Nova espécie de boto é descoberta no Brasil

Cientistas anunciam evidências de que existe uma nova espécie de boto, ainda mais ameaçada de extinção do que as outras vivas conhecidas.

Pesquisadores liderados por Tomas Hrbek da Universidade Federal do Amazonas, em Manaus, descobriram a nova espécie na Bacia do Rio Araguaia. Eles creem que o animal foi isolado dos outros botos vivos conhecidos (Inia geoffrensis e Inia boliviensis) por uma série de corredeiras e um pequeno canal. Como resultado, os cientistas sugerem que seja nomeado “boto araguaiano” ou Inia araguaiaensis.

Botos estão entre os mais raros e ameaçados golfinhos do mundo. Os botos amazônicos, que podem ser rosas ou cinzas e têm um bico mais longo do que golfinhos marinhos, estão sob forte pressão no meio ambiente. Apesar do tabu contra matá-los, em algumas áreas pescadores os usam como isca para pegar peixe-gato. Além disso, hidrelétricas fragmentam seu habitat, e a sobrepesca esgota sua fonte de alimento.

Dados populacionais sobre esses animais são incompletos, por isso seu estado de conservação verdadeiro é desconhecido, mas seus números são com certeza muito menores do que muitas espécies marinhas comuns de golfinhos, cujas populações são compostas de centenas de milhares de indivíduos.

A espécie recém-proposta pelos pesquisadores marca a primeira nova descoberta de um verdadeiro boto desde 1918, quando cientistas identificaram o Lipotes vexillifer, o golfinho do rio Yangtze, na China. Ele foi declarado “funcionalmente extinto” em 2006, depois que estudiosos não conseguiram encontrar nem um indivíduo.

A descoberta

Os pesquisadores sabiam que botos habitavam a região da Bacia do Rio Araguaia, mas suspeitavam que esse grupo era uma espécie distinta, já que estava isolado de outros grupos de botos do rio Amazonas por uma série de corredeiras.

Assim, eles compararam seções do DNA nuclear e mitocondrial de três espécies de boto para mostrar que cada uma evoluiu separadamente e não está cruzando entre si.

Eles também analisaram dois crânios masculinos e dois femininos de I. araguaiaensis e as correlacionaram com medições dos crânios das outras espécies, e descobriram que o crânio da nova espécie é um pouco mais amplo, além de encontrarem pequenas diferenças no número e forma de certos dentes.

Poucos espécimes foram analisados porque encontrar animais mortos é difícil. “Estes são achados ocasionais, então não podemos ter uma amostra adequada”, explica o biólogo Hrbek.

Os cientistas gostariam de fazer medidas físicas de mais indivíduos da nova espécie para ter uma ideia melhor da sua gama de variação (por exemplo, ela pode até mesmo usar diferentes tipos de sons para se comunicar), mas as evidências existentes já são bastante consistentes com o I. araguaiaensis sendo uma espécie separada.

Hrbek e sua equipe estimam que esse animal foi isolado da espécie principal da Bacia Amazônica, o I. geoffrensis, há mais de 2 milhões de anos. As duas espécies provavelmente dividiam espaço até que a foz do rio Araguaia se deslocou para o leste para desaguar no Oceano Atlântico, em vez de no rio Amazonas.

As faixas de habitat das duas espécies potencialmente se sobrepõe em uma pequena área na jusante das corredeiras, onde um canal estreito liga a foz do rio Araguaia com o delta do rio Amazonas. Os pesquisadores planejam realizar pesquisas na região para ver se ambas as espécies vivem lá sem cruzar.

“Isso seria uma evidência conclusiva de suas diferenças em um teste biológico natural”, argumenta Scott Baker, geneticista na Universidade do Oregon (EUA).

A descoberta pode ter implicações importantes para a conservação da nova espécie, diz Hrbek. Os cientistas observaram cerca de 120 botos araguaianos ao longo de 12 semanas. Eles estimam que tão poucos quanto 600 animais poderiam viver na bacia hidrográfica inteira. “Não é uma imagem muito animadora”, conta.

Com base nesses dados, os pesquisadores afirmam que I. araguaiaensis deve ser considerado vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza, uma organização que avalia que plantas e animais estão ameaçados de extinção. “Ao reconhecer que estas são três linhagens divergentes únicas, a perda de qualquer uma delas não é substituível”, diz Baker. [ScienceMag, NationalGeographic]

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