JWST pode ter descoberto um novo tipo de estrela movida por matéria escura

Por , em 10.10.2025

As últimas observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST) sugerem que alguns dos corpos luminosos mais antigos do cosmos talvez não fossem estrelas comuns, mas colossos de hidrogênio e hélio alimentados por aniquilação de matéria escura. Um grupo internacional de pesquisadores identificou quatro candidatos distantes que apresentam espectros e formas compatíveis com essa hipótese — incluindo um intrigante sinal de absorção do hélio ionizado (He II 1640 Å). Se a suspeita se confirmar, esses objetos poderão elucidar dois grandes enigmas: a luminosidade inesperada de galáxias precoces e a formação surpreendentemente rápida de buracos negros supermassivos.

O que são as enigmáticas estrelas escuras

Logo após o Big Bang, as primeiras estrelas surgiram de nuvens imaculadas de hidrogênio e hélio. Mas os novos dados indicam que nem todas obedeceram ao manual clássico da fusão nuclear. Algumas parecem ter incorporado matéria escura em seu coração, funcionando como verdadeiros balões cósmicos brilhantes. Cosmin Ilie, da Colgate University, explica que esses objetos seriam nuvens gigantescas sustentadas pela pequena, mas poderosa, energia liberada quando partículas de matéria escura colidiam entre si.

Essas estruturas colossais poderiam pesar milhões de vezes mais que o Sol e, quando colapsassem, dariam origem a buracos negros monstruosos. É quase como se o universo tivesse recorrido a um “atalho cósmico” para acelerar o processo. Se confirmado, esse mecanismo explicaria a existência dos buracos negros supermassivos que alimentam quasares distantes, algo que sempre soou improvável em tão pouco tempo cosmico

Além disso a possibilidade de estrelas escuras ajuda a entender por que o JWST encontra galáxias incrivelmente luminosas tão cedo na história do universo. Esse excesso de brilho não parece se encaixar nas previsões anteriores de formação estelar.

Da teoria à pista observacional

A ideia de estrelas escuras não é nova. Katherine Freese, da Universidade do Texas em Austin, ao lado de Doug Spolyar e Paolo Gondolo, lançou a teoria em 2008 no periódico Physical Review Letters. Eles imaginaram que partículas de matéria escura — provavelmente do tipo WIMP (Weakly Interacting Massive Particles) — ao se chocarem, poderiam liberar calor suficiente para inflar estrelas imensas. Dois anos depois, em artigo no Astrophysical Journal, o grupo sugeriu que esse processo poderia semear os buracos negros mais antigos.

Hoje sabemos que cerca de um quarto do universo é formado por matéria escura, mas sua natureza permanece um dos maiores mistérios da física. Ela não emite luz, não reflete, não conversa com a radiação de forma direta, e ainda assim mantém galáxias inteiras unidas com sua gravidade. Se essas estrelas escuras realmente existiram, poderiam ser a primeira evidência indireta das partículas que compõem essa substância invisível.

Um detalhe curioso: enquanto caçamos essas partículas há décadas em laboratórios subterrâneos e aceleradores de partículas, talvez a melhor pista tenha estado brilhando sobre nossas cabeças, a bilhões de anos-luz de distância.

Candidatos encontrados pelo jwst

A equipe de Ilie e Freese analisou dados do programa JADES (JWST Advanced Deep Extragalactic Survey), que mapeia regiões no Campo Ultra Profundo do Hubble. Entre os alvos estão JADES-GS-z14-0, JADES-GS-z14-1, JADES-GS-13-0 e JADES-GS-z11-0. Cada um deles exibe características compatíveis com a hipótese das estrelas escuras.

Esta imagem registrada pelo Telescópio Espacial James Webb mostra a região investigada pelo programa JWST Advanced Deep Extragalactic Survey (JADES). A área observada corresponde ao Campo Ultra Profundo do Telescópio Espacial Hubble e seus arredores.
Créditos: NASA, ESA, CSA e M. Zamani (ESA/Webb).
Ciência: B. Robertson (UCSC), S. Tacchella (Cambridge), E. Curtis-Lake (Hertfordshire), S. Carniani (Scuola Normale Superiore) e a colaboração JADES.

Um dos objetos, o JADES-GS-z14-1, aparece como fonte pontual — exatamente o que se espera de uma estrela supermassiva muito distante. Já os outros três parecem ser tão compactos que podem estar ionizando o gás ao redor, criando uma espécie de “nebulosa pessoal”. E aqui entra a cereja do bolo: a equipe encontrou um indício de absorção em 1640 Å a marca típica do hélio ionizado, considerada a assinatura mais promissora desse tipo de astro

Embora o sinal seja fraco (S/N ~2), foi suficiente para deixar os cientistas animados. Ilie relatou que esse momento foi comparável à descoberta de uma pegada na areia onde ninguém esperava ver alguém andando.

Novas pistas inesperadas

O Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA), no Chile, também entrou no jogo. Seu espectro revelou a presença de oxigênio no mesmo objeto. Isso complica a história: talvez não estejamos olhando para uma estrela escura isolada, mas sim para uma estrela escura mergulhada em um ambiente rico em metais. Esse cenário pode ser fruto da fusão entre um halo de matéria escura e uma galáxia. Outra hipótese é que estrelas comuns e escuras tenham nascido lado a lado no mesmo “berçário cósmico”.

A identificação dessas estrelas abre uma porta fascinante: usar suas propriedades para investigar diretamente a partícula de matéria escura. Isso não só criaria uma nova área de pesquisa em astrofísica, como também traria implicações profundas para a cosmologia.

Um novo campo científico em gestação

O artigo publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences mostra que não se trata apenas de especulação: há agora candidatos observacionais concretos. É como se estivéssemos assistindo ao nascimento de uma nova disciplina — a astrofísica de estrelas movidas a matéria escura.

Claro, ainda falta muita confirmação. Mas, mesmo que alguns desses candidatos acabem sendo apenas galáxias distantes e não estrelas exóticas, o simples fato de conseguirmos caçar esses sinais já demonstra o poder extraordinário do JWST. Como editor de ciência, vejo nisso um lembrete do quanto ainda subestimamos a criatividade da natureza — e da tendência que o universo tem de esconder suas melhores piadas em escalas descomunais.

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