Astrônomos estão embasbacados com “estrela zumbi” que não deveria existir

Uma descoberta recente está intrigando os cientistas: uma estrela colapsada localizada a cerca de 13 mil anos-luz de distância parece desafiar as leis da astrofísica como as conhecemos. O objeto, identificado como ASKAP J1839-0756, foi detectado pelo telescópio ASKAP, na Austrália Ocidental, em janeiro de 2024. Sua peculiaridade? Ele apresenta um comportamento que não deveria ser possível segundo os modelos atuais.
Estrelas de nêutrons: restos densos de explosões estelares
Quando estrelas muito massivas chegam ao fim de suas vidas, elas explodem em supernovas e deixam para trás um remanescente incrivelmente denso: uma estrela de nêutrons. Entre essas estrelas, há as chamadas pulsares, que giram rapidamente, emitindo pulsos regulares de ondas de rádio a partir de seus polos magnéticos. Normalmente, esses pulsares giram tão depressa que completam mais de uma rotação por segundo, mas recentemente cientistas têm encontrado estrelas que desafiam essa norma.
A estrela recém-descoberta, por exemplo, possui um período de rotação incrivelmente lento: 6,45 horas. Até então, acreditava-se que pulsares que girassem tão lentamente não poderiam emitir ondas de rádio detectáveis.
O estranho caso de ASKAP J1839-0756
ASKAP J1839-0756 é classificada como um transiente de rádio de longo período, um tipo raro de estrela. A descoberta é ainda mais intrigante por conta de um fenômeno inédito: entre seus pulsos principais, a estrela emite um pulso secundário mais fraco, proveniente do polo magnético oposto. Segundo Joshua Lee, membro da equipe da Universidade de Sydney, essa característica torna a estrela ainda mais incomum.
Inicialmente, os cientistas consideraram que o objeto poderia ser uma anã branca – restos de estrelas menores como o Sol. No entanto, cálculos indicaram que a massa e os pulsos emitidos não condizem com o perfil de uma anã branca isolada.
Magnetar ou algo ainda mais raro?
Outra hipótese levantada foi a de que o objeto poderia ser um magnetar, uma estrela de nêutrons com um campo magnético extremamente forte, até 10 trilhões de vezes mais poderoso que os melhores equipamentos de ressonância magnética terrestres. Embora magnetars tenham sido observados emitindo raios X, esta seria a primeira vez que um magnetar emitiria ondas de rádio tão lentas.
Manisha Caleb, líder do estudo na Universidade de Sydney, explica que a descoberta exige uma reavaliação dos conceitos atuais. “Este objeto está reescrevendo o que achávamos saber sobre os mecanismos de emissão de rádio de estrelas de nêutrons nas últimas seis décadas”, afirma Caleb.
“Zumbis estelares”: mortas, mas ainda ativas
A teoria vigente sugere que, conforme os pulsares desaceleram, eles cruzam uma “linha da morte” e param de emitir pulsos de rádio. Mas objetos como ASKAP J1839-0756 contradizem essa ideia, mantendo emissões mesmo após desacelerarem significativamente. Caleb compara essas estrelas a “zumbis”, sobreviventes inesperados de um processo que deveria extingui-las.
Desafios e novas perguntas
A descoberta de ASKAP J1839-0756 é apenas a ponta do iceberg. Ela sugere que nosso entendimento sobre o comportamento e a evolução de estrelas de nêutrons está longe de completo. Além disso, levanta questões sobre como esses objetos interagem com seu entorno e quais outras surpresas o cosmos pode nos reservar.
A pesquisa foi publicada na revista Nature Astronomy.
