Cientistas “revivem” verme congelado no permafrost da Sibéria há mais de 46 mil anos

Por , em 10.11.2025
Imagem ilustrativa. Crédito: HypeScience.com

Um grupo internacional de pesquisadores trouxe de volta à vida um pequeno nematoide que passou nada menos que 46 milênios congelado no solo permanentemente gelado da Sibéria. A façanha, descrita na revista PLOS Genetics, vai além da curiosidade paleobiológica: abre novas perspectivas sobre como organismos podem pausar sua existência e retornar à atividade depois de eras inteiras.

O despertar de um hóspede do Pleistoceno

O verme estava enterrado em uma toca fóssil de roedores, selada pelo permafrost desde a última Era do Gelo. Fragmentos vegetais do mesmo depósito foram datados em cerca de 46 mil anos, garantindo a idade impressionante da descoberta. Bastou um aquecimento controlado no laboratório para que o animal retomasse funções vitais — movimento, alimentação e reprodução — como se tivesse apenas tirado um longo cochilo.

Esse tipo de sobrevivência extrema só foi possível porque o ambiente fornecia baixíssima umidade, pouco oxigênio e temperaturas estáveis abaixo de zero, condições que minimizam a degradação celular. É como se a própria natureza tivesse criado um congelador perfeito, pronto para guardar organismos por dezenas de milhares de anos.

Uma nova espécie com genética singular

Ao analisar a morfologia e o DNA do animal, a equipe liderada por Philipp Schiffer, da Universidade de Colônia, percebeu que não se tratava de um simples “congelado”. O nematoide foi classificado como uma espécie inédita, batizada de Panagrolaimus kolymaensis, em homenagem ao rio Kolyma, próximo ao local da descoberta.

Imagens detalhadas da fêmea do verme, feitas com diferentes tipos de microscópio, mostrando corpo inteiro, frente, região reprodutiva e cauda, para descrever como essa nova espécie se parece. Crédito: PLOS

O genoma revelou uma característica notável: triploidia, ou seja, três conjuntos completos de cromossomos. Esse arranjo genético incomum é típico de organismos que se reproduzem sem machos, por partenogênese. Assim, uma única fêmea é capaz de iniciar toda uma linhagem. É a versão biológica do “faça você mesmo” na escala evolutiva

Segredos da pausa biológica

O grande mistério era: como esse verme conseguiu se manter viável por tanto tempo? A resposta está em um processo chamado criptobiose, um estado em que a vida entra em suspensão quase total. Nessas condições, o metabolismo desacelera drasticamente, e moléculas como a trealose estabilizam proteínas e membranas, protegendo as células até que o ambiente volte a ser favorável.

Curiosamente, os cientistas descobriram que o P. kolymaensis compartilha genes de criptobiose com o bem estudado Caenorhabditis elegans, modelo clássico em biologia. Experimentos mostraram que, se as larvas desse último forem levemente desidratadas antes do congelamento, podem sobreviver a -80 °C por mais de um ano e meio. Ou seja, a capacidade de “hibernação celular” não é exclusiva do verme da Siberia — ela pode estar mais difundida do que se imaginava.

O que essa descoberta pode ensinar à medicina

Mais do que uma curiosidade arqueobiológica, entender os mecanismos do P. kolymaensis pode revolucionar práticas médicas. Protocolos inspirados na criptobiose poderiam melhorar o armazenamento de células-tronco tecidos para transplante e até órgãos inteiros, reduzindo perdas e diminuindo a dependência de químicos tóxicos usados na criopreservação tradicional. Pesquisas sobre transplantes de órgãos já mostram o quanto esse campo depende de inovação no armazenamento.

O verme antigo foi encontrado em uma toca de roedores fossilizada e congelada na Sibéria, junto de plantas e sementes que ficaram preservadas no gelo por dezenas de milhares de anos. Crédito: PLOS

A possibilidade de preparar organismos para o congelamento com técnicas simples — como desidratar antes de resfriar — pode abrir caminho para biobancos mais eficientes e acessíveis, democratizando tratamentos que hoje são extremamente caros.

Verme antigo, impacto atual

Se por um lado a redescoberta de um animal congelado por milênios encanta a imaginação, por outro lembra que o degelo acelerado do permafrost liberará uma enxurrada de microrganismos e pequenos animais de épocas remotas A maioria será inofensiva, mas o retorno de genes tão antigos pode adicionar diversidade inesperada às comunidades modernas.

Para mim, o mais fascinante é perceber que a natureza já testou estratégias de “pausa vital” muito antes de nós pensarmos em criogenia. Enquanto a ficção científica sonha em congelar astronautas rumo a outras estrelas, um verme siberiano mostra que a solução pode estar escondida debaixo da neve há dezenas de milhares de anos.

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