Mais de 60 pegadas de dinossauros do início do Jurássico descobertas em uma rocha que esteve em uma escola por duas décadas

Por , em 21.03.2025

Olhando para o cosmos, frequentemente nos esquecemos que alguns dos maiores tesouros científicos estão bem debaixo de nossos pés, às vezes escondidos em lugares tão mundanos quanto o pátio de uma escola. Durante duas décadas, um extraordinário registro do Jurássico Inferior permaneceu praticamente invisível aos olhos desatentos, exposto em uma laje de rocha na Escola Secundária de Biloela, na Austrália. Esta peça, aparentemente comum, guardava um segredo fascinante que só agora foi revelado pela ciência.

Os cientistas já sabiam que esta laje de 1,5 metro de comprimento tinha aproximadamente 200 milhões de anos e continha algumas pegadas de dinossauros visíveis. No entanto, a verdadeira magnitude deste tesouro paleontológico permaneceu obscura até recentemente, quando uma equipe dedicada decidiu examinar mais profundamente esta relíquia do passado terrestre.

Em uma análise minuciosa que nos transporta para um mundo perdido, paleontólogos identificaram nada menos que 66 pegadas fossilizadas pertencentes a 47 dinossauros individuais da icnoespécie Anomoepus scambu. Para os não iniciados na terminologia paleontológica, icnoespécies são organismos identificados apenas através de fósseis-traço — impressões deixadas pelos animais, como pegadas – em vez dos restos orgânicos dos próprios seres.

Uma janela única para o Jurássico australiano

Esta descoberta representa uma das maiores concentrações de pegadas de dinossauros por metro quadrado já documentadas na Austrália. Conforme divulgado pela Universidade de Queensland, o achado oferece um ” instantâneo sem precedentes ” da abundância de dinossauros durante o Jurássico Inferior, período do qual nenhum osso de dinossauro foi encontrado em solo australiano. Os resultados foram publicados na revista científica Historical Biology em 10 de março.

O fato desta joia fóssil ter passado despercebida por décadas não surpreende o líder do estudo, Dr. Anthony Romilio, paleontólogo e pesquisador associado ao Laboratório de Dinossauros da universidade. “Pegadas fósseis de dinossauros tendem a ser vastamente subestimadas, mesmo por muitos paleontólogos”, explicou Romilio. É como se estivéssemos olhando para as estrelas com telescópios potentes, ignorando o mapa estelar gravado na pedra sob nossos pés.

Na Austrália, onde os ossos fossilizados mais antigos de dinossauros datam do Jurássico Médio, aproximadamente 160 milhões de anos atrás, “fósseos de pegadas são a única evidência direta que nosso país possui sobre os tipos de dinossauros que tínhamos aqui durante épocas anteriores”, ressaltou Romilio. Além disso, a laje proporciona um vislumbre raro do comportamento e atividade de um dinossauro que só foi descrito pelas suas pegadas encontradas em várias partes do mundo.

Tecnologia moderna revelando segredos antigos

Utilizando técnicas avançadas de imageamento 3D e filtros de luz, Romilio conseguiu desvendar detalhes ocultos na laje de pedra, revelando a multidão de pegadas e outras características, como a direção na qual os animais que deixaram as marcas estavam se movendo. É fascinante pensar que a mesma tecnologia que usamos para observar galáxias distantes pode nos ajudar a enxergar o passado da Terra com clareza sem precedentes.

As pegadas indicam que os dinossauros caminhavam em sentidos opostos, sugerindo que o local era um ponto de travessia de rio. Imagem cedida pela Universidade de Queensland.

As 66 pegadas fossilizadas, que variam em tamanho de aproximadamente 5 centímetros a 20 centímetros de comprimento, revelam que os dinossauros provavelmente estavam atravessando um rio ou percorrendo sua extensão. Como não há marcas de ondulação na superfície da rocha, é difícil determinar a direção do fluxo do rio, mas as trilhas claramente mostram os dinossauros caminhando em duas direções diferentes.

Através de sua análise, Romilio encontrou um total de 13 sequências de pegadas pertencentes a 13 dinossauros que fizeram as trilhas. As pegadas restantes, totalizando 34, foram classificadas como pegadas isoladas, contabilizando os 47 indivíduos totais. Os dinossauros que deixaram as marcas teriam pernas variando de 15 a 50 centímetros de comprimento, junto com um corpo robusto e braços curtos, conforme explicou o pesquisador.

A importância subestimada dos fósseis-traço

Embora os fósseis-traço sejam frequentemente negligenciados por serem mais comuns que ossos de dinossauros, eles podem “fornecer uma enorme quantidade de informações quando adequadamente analisados”, afirmou o Dr. Paul Olsen, paleontólogo e Professor Memorial Arthur D. Storke de Ciências da Terra e Ambientais na Universidade Columbia. Olsen, que estudou o Anomoepus, não esteve envolvido neste novo estudo, mas reconhece sua importância.

“As pegadas fornecem informações sobre animais que estavam presentes, mesmo quando não temos os ossos… Elas são realmente como um conjunto de dados paralelo que nos permite rastrear – trocadilho intencional — o que está acontecendo quando os ossos são raros. É por isso que são tão importantes”, explicou Olsen. Assim como astrônomos podem inferir a existência de planetas distantes pela sutil influência gravitacional em suas estrelas, paleontólogos podem reconstruir ecossistemas inteiros a partir de meras impressões na lama petrificada.

Pesquisadores também estudaram uma rocha usada como sinalizador na entrada do estacionamento da mina Callide, perto de Biloela. Nela foram identificadas duas pegadas bem definidas, deixadas por um dinossauro de porte um pouco maior. Imagem cedida pela Universidade de Queensland.

Com base no que se sabe sobre outras trilhas encontradas em partes dos EUA, Europa, África e China, o A. scambus era um dinossauro de três dedos, bípede, que pertencia à família dos ornitísquios, que inclui outros dinossauros herbívoros como os hadrossauros (dinossauros-pato) e os tricerátops, e possuíam bicos na frente da boca com dentes para trituração, segundo Olsen.

Distribuição global dos ornitísquios

Estas novas pegadas, que preservam muitos detalhes anatômicos, corroboram ainda mais que “pequenos dinossauros ornitísquios alcançaram uma distribuição global no início do Período Jurássico”, acrescentou Olsen. É impressionante pensar que, enquanto as placas tectônicas ainda estavam se separando do supercontinente Pangeia, estes pequenos dinossauros já haviam colonizado virtualmente todos os cantos do planeta.

Os autores do estudo também analisaram duas outras ocorrências de fósseis-traço encontrados em locais inesperados. Descobriram que um bloco de dois mil quilos usado como marcador de entrada de estacionamento na mina Callide, próxima a Biloela, tinha duas pegadas distintas deixadas por um dinossauro ligeiramente maior. E uma terceira rocha de uma coleção pessoal (usada como apoio de livros) continha uma única pegada. A serendipidade da ciência nos mostra que, às vezes, as descobertas mais significativas estão nos lugares mais improváveis – talvez até mesmo segurando seus livros de astronomia na estante!

A laje de rocha localizada na escola secundária também era originalmente da Mina Callide, que é uma mina a céu aberto, o que significa que a rocha sobrejacente é removida para chegar ao carvão subjacente, explicou Romilio. Durante a extração da rocha sobrejacente, que se estende por muitos quilômetros e data do período Jurássico Inferior, pegadas fósseis como essas podem ser encontradas.

O futuro das descobertas paleontológicas na Austrália

“Definitivamente há muito mais fósseis ocorrendo lá”, afirmou Romilio. “Se eles são avistados a tempo, ou se é seguro recolhê-los, é outra questão completamente diferente. Temos sorte de que estes e alguns outros tenham sido avistados , recuperados e disponibilizados para pessoas como eu estudá-los e compartilhar as descobertas.”

Esta descoberta nos lembra que o universo da paleontologia ainda tem muitos segredos a revelar, muitos deles potencialmente escondidos em locais cotidianos. Assim como os astrônomos continuam a encontrar novos corpos celestes em imagens antigas do espaço, os paleontólogos frequentemente redescobrem tesouros científicos que estavam esperando pacientemente por décadas, ou mesmo séculos, para serem devidamente reconhecidos.

A ciência, em sua essência, é tanto sobre olhar para frente quanto sobre reexaminar o que já conhecemos com novas perspectivas e tecnologias. Esta laje de rocha australiana, com suas 66 pegadas de dinossauros, nos lembra que o passado da Terra ainda tem muito a nos ensinar sobre a evolução da vida em nosso planeta: um pequeno ponto azul no vasto oceano cósmoco, mas com uma história biológica rica e fascinante que continua a nos surpreender.

O estudo completo sobre esta notável descoberta pode ser encontrado na revista Historical Biology, oferecendo aos entusiastas e pesquisadores uma análise detalhada deste importante achado paleontológico que enriquece nossa compreensão da fauna do Jurássico Inferior na Austrália e em todo o mundo.

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