pessoas que veem isso como uma doença e pensam ‘oh, se te dermos essas pílulas você vai resolver isso’. Outros perguntam se eu chequei meus hormônios, imaginando ser uma solução óbvia”, comenta Jenni. “E tem aqueles que dão um passo a mais, e perguntam se eu fui molestada quando era criança, o que, para ser sincera, não é uma pergunta apropriada, e eu não fui molestada. É a ideia de que ‘tem algo errado com você, claramente você foi molestada quando criança’, e é uma terrível atitude”.

Carrigan sugere que a falta de pesquisa científica é devida a não existência uma comunidade real assexuada até o lançamento do AVEN. “Antes de 2001 não tinham muitas pessoas se definindo como assexuadas, então não havia objeto de estudo”, comenta Carrigan.

Assexualidade é diferente de pessoas que têm falta de desejo sexual mas encaram isso como um problema.

“Existe muita pesquisa sobre desejo sexual hipoativo, o que é classificado como um problema de personalidade, que é o sofrimento por falta de atração sexual”, diz o especialista.

Apesar dos assexuados, algumas vezes, sofrerem discriminação social, Carrigan diz que é diferente da “fobia” que as pessoas homossexuais sofrem. “É mais como uma marginalização, porque as pessoas genuinamente não compreendem a assexualidade”, comenta Carrigan.

A revolução sexual tem mudado muito a maneira como lidamos com sexo e como pensamos nisso socialmente. Pesquisas deixaram um senso de que há uma sexualização exagerada na sociedade, motivo talvez das pessoas não entenderem a assexualidade.

A especialista em relacionamentos, sexo e comportamento Pam Spurr admite não ter recebido muitas perguntas sobre a assexualidade. “Poucas vezes me perguntaram sobre isso, mas geralmente as pessoas guardam como um segredo, por ser muito raro”, comenta.

A questão que fascina Carrigan é o efeito futuro de uma comunidade visível de pessoas assexuadas. “Por exemplo, não havia uma concepção de heterossexualidade antes dos homossexuais”, comenta. “Foi só depois de algumas pessoas passarem a se definir como homossexuais que fez sentido alguém se dizer heterossexual. Se é verdade que 1% da população é assexuada e mais pessoas sabem disso, isso vai mudar a maneira como as pessoas ‘sexuais’ se enxergam, porque não existe uma boa palavra para se referir as pessoas que não são assexuadas”. [BBC]

Autor: Bernardo Staut

é estudante de jornalismo e interessado por povos, culturas e artes.

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22 Comentários

  1. Adoro sexo!. Mas estou pensando seriamente a me tornar assexual, por motivos pessoais, então seria escolha minha, um decisão, será que consigo,já que penso nisso dia e noite, sou casado será que minha companheira vai entender?.

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    • Assexualidade não é uma escolha, é uma orientação sexual. A escolha de não fazer sexo se chama celibato.

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  2. Ser assexuado é apenas uma opção de tantas e tantas outras variedades de ser feliz e realizado. Admiro demais estas pessoas que entendem que a energia sexual vai muito mais além do que simplesmente transar!

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  3. Estou terminando meu namoro por esse motivo, ela disse não ter mais desejo sexual com ninguém. Fiquei chocado e foi motivo de muitas brigas afinal adoro sexo todo dia pela manhã. SEXO É VIDA!
    Ter mulher pra ficar só olhando pra minha cara não dá!

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  4. É claro que todas as pessoas devem ser respeitadas em suas opções e orientações. Mas, acho que o preconceito que existe em relação ao assexuado não se restringe somente a falta de desejo e atração sexual, quando alguém lê coisas como “ter nojo de ser tocado ou tocar”, realmente a primeira coisa que alguém pensa é que essa pessoa é doente, pois, o tocar ai não se restringe a um toque sexual, quer dizer que só de você encostar nessa pessoa, dar um abraço fraterno ou um aperto de mãos, essa pessoa vai ter uma repulsa,um ataque?
    No meu ponto de vista falta de atração sexual é uma coisa, falta de empatia, generosidade e afeto é outra, isso se chama egocentrismo e em alguns casos misoginia e isso sim é uma doença e bem destrutiva. Pois, somos seres sociais e a afetividade, o interagir,a comunicação, faz parte do que nos faz humano, todos nós em algum sentido dependemos do outro, pra eu poder postar aqui meu comentário eu dependo deste site, do meu PC e toda tecnologia que foi feita por outros e não por mim mesma,por exemplo.. Você tem todo o direito de não desejar uma aproximação e um toque sexual, mas, ter repulsa pelas pessoas só porque elas encostam em você, é algo a meu ver insano e pessoas assim assustam…Afetividade existe com ou sem romance, é possível você ser alguém afetivo e não ser emocionalmente dependente, não ser meloso, e tudo o que implica o mundo colorido do romantismo e afins. Ser afetivo é ter consciência de si e sua interação no universo e com tudo que faz parte dele, inclusive a interação com os outros seres humanos, o relacionamento sadio sem dogmatismo e instabilidade emocional, sinceramente viver de certa forma recluso e a parte da sociedade, não faz de ninguém assexuado, faz de alguém um robô que só executa tarefas!

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    • Em nenhuma parte do texto está escrito “nojo” de ser tocado, e essa não é uma boa definição para não românticos. Eles tem afetividade sim, mas pela família, amigos etc. o que os arromânticos não tem interesse, é no relacionamento amoroso como de namorados. Eles não sentem atração romântica, não se apaixonam. Mas isso não tem absolutamente nada a ver com falta de empatia, afetividade ou generosidade. São coisas bem diferentes.

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  5. “Antes de 2001 não tinham muitas pessoas se definindo como assexuadas, então não havia objeto de estudo”. Engraçado que há essa necessidade de estudar o comportamento e classificar o homem.
    Antropologia é louvável quando se estuda o comportamento para traçar perfis do homem no passado, ou prever o comportamento social, estilo de vida, mas às vezes a síndrome do antropólogo é demais.
    É como se : se vc não fizer parte do grupo x, será do grupo y, senão será estranho e vc não faz parte desse mundo, ainda assim, fará obrigatoriamente parte do grupo b, dos que sofrem bullying.
    E quanto aos que já se interessaram por sexo, experimentaram e não gostaram? E quanto aos que se interessaram por sexo, experimentaram, gostaram muito, mas agora não procuram mais pq estão direcionando as energias pra outros assuntos, outras prioridades? São loucos? São anormais ? Foram molestados na infância ? São classificáveis ?
    Se você opta, é celibato, se não opta, é assexuado. Sou do tempo em que assexuado era um tipo de reprodução. O homem tem essa necessidade de classificação, mas nem sempre os classificados gostam do rótulo. Porque o que foge à regra possui uma carga de preconceito, de dúvidas e de “certezas incertas” que nem sempre se pode assumir. Ou pelo menos, nem sempre se pode assumir e conseguir ter uma vida sem dedos apontando para você.

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  6. Quando eu comentei um artigo aqui do Hypescience pela primeira eu disse que fazia parte do “1% da população que é assexual”; muitas pessoas riram e acharam que era mentira (ou que eu tinha algum problema), e a minha pergunta é: who’s laughing now? LOL
    Para os que pensam que ser assexual é ótimo e “prático”, só tenho uma coisa a dizer: vocês estão certos! Graças ao fato de eu não perder nem um milésimo de segundo “babando” por nenhuma pessoa deste mundo,por mais bela que seja, tenho mais tempo e energia para me concentrar no meus estudos, nas minhas obras de arte e em várias outras coisas, e eu me sinto um privilegiado por isso.

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  7. Num mundo de tantas diferenças, ser Assexuado na minha visão parece totalmente Normal.
    É só pensar um pouco pra ver que todo e qualquer forma de preconceito é totalmente sem sentido, é irracional, é primitivo.

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  8. Depois de tantos avanços tecnologicos, descobertas cientificas e da medicina, comos humanos cada vez mais provando que nossa capacidade está muito além do podiamos imaginar, ter que ver alguem dizer que os humanos atuais estão servindo para força de trabalho.
    Não sei até que ponto o nosso cerebro é tão magico quanto o seu.
    Estou achando que a humanidade só existe até hoje porque pelo menos 90% (ou mais da população) acaba caindo nessa tal “armadilha da natureza”. Isso é um problema então?
    Obs.: não acredito que caí numa armadilha.

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  9. Isso daí chama Nerdismo level 99. Conheço vários!

    Brincadeira a parte…rsrs
    Ainda não sei porque tem gente que fica incomodada com pessoas assexuadas ou homossexuais ou heterossexuais ou afins e vice versa.

    As pessoas deveriam se incomodar com as PESSOAS, e não com a escolha sexual delas.
    E se é doença ou não, quem tem que se importar é quem vê problema nisso. Não os outros.

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  10. Creio que deve ser uma bênção ser assexuado, e de preferência do grupo dos não-românticos. Perde-se um tempo enorme pensando em sexo, fazendo sexo, conversando fiado com mulher, quando toda essa energia poderia estar sendo direcionada para alguma coisa efetivamente útil e satisfatória (já que a dita “satisfação sexual” não passa de uma falácia). Se existir um meio de tornar-se assexuado, digam-me, pois, se ao mesmo tempo “xanas” me atraem, ando já inteiramente farto delas.

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    • esta farto ? ¬¬
      que sem graça em

      me diz qual a sensação de sair de casa pra ir em um rock sem a intenção de pegar ninguem ?
      casar e ter filhos, nunca sonhou com isso ?
      a vida na sociedade é um saco
      pouca coisa nos distrai e nos diverte, e vc quer ser axexuado
      corte o saco fora man
      vasectomia na base da marreta
      deve funcionar no seu caso

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    • Existem outras coisas na vida além de “pegar” alguém.
      Muitas outras,e ainda melhores do que o sexo.
      mas você deve ter a mente limitada de mais pra isso.

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  11. Na minha opinião essas pessoas teriam que ter um acompanhamento
    de um especialista no assunto [médico] visto que existe muitas anomalias [genéticas e psicológicas]que influenciam diretamente a maneira da pessoa pensar e agir…
    Agora como foi mencionado no assunto dizer que é diferente dos demais mas viver agindo da mesma maneira[com parceiro fixo] é querer chamar a atenção pra si !!!

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  12. tópicos como esses não deveriam ser liberados para comentários, essas pessoas não tem sensibilidade pra saber quando ofendem alguém.
    Sexualidade é uma característica mundana, só pessoas mundanas tem seus sentimentos influenciados por suas sexualidades, pessoas que se dão valor são respeitosas não importando que característica possuam, sendo natural ou uma escolha.

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  13. É um gênero um tanto contraditório com as reações naturais do ser humano!

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    • Não vejo por que seria interessante para quem quer que seja, saber a condição/opção sexual do Outro. Tipo da coisa que só diz respeito aos envolvidos num relacionamento.

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  14. Teve um episódio do House sobre um casal assexual (T08 E09 “Better Half”).
    O House duvidou, disse que havia algum problema. O marido tinha um tumor na hipófise (glândula no cérebro com várias funções, incluindo funções sexuais). E a mulher admitiu a todos que decidiu pelo celibado, porque amava o marido.
    Essa comunidade AVEN, mencionada aqui no artigo, fez um bombardeio de críticas, não só os assexuais mas até o fundador se manifestou contra a FOX!!!
    Não sei teve necessidade disso. A escritora até colocou, no início do episódio, um personagem de tradicional bom senso (Dr. Wilson) explicando informações reais, como no artigo acima, eu mesmo aprendi ao assistir…

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    • esse problema na hipófise deve ser o mesmo dos homosexuais

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    • Pra mim, o episódio só representou uma casualidade. Eram duas pessoas que demonstravam comportamento assexual, mas que na verdade não eram nem nunca foram assexuais, por diferentes motivos.

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