Camundongo “mamute” criado em laboratório marca passo importante para ressurreição do mamute

Quando contemplamos o vasto tecido do tempo cósmico, percebemos que a extinção é apenas um evento momentâneo na grande dança da evolução. Agora, cientistas estão tentando reverter esse processo com ferramentas que nem Darwin poderia imaginar. A empresa de biotecnologia Colossal acaba de alcançar um marco fascinante em sua jornada para trazer de volta o mamute lanoso: o nascimento do primeiro camundongo lanoso do mundo.
Este pequeno roedor, nascido em outubro de 2024, não é apenas uma curiosidade científica adorável, mas representa um avanço significativo nas técnicas de engenharia genética que poderão um dia resultar no renascimento de uma espécie extinta há milhares de anos.
A ciência por trás do pelo: como criar um camundongo “pré-histórico”
A equipe da Colossal não está simplesmente brincando com genes por diversão. Este experimento tem um propósito específico: testar características genéticas que eventualmente serão utilizadas na criação de embriões de mamute para serem gestados por elefantas. O objetivo final é recriar um mamute capaz de sobreviver no Ártico e ajudar a restaurar o ecossistema da região.

Beth Shapiro, diretora científica da Colossal, explicou em entrevista que “testar essa hipótese diretamente em elefantes seria problemático, já que eles têm um período de gestação de 22 meses, o que tornaria o processo extremamente demorado, além de levantar sérias questões éticas”.
Foi aí que entrou o humilde camundongo, parceiro de laboratório dos cientistas há mais de um século. Humanos e camundongos compartilham aproximadamente 80% dos mesmos genes, segundo o site Understanding Animal Research. Além disso, esses pequenos roedores são sujeitos científicos ideais devido à sua curta expectativa de vida (cerca de 2 anos) e período de gestação extremamente rápido (19-21 dias).
Genes ancestrais em corpos modernos: a engenharia do impossível
Os cientistas da Colossal analisaram minuciosamente pesquisas relacionadas a camundongos e fizeram referências cruzadas de genes específicos com aqueles encontrados no DNA de mamutes. O resultado foi a identificação de sete genes cruciais, que foram modificados nos camundongos de laboratório, produzindo roedores com “coloração, textura e espessura de pelagem dramaticamente alteradas, reminiscentes das características centrais do mamute lanoso”, conforme declarou a empresa.
Ben Lamm, cofundador e CEO da Colossal, comentou entusiasmado: “O que descobrimos é que em 23 dias, em vez de 22 meses, o processo funcionou. Este é um passo gigantesco para nós, pois comprova que todo o trabalho realizado nos últimos três anos com o mamute lanoso está exatamente alinhado com nossas previsões.”
Os camundongos geneticamente modificados desenvolveram bigodes encaracolados e pelos ondulados mais claros, que podem crescer até três vezes mais do que o normal, além de apresentarem uma textura áspera e lanosa. Os roedores também parecem ter um corpo mais volumoso, resultado de outro gene alterado que leva a mudanças no peso corporal, característica presente nos mamutes.
Consequências inesperadas: ciência adorável
Uma consequência não planejada do experimento? “Eles são muito mais fofos do que imaginávamos”, confessou Lamm. “Já nos perguntaram: ‘vocês vão vendê-los? Vão criá-los?’ E as respostas são não… Tenho o prazer de informar que todos estão muito, muito saudáveis.”
O próximo passo será verificar se esses camundongos conseguem suportar o frio melhor que os camundongos comuns. Se isso for comprovado, esses genes serão considerados úteis para o retorno do mamute lanoso. A Colossal está consultando seu conselho de ética e seguirá os protocolos do Comitê Institucional de Cuidados e Uso de Animais em testes futuros, garantiu Lamm.

Os cientistas estão particularmente interessados em descobrir “se eles se comportam melhor sob temperaturas frias, se são mais rápidos ou mais lentos, como isso muda seu comportamento, e se acumulam mais peso e gordura”, explicou o CEO.
Do DNA fossilizado ao laboratório: a fonte do código genético pré-histórico
Lamm, um empreendedor de tecnologia e software, fundou a Colossal Laboratories & Biosciences em 2021 junto com George Church, biólogo da Escola de Medicina de Harvard, com o objetivo de “avançar rapidamente no campo da desextinção de espécies”, conforme anunciado pela empresa na época.
O retorno dos mamutes poderia revitalizar as pastagens árticas, que teriam “importantes propriedades de combate às mudanças climáticas, incluindo sequestro de carbono, supressão de metano e reflexão de luz”, segundo a empresa.
Os cientistas da Colossal realizaram uma análise computacional da composição genética ancestral de 59 mamutes lanosos, colombianos e das estepes, variando de 3.500 a mais de 1.200.000 anos de idade. Esse trabalho ajudou a identificar alvos genéticos cruciais para criar um mamute lanoso de próxima geração – na verdade, um “elefante resistente ao frio com todas as características biológicas centrais do mamute lanoso”, conforme a empresa explica em seu site.
“Ele andará como um mamute lanoso, parecerá com um, soará como um, mas, mais importante, será capaz de habitar o mesmo ecossistema anteriormente abandonado devido à extinção do mamute”, afirma a Colossal.
A empresa já declarou que espera ter seus primeiros filhotes de mamute lanoso até 2028. Uma ambição que, se concretizada, representaria um dos marcos mais extraordinários na história da biotecnologia moderna.
Questões éticas: vale a pena trazer de volta o passado?
O objetivo da desextinção não está livre de críticas. “Precisamos pensar sobre os danos que podem ocorrer: o sofrimento das doadoras de óvulos de elefante e mães substitutas, além dos mamutes clonados com possíveis defeitos anatômicos”, escreveram Emma Marris, autora que escreve sobre ciência, e Yasha Rohwer, professor assistente de filosofia no Instituto de Tecnologia do Oregon, no site do Center for Humans and Nature.
“Também devemos considerar o sofrimento do primeiro mamute que, como um animal social, provavelmente sentirá dor por viver em um mundo sem outros mamutes”, acrescentaram.
Um animal saudável não é 100% garantido, concorda Christopher Preston, professor de filosofia ambiental na Universidade de Montana e autor de “Tenacious Beasts: Wildlife Recoveries that Change How We Think about Animals”.
Além disso, o animal resultante não será verdadeiramente um mamute lanoso. “O que vamos trazer de volta é um parente adaptado, basicamente um elefante asiático com mais pelos ou genes de tolerância ao frio”, disse Preston em entrevista.
“Eu realmente admiro os cientistas”, afirmou. “São pessoas boas fazendo um bom trabalho, mas acho que a história precisa ser um pouco menos sensacionalista e eles precisam ser mais transparentes sobre o que estão realmente fazendo.”
Além do mamute: tigres da Tasmânia e dodôs no horizonte científico
Em outubro de 2024, a Colossal anunciou ter montado o genoma mais completo do tigre da Tasmânia, um passo importante para trazer de volta o tilacino australiano da extinção. A equipe espera eventualmente reestabelecer o tigre da Tasmânia na ilha da Tasmânia, localizada na ponta sudeste da Austrália.
A Colossal também está avançando em outro projeto, anunciado em 2023, para trazer de volta o dodô. O Grupo de Genômica Avícola da empresa está próximo de obter células germinativas primordiais em pombos, o que permitiria testes genéticos de características do dodô em pombos – semelhante aos experimentos com camundongos-mamutes.
A capacidade de fornecer “resgate genético” para aves poderia, eventualmente, permitir a engenharia genética de galinhas e outras aves resistentes à gripe aviária, explicou Shapiro.
Embora a Colossal esteja focada na “desextinção” de espécies, suas descobertas científicas poderiam ajudar a garantir a biodiversidade. “Nós, como sociedade, deveríamos realmente estar pensando em aumentar as ferramentas que temos à disposição para ajudar as espécies a sobreviverem a qualquer coisa que possa acontecer em seus habitats”, afirmou Shapiro.
O camundongo lanoso representa apenas o início de uma nova era na biologia de conservação, onde a fronteira entre passado e presente se torna cada vez mais permeável através da ciência. Como um astrônomo observando as estrelas mortas cujas luzes ainda viajam pelo cosmos, agora podemos vislumbrar espécies extintas retornando à Terra, não mais como fósseis, mas como seres vivos.
O projeto da Colossal nos lembra que, no vasto universo da genética, assim como no cosmos, o tempo pode ser manipulado de maneiras que antes pareciam impossíveis. E talvez, num futuro não muito distante, possamos ouvir o barulho de patas pré-históricas caminhando novamente sobre a neve do Ártico.
