Faz 137 anos que esse experimento secreto está acontecendo

Em 1879, um botânico chamado William Beal enterrou 20 garrafas de vidro em um local secreto dentro da Universidade Estadual de Michigan, nos EUA.

Cada garrafa continha areia e mais de 1.000 sementes, e foi enterrada aberta e inclinada para baixo, de modo que água não acumulasse nelas.

Algumas dessas garrafas já foram desenterradas, mas outras ainda estão à espera de ter seus segredos revelados. Daqui quatro anos, o botânico Frank Telewski vai ter a oportunidade de abrir uma, como muitos botânicos fizeram antes dele, a fim de testar quais sementes ainda estão viáveis.

137 anos depois, apenas cinco garrafas ainda estão debaixo da terra, no que se tornou a mais longa experiência contínua do mundo sobre germinação de sementes.

Um experimento de 221 anos

Beal não concebeu o experimento para durar tanto tempo. Inicialmente, ele previu que as garrafas fossem removidas do chão a cada cinco anos, com todo o processo levando um século.

Porém, cientistas do Jardim Botânico W. J. Beal decidiram estender a experiência, visto que os resultados parciais sugeriam que as sementes duravam muito mais do que o pensado – primeiro a cada dez, e agora a cada vinte anos.

A última garrafa deve ser desenterrada em 2100, 221 anos após Beal começar o teste.

Dura quanto?

Enquanto o experimento pode parecer simples, é surpreendentemente eficaz. O objetivo inicial era descobrir como se livrar das ervas daninhas, um dos maiores problemas para os agricultores.

Isso foi antes dos pesticidas aparecerem. Os fazendeiros achavam que não importava quantas ervas daninhas removessem, as mesmas pragas continuavam a crescer em seus campos.

Beal sabia que isso ocorria porque as sementes eram capazes de permanecer dormentes no solo e voltar a crescer quando as condições estivessem em seu favor. Mas o que ele não tinha certeza era por quanto tempo as sementes podiam permanecer nesse estado. Logo, o experimento nasceu.

Observação contínua

Beal usou 20 frascos de vidro transparente e os encheu com uma mistura de areia e 50 sementes de 21 plantas comuns diferentes – um total de 1.050 sementes por garrafa. Os frascos foram enterrados a 50 centímetros de profundidade em um local mantido desconhecido (para que ninguém os perturbasse), marcado em um mapa.

Depois de cada garrafa ser desenterrada, as sementes são plantadas para ver qual cresce. Por uns bons 40 anos, a maioria germinou.

Em 1920, uma década após Beal aposentar, seu substituto notou que o experimento tinha estabilizado, com as mesmas sementes germinando a cada vez. Foi aí que decidiu esperar 10 anos antes de cavar a próxima garrafa.

Isso funcionou bem por um tempo, mas em 1980 apenas três espécies germinaram, e os pesquisadores decidiram esticar os intervalos ainda mais, para colocar mais pressão sobre as sementes.

A vencedora

A última garrafa foi desenterrada por Telewski em 2000, e parece haver um vencedor claro no quesito longevidade até agora – uma erva daninha chamada Verbascum blattaria, uma espécie de vela-de-bruxa. No último plantio, impressionantes 23 das 50 sementes da planta germinaram.

“É a única planta a germinar de forma consistente em todos os testes. Vai ser muito interessante ver se as sementes ainda estarão boas 20 anos a partir de agora”, disse Telewski. A única outra planta que cresceu nesta última rodada do experimento foi uma semente de Malva pusilla.

Replantando espécies extintas

O conhecimento adquirido a partir desta pesquisa não é apenas útil para pessoas interessadas em se livrar de ervas daninhas, mas também fornece informações valiosas para os conservacionistas, que esperam no futuro ser capazes de regenerar plantas extintas a partir de sementes antigas.

É já sabido que as sementes podem permanecer viáveis por um tempo incrivelmente longo se são mantidas frias, sem água ou luz solar – em 2005, pesquisadores israelenses conseguiram crescer uma palmeira de uma semente bem preservada de 2.000 anos de idade.

Aliás, essa é a ideia por trás do “Doomsday Vault”, o Cofre de Sementes do Fim do Mundo que fica no Círculo Ártico, nossa “garantia” caso a Terra sofra uma catástrofe global.

Mas o processo de preservação não é tão bem compreendido para sementes mantidas em condições ambientais, tais como as do experimento de Beal, e é por isso que os botânicos estão acompanhando de perto essa lenta experiência. [ScienceAlert]

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