Estas células cerebrais são responsáveis pela consciência?

Publicado em 29.07.2012

Nossa história começa no ano de 1926, com o neurologista Constantin von Economo. Ele examinou células neuroniais e encontrou um grupo de células diferentes das outras outras células neuroniais. Em vez do aspecto piramidal, elas tinham uma forma alongada, e eram entre 50% e 200% maiores que as demais células.

A princípio, ele pensou que se tratava de uma patologia, uma doença, mas ao encontrar as mesmas células em outros cérebros, inclusive de animais diferentes, ele chegou à conclusão que deveriam ter alguma função; alguma coisa relacionada ao olfato e paladar, já que eram sempre encontradas nas mesmas duas estruturas envolvidas com estes sentidos.

Mas a época era ingrata: ele não tinha como investigar mais a fundo estas células, portanto voltou-se para outras linhas de pesquisa mais promissoras. Não sem antes dar seu nome às células, os neurônios de von Economo (VEN na sigla em inglês). Oitenta anos depois, os pesquisadores Esther Nimchinsky e Patrick Hof, trabalhando na Universidade Monte Sinai, em Nova Iorque (EUA), se depararam estes estranhos neurônios. E depois de uma década de imageamento funcional e estudos post-mortem, a história destas células está sendo montada.

Algumas linhas de evidências sugerem que elas podem ajudar a contruir a nossa rica vida interior, que chamamos de consciência, incluindo as emoções, nosso sentido de “eu”, empatia, e a capacidade de navegar pelos relacionamentos sociais.

ACC e FI

Antes vamos dar uma espiada na região em que os VENs são encontrados, o Córtex Cingulado Anterior (ACC, de Anterior Cingulate Cortex) e a Ínsula Anterior (FI, de Fronto-Insula). Estas duas regiões apresentam atividade quando percebemos algumas pistas socialmente importantes, como uma cara fechada, um esgar de dor, ou quando ouvimos a voz da pessoa amada.

Quando uma mãe ouve um choro de bebê, a resposta nestas regiões é muito forte. Elas também apresentam atividade quando experimentamos emoções como amor, desejo, raiva ou tristeza. Para o neuroanatomista John Allman, do Instituto de Tecnologia Califórnia em Pasadena (EUA), eles se somam a uma “rede de monitoramento social”, que detecta as pistas sociais e permite que mudemos nosso comportamento de acordo.

Estas duas áreas também parecem exercer um papel importante na rede que mantém um controle subconsciente do que está acontecendo ao nosso redor e direciona nossa atenção aos eventos mais importantes, além d monitorar as sensações do corpo para detectar quaisquer mudanças.

Além disso, as duas regiões ficam ativas quando uma pessoa reconhece seu reflexo no espelho, sugerindo que estas partes do cérebro estão subjacentes ao nosso sentido de “eu” – um componente chave da consciência.

Os VENs podem ser importantes para isto tudo, mas as evidências que os pesquisadores têm ainda são apenas circunstanciais, apesar de importantes. Avançar na compreensão dos VENs envolve encontrar estas células e medir a sua atividade em um cérebro vivo, o que ainda não foi possível.

VENs

No cérebro, maior geralmente significa mais rápido, e como estas células são grandes, existe a suspeita de que elas estejam envolvidas em algum tipo de circuito que envolva a transmissão rápida de sinais importantes. No caso, sinais que estão relacionados à nossa vida social.

As pistas do funcionamento dos VENs pode ser encontrada também nas patologias caracterizadas pela falta ou excesso destas células. De fato, há uma forma de demência que ataca as pessoas com cerca de trinta anos, caracterizada por uma apatia social, ou falta de empatia e autocontrole. Você pode mostrar para estas pessoas uma foto de um acidente horrível e elas nem mesmo piscam. O cérebro dessas pessoas praticamente não tem VENs.

Outro grupo que tem alteração nos VENs são os autistas, que se dividem em dois grupos: os que têm muito poucos VENs e os que têm demais. Esquizofrênicos que cometem suicídios tem também, em geral, muito mais VENs no seu ACC que os que morrem de outras causas.

Outra pista é o comportamento de animais que também têm VENs, como chipanzés e gorilas, elefantes e algumas baleias e golfinhos. Todos são animais que vivem em grandes grupos sociais e apresentam o mesmo tipo de comportamento avançado associado aos VENs nas pessoas. Elefantes mostram sinais que se parecem demais com empatia, pois trabalham juntos para ajudar membros feridos, perdidos ou aprisionados, por exemplo. Mostram até mesmo sinais de tristeza em “cemitérios” de elefantes. Além disso, estas espécies reconhecem a si mesmas no espelho, o que é tomado como um indício de consciência.

Mas os VENs também aparecem em espécies não especialmente sociais, como manatis e girafas. Também aparecem em saguis e outros macacos dos quais não temos certeza se se reconhecem no espelho, embora sejam animais sociais. Uma possibilidade é que a expressão dos VENs nestes animais seja mais primitiva que nos outros mamíferos. Estas diferenças também podem oferecer pistas sobre como estes neurônios evoluíram.

Além disso, os VENs parecem estar associados a julgamentos morais e ao paladar e olfato. Curiosamente, a reação que temos para algo moralmente condenável é muito parecido com a reação a algo que cheira mal, ou tem gosto ruim. Talvez não seja por acaso que dizemos que algo “não cheira bem” quando parece ser algo condenável.

A consciência, um acidente

Entretanto, somente em animais altamente sociais os VENs vivem exclusivamente nas regiões do olfato e paladar. Em girafas e hipopótamos, por exemplo, os VENs parecem estar espalhados por todo o cérebro. Uma compreensão genética da origem destas células pode explicar esta diferença.

Baseados nas evidências que têm, os cientistas acreditam que os VENs dos ancestrais estavam mais espalhados, como no cérebro do hipopótamo, e no curso da evolução eles migraram para o ACC e o FI em alguns animais, mas não em outros. A razão para esta migração é desconhecida; talvez a pressão seletiva que moldou o cérebro dos primatas tenha sido muito diferente da que afetou a evolução de baleias e golfinhos, por exemplo.

Um ponto interessante é que quanto maior o cérebro, mais energia ele consome, então é importante que ele funcione o mais eficientemente possível. Um sistema que monitore continuamente o ambiente e as pessoas ou animais nele teria uma vantagem, permitindo rápidas adaptações a uma situação para economizar o máximo de energia. E o fato que o cérebro está constantemente atualizando esta imagem de “como eu me sinto agora” talvez tenha um efeito colateral interessante: o conceito de que há um “eu” para sentir as sensações. Segundo os cientistas, “a evolução produziu um cálculo muito eficiente de momento a momento do uso de energia e este tem um epifenômeno, um subproduto que forneceu uma representação subjetiva dos sentimentos”.

Se eles estiverem corretos – e ainda há um longo caminho a percorrer antes de termos certeza -, há uma grande possibilidade de que, longe de ser o ápice da evolução do cérebro, a consciência talvez seja um grande acidente.[New Scientist]

Neurônios, neurônios, neurônios

Autor: Cesar Grossmann

Formado em Engenharia Elétrica, é funcionário público, gosta de xadrez e fotografia. Apesar de se definir como "geek", não tem um smartphone, e usa uma câmera fotográfica com filme (além da digital).

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4 Comentários

  1. O que será que há nessas células cerebrais de consciência que nos faz sentir, ver e ouvir algo de verdade?

    Que arranjo de neurônios há no cérebro ou que elemento químico há dentro dele que nos faz não só interpretar e processar sinais eletroquímicos; mas ver, ouvir e sentir dor de verdade, sentir alegria e tristeza, amor e raiva, etc?

    Para mim, um dos maiores mistérios, além da origem do universo e da origem da vida, é a origem da consciência, dos sentidos e dos sentimentos.

    Quado olhamos para um objeto ou uma luz, não apenas interpretamos sinais luminosos, nós realmente os sentimos! Quando levamos um beliscão, não somente interpretamos os sinais eletroquímicos vindos dos nervos sensitivos, nós realmente sentimos dor de verdade!

    E isso foge de qualquer explicação pelas leis da física e da computação. Estamos tão acostumados com a consciência da visão e dos outros sentidos, que nem sequer percebemos o quanto isso é algo realmente ESPANTOSO!

    O famoso físico matemático Sir Roger Penrose, em seu excelente livro: “A MENTE NOVA DO REI”, especula sobre a origem da consciência; sendo que parece que ele acredita que a consciência emerge das interações quânticas entre as células cerebrais; mas isso também não passa de pura especulação.

    Eu já penso que os sentimentos não são coisa deste mundo físico, lógico e matemático em que vivemos. Se existe realmente a alma, os sentimentos devem ser parte de seus atributos e não do nosso corpo físico. A alma, talvez, seria o nosso verdadeiro eu e o nosso cérebro e corpo seria apenas uma interface entre o mundo espiritual e este mundo físico, lógico e matemático em que vivemos (quem sabe até sendo executado num tipo de “computador divino” tipo MATRIX)!

    Talvez isso seja apenas especulação minha, sem sentido ou fundamento científico nenhum. Mas chego até a duvidar (até prova em contrário) de que algum dia um robô será capaz de ter sentimentos reais, em vez de apenas processar informações!

    Acredito que é mais fácil fazer um robô ou programa de computador pensar do que sentir algo de verdade (se é que isso será algum dia possível). Para mim, essa é a grande diferença entre um ser humano e uma máquina; entre ser vivo ou não!

    O que será que é mais sensato dizer:

    “PENSO, LOGO EXISTO” ou “SINTO, LOGO EXISTO”?

    Thumb up 5
    • Acho que você está confundindo… Você não sente dor. Você não sente calor. Você nem mesmo sabe se o que você chama de “sentir calor” é a mesma coisa que eu ou outro ser humano chama de “sentir calor”. Por que é o cérebro que faz isto.

      E a prova mais contundente disto são os “membros fantasmas”. Tem gente que sente dor em um braço que já foi amputado. Por que isto? Por que o cérebro ou está recebendo estímulo dos nervos do braço, ou tem algum estímulo surgindo de forma espontânea (uma “alucinação”).

    • Cesar, eu entendo o que você quer dizer, mas não é tão simples assim.

      Parece simples porque todos estamos acostumados a sentir cores, sons, dor, amor, etc. Mas, se pararmos para pensar, isso parecer ser algo extremamente absurdo e fora da nossa realidade!

      Veja, mesmo esses membros fantasmas, quando o cérebro recebe estímulos eletro-químicos dos nervos dos braços, para onde vai esses estímulos?

      Será que são convertidos em informação digital ou analógica?

      O que há no neurônio que recebe e processa tais estímulos que transforma essa ‘informação’ em dor real e consciente?

      Que elemento químico há no neurônio capaz de sentir dor, cores, sons, cheiro, tato, etc. de verdade e não apenas processar inconscientemente tais informações?

      Ou que arranjo de neurônios há nesta parte do cérebro que faz, como que por milagre, emergir a consciência da dor, das cores, dos sons, dos sentimentos, etc.?

      Simplesmente, isso não faz sentido à luz do mundo físico e matemático em que vivemos!

      Não duvido muito que, após os cientistas rastrearem esses estímulos que vão para determinado neurônio, simplesmente ele pára ali e não faz mais nada. Daí, quem sabe, concluirão que tal sinal está sendo lido por um meio externo ao nosso universo, talvez por num computador divino tipo MATRIX; e que nosso cérebro não passa de uma interface (ou um tipo de ‘capacete’ de realidade virtual) entre o mundo dos sentidos e sentimentos (talvez o mundo espiritual) e o mundo físico e matemático em que estamos imergidos; ou seja, uma interface entre a alma espiritual (o nosso verdadeiro eu) e o corpo material?

      Reflita sobre isso e verás que não é nada trivial; quando ‘cair a ficha’, certamente, você também levará um ‘choque’ como eu levei!

      Se você nunca leu, aconselho o livro “A MENTE NOVA DO REI” de Roger Penrose.

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    • Cheiro, dor, sabor, o que vemos, são hologramas para aperfeiçoar as chances da maquina de sobrevivência(Seres-vivos) a não morrer. Eles não vêm de um espirito, mas sim de informações predispostas nos genes. A glicose não é doce, as proteínas e nossas estruturas evoluíram para que o processador mental analisasse a glicose como algo bom, pois com mais glicose melhor chance de sobreviver, o mesmo para a dor, ou o fedor de fumaça, mas de forma negativa, é chamado de sistema recompensa, evolução.

      Thumb up 0

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