Dungeons and Dragons é nova ferramenta de terapeutas que trabalham com adolescentes

Adam Davis, co-fundador do grupo de terapia Wheelhouse Workshop, que usa o jogo Dungeons and Dragons (D&D) como ferramenta, acredita que as crianças com problemas de socialização não estão sendo atendidas da melhor forma no sistema tradicional.

Para ele, os profissionais que trabalham com a criança não deveriam perguntar “por que você não está fazendo sua lição de casa?”, e sim “quem tem o machado? Que tipo de mago você quer ser?”.

Davis trabalha em um consultório em Seattle (EUA), e tem conseguido bons resultados com crianças que não parecem cooperativas com os pedagogos da escola. Ele e seu sócio Adam Johns criam jogos do D&D que envolvem menos lutas em masmorras e mais terapia com dragões.

Um dos casos atendidos por Davis foi o de Frank (este não é o nome real), um adolescente alto e magro que falava tão baixo que sua voz mais parecia um sussurro. Na escola, ele se sentava de forma que usava as pernas para esconder o rosto. Ele não queria ser visto e não gostava de ocupar espaço. Os pais então decidiram inscrevê-lo no programa.

“O personagem que ele escolheu foi um anão bárbaro. Ele falava alto e era folgado. Esta foi uma oportunidade óbvia para este garoto brincar com características que não eram as suas”, relembra Davis. Ele pediu ao menino que se sentasse como seu personagem faria, sendo espaçoso e batendo os cotovelos na mesa. Dessa forma, Frank conseguia experimentar novos modos de agir.

Além do Wheelhouse Workshop, há pelo menos seis outros grupos de terapia semelhantes espalhados pelos Estados Unidos. Usar interpretação de personagens como parte da terapia não é novidade, um tipo bastante usado é pedir à pessoa que se comporte como seus pais ou amigos, para que seja possível visualizar a situação por outra perspectiva.

Mas nem todas as pessoas se sentem à vontade para interpretar, especialmente crianças e adolescentes. Por isso, o tema do RPG e sua característica que exige a colaboração de todos os participantes acabam ajudando. Cada jogador tem uma especialidade, por exemplo se comunicar com dragões, e por isso chegará o momento em que só ele pode salvar o grupo da situação. Isso faz com que o participante sinta-se importante.

Outra vantagem do jogo na terapia é que crianças que são socialmente isoladas podem gostar de acabar com alguns dragões depois de um dia ruim na escola. “Para alguém que nunca sai de casa a não ser para ir para a escola, ouvir de um colega ‘preciso da sua ajuda para abrir este cadeado’ faz uma tremenda diferença”, diz Johns.

Jogo de consequências


Outro grupo que usa RPG na terapia é o Bodhana Group, que fica na cidade de Ephrata, na Pensilvânia. Jack Berkenstock trabalhou com crianças por 23 anos, até que começou a ajudar adolescentes e jovens internados em um estabelecimento educacional. Foi aí que ele começou a usar o D&D para trabalhar com os garotos. “Começamos a ver meninos que tinham problemas familiares trazendo isso para o jogo. Isso se chama ‘sangrar’; quanto da sua identidade pessoal impacta o personagem que você está interpretando?”, explica ele.

O que diferencia uma sessão de terapia de um RPG comum é a intenção. O terapeuta deve ser cuidadoso ao projetar jogos em que as ações dos jogadores tenham consequências. Por exemplo, ele não protegeria um jogador que é muito impulsivo de cair na toca de um dragão. Se o personagem fica seriamente ferido por causa dessa ação impulsiva, essa é a repercussão natural do jogo. Se um jogador decide destruir o vilarejo de orcs, o terapeuta faz questão de mostrar as consequências que aquelas ações trouxeram para as crianças orcs e suas mães. “Acredito em explorar as consequências em um ambiente em que ninguém se machuque fisicamente”, diz Berkenstock. [Kotaku]

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