Uso de Cannabis ligada a uma mudança surpreendente nos níveis de testosterona

Durante anos, a explicação parecia pronta: cannabis reduziria a testosterona masculina. Essa ideia ganhou força a partir de trabalhos antigos, especialmente um estudo de Robert C. Kolodny e colegas publicado em 1974 no New England Journal of Medicine, com um grupo pequeno de usuários crônicos de maconha. O artigo virou uma espécie de carimbo científico, mesmo que estudos posteriores tenham encontrado resultados menos simples.
A nova peça nesse quebra-cabeça veio de uma equipe suíça liderada por Serge Rudaz, professor da Universidade de Genebra, e pelo pesquisador Mathieu Galmiche, hoje ligado ao Karolinska Institutet. Em vez de olhar só para a testosterona, eles analisaram um painel amplo de hormônios esteroides em homens jovens. O estudo saiu na revista Communications Medicine.
O resultado foi o oposto do que muita gente esperaria: usuários de cannabis apresentaram níveis de testosterona cerca de 23% mais altos do que não usuários.
O estudo olhou para mais do que uma molécula
A pesquisa avaliou 94 homens suíços de 18 a 23 anos, divididos em 47 usuários confirmados de cannabis e 47 não usuários pareados. Os participantes não foram classificados apenas por questionário: os cientistas mediram no sangue marcadores associados ao THC e ao THC-COOH, uma forma mais confiável de confirmar exposição recente.
A grande diferença metodológica foi o alcance do exame. A equipe identificou 70 esteroides endógenos no soro sanguíneo usando cromatografia líquida acoplada à espectrometria de massas em tandem, técnica conhecida como LC-MS/MS. Em linguagem direta: é um método de laboratório que permite enxergar várias moléculas hormonais ao mesmo tempo, sem depender de uma única peça da história.
Esse ponto importa porque a endocrinologia raramente funciona como um interruptor. Olhar só para testosterona pode ser útil, mas também pode esconder mudanças em rotas vizinhas. No caso da cannabis o efeito observado pareceu formar um padrão hormonal específico, não uma bagunça geral no organismo.
A pista mais forte aponta para os testículos
Além da testosterona, os usuários apresentaram níveis mais altos de androstenediona e di-hidrotestosterona, ou DHT. A androstenediona participa da produção de testosterona, enquanto o DHT é um andrógeno com ação forte em alguns tecidos. Esse trio chamou a atenção dos autores porque todos fazem parte de uma rota ligada à produção testicular.
O detalhe que deixou a interpretação mais interessante foi o comportamento das glândulas adrenais, que ficam sobre os rins e também produzem alguns andrógenos. Os chamados andrógenos C11-oxi, associados à origem adrenal, não mudaram de forma significativa. Ou seja: a cannabis não pareceu elevar todos os hormônios masculinos por igual.
No comunicado da Universidade de Genebra, Rudaz atribuiu esse padrão a uma possível ação mais localizada nos testículos, especialmente nas células de Leydig, responsáveis pela produção de testosterona. Essas células possuem receptores relacionados ao sistema canabinoide, o que torna biologicamente plausível uma interação com compostos da planta.
A surpresa veio também da progesterona
Dois compostos derivados da progesterona se destacaram de forma inesperada: 11β-hidroxiprogesterona e 5β-diidroprogesterona. A progesterona costuma ser lembrada como hormônio ligado à reprodução feminina, mas ela também aparece no organismo masculino e participa de rotas hormonais importantes.
Segundo Galmiche e colegas, esses dois metabólitos podem ajudar a monitorar alterações endócrinas associadas ao uso regular de cannabis. A 11β-hidroxiprogesterona apareceu como um possível marcador de exposição geral, enquanto a 5β-diidroprogesterona mostrou relação mais próxima com intensidade de uso e níveis de THC no sangue.
Isso não significa que esses compostos já tenham interpretação clínica pronta. Na verdade, o achado mostra que partes pouco estudadas do metabolismo hormonal masculino talvez estejam sendo ignoradas há anos. O THC não é apenas uma molécula associada ao efeito psicoativo; ele também interage com sistemas biológicos espalhados pelo corpo, inclusive os ligados à reprodução.
Mais testosterona não significa mais fertilidade
A reação mais fácil seria imaginar que mais testosterona equivale a melhor fertilidade masculina. Mas fertilidade não se resume a um número hormonal. Contagem de espermatozoides, motilidade, morfologia, volume seminal, capacidade de fertilização e integridade funcional também entram na conta.
Uma revisão sistemática de Keith S. Payne e colegas, publicada no Journal of Urology, reuniu estudos que associaram cannabis a alterações em parâmetros seminais, incluindo menor contagem, concentração, motilidade e alterações de morfologia dos espermatozoides. Ao mesmo tempo, a literatura humana ainda tem limitações importantes, com diferenças de desenho, dose, frequência de uso e fatores confundidores.
Por isso, o estudo suíço não permite dizer que cannabis melhora fertilidade masculina nem que a elevação da testosterona seja benéfica. Ela pode representar uma resposta compensatória, uma alteração direta nas células testiculares ou ainda um padrão associado ao perfil dos usuários. A pesquisa é transversal, então mostra associação, não causa definitiva.
O cérebro ainda pode estar envolvido
Os autores também observaram o eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, o sistema de comunicação entre cérebro e testículos. Dois hormônios importantes nessa rota, LH e FSH, não apresentaram diferenças claras entre usuários e não usuários. À primeira vista, isso favorece a hipótese de uma ação testicolar mais direta.
Mas há uma cautela necessária: LH e FSH são liberados em pulsos. Uma única amostra de sangue pode não capturar oscilações que acontecem ao longo do dia.
Também existe a possibilidade de causalidade reversa. Homens com testosterona naturalmente mais alta talvez tenham maior probabilidade de buscar experiências de risco, incluindo uso de cannabis. Ainda assim, o padrão observado — andrógenos testiculares elevados, andrógenos adrenais preservados e metabólitos de progesterona alterados — torna a explicação mais rica do que um simples “usuários já eram diferentes”.
O velho dogma ficou pequeno
A descoberta mais importante não é a frase “cannabis aumenta testosterona”. Essa frase sozinha seria quase tão simplista quanto o dogma antigo. O ponto real é que o consumo de cannabis parece estar associado a uma assinatura hormonal específica em homens jovens, e essa assinatura envolve mais do que a testosterona isolada.
O estudo também reforça uma lição básica: pesquisas antigas podem ser valiosas, mas não devem congelar debates por cinquenta anos. A ciência de 1974 tinha menos ferramentas, amostras menores e uma visão mais limitada do metabolismo hormonal. Hoje, técnicas mais sensíveis permitem enxergar rotas que antes passavam despercebidas.
No fim, o achado é interessante justamente porque incomoda os dois lados mais apressados da conversa. Ele não confirma a ideia de que cannabis necessariamente derruba testosterona, mas também não autoriza concluir que ela melhora a saúde reprodutiva masculina. O corpo parece estar dizendo algo mais específico: “olhem com mais cuidado”. E, nesse caso, talvez seja melhor obedecer.
