, ,

Leia isto antes de fazer uma cirurgia de vasectomia (eu fiz)

Por , em 16.12.2015

Criar um filho foi a coisa que mais exigiu dedicação de toda a minha existência; nunca fiz nada mais trabalhoso. Mas apesar de ser pai deixar muita gente infeliz pelo mundo foi a coisa mais recompensadora da minha vida até o momento. No entanto não quero repetir a dose e penso que todo mundo que tem mais de um filho é clinicamente insano e deveria ser internado.

A solução? Uma cirurgia de vasectomia.

No entanto a jornada para chegar até este resultado não é tão simples e muitos homens possivelmente desistem pelo meio do caminho. Eu quase desisti:

6. O Estado (e sua esposa) mandam nos seus espermas

cirurgia de vasectomia

“Minhas bolas!”

Como se 200 milhões de pessoas não fossem suficientes neste país, legalmente o homem é obrigado a ter mais de 25 anos e dois filhos vivos para poder realizar a cirurgia pelo SUS ou pelo plano de saúde. Como se isso não fosse suficiente você tem que esperar 60 dias entre informar a vontade de fazer a cirurgia de vasectomia e realizar o procedimento. Eu tive que assinar um consentimento reconhecido em cartório sobre os riscos do procedimento e, caso você tenha uma esposa, ela é obrigada a assinar também. Se sua outra metade não quiser que você se esterilize a solução é o divórcio para realizar o procedimento.

5. Ninguém apóia sua decisão de fazer uma cirurgia de vasectomia

cirurgia de vasectomia

Ele acabou de entender que nunca mais vai dormir.

Possivelmente a esmagadora maioria dos bebês da nossa nação nunca foi planejada e apesar de todos dizerem que amam os seus filhos você é muito mais receptivo com o hóspede que você chamou para entrar na sua casa do que com aquele que aparece sem ser convidado. Quando o hóspede defeca incontrolavelmente e chora o dia inteiro a hospitalidade tende a ser especialmente necessária. Não existe experiência melhor para a criança e para os pais do que um bebê planejado. E ainda assim é trabalho duro demais. Por isso qualquer pessoa que afirma categoricamente que não quer ter filho deveria ganhar um prêmio Nobel ao invés de ouvir estultices tentando convencê-los do contrário.

Quando falava sobre a decisão de me esterilizar ouvia coisas como “você vai se arrepender” ou “e se mudar de ideia?”. Cujas respostas eram respectivamente “vá se f*@&$” e “não vou”. Apesar de ter que ser encarado como um procedimento permanente caso que eu mude de ideia algum dia, reverter uma cirurgia de vasectomia é possível e eficaz em 95% dos casos. Todo homem também tem a possibilidade de congelar seus pequenos mergulhadores para uso posterior. O que eu tenho certeza que não existe é um procedimento para reverter um filho que você teve por acidente que não envolva crime hediondo.

Eu decidi gerar apenas um filho muitos anos antes de ter tido um. Apesar da decisão vir de longe eu me sentia um pouco desconfortável, fora do lugar, ao efetivamente levar o projeto a cabo e marcar a cirurgia. Como se estivesse fazendo algo errado. Como se as pessoas fossem me tratar diferente após eu me tornar estéril. A soma das forças evolutivas que colocam a reprodução como um imperativo e a pressão social estavam me oprimindo mesmo sem que eu percebesse.

4. A preparação da cirurgia de vasectomia é um saco

cirurgia de vasectomia

Vasectomia: Procedimento simples e rápido

Tive 60 dias (obrigatoriamente, por lei) para pensar na minha decisão, mesmo tendo certeza do que queria. Tive que fazer exames de sangue pré-operatórios e pedir “por favorzinho” para alguém que não deveria mandar na minha capacidade de ter crias, mas apenas opinar. Além desta burocracia eu tive que cortar os pelos pubianos o mais curtos possível logo antes da cirurgia de vasectomia. Não tive coragem de usar lâmina, porque algo afiado lá embaixo é o pior pesadelo de qualquer homem que não quer ter voz fina. Decidi usar a máquina de cortar cabelo. Alerta: muita atenção neste momento, seja extremamente cuidadoso, pois aquele treco é feito para ser usado em superfícies lisas como seu couro cabeludo e tende a enroscar em superfícies enrugadas como descobri da pior maneira. Duas vezes.

Chegando na sala de cirurgia, já usando aquela camisola que deixa a bunda de fora, fui recebido pela instrumentadora que imediatamente me mandou deitar na mesa cirúrgica. Deitado, ela acabou com toda a minha dignidade levantando a camisola para me expor totalmente. Para completar o embaraço: o frio e a vergonha deixaram tudo encolhido como uma tartaruga assustada.

3. O médico me proibiu assistir

cirurgia de vasectomia

“Você não vai sentir nada.”

Quando eu estava deitado na mesa cirúrgica, exposto e completamente sem dignidade, o médico aparece na porta e fala bem alto “tá bonito, héin?!”. Respondi imediatamente mandando ele lavar muito bem as mãos pois estava prestes a manipular jóias valiosas. Ele riu.

Eu queria muito assistir o procedimento, mas ele estava preocupado que mesmo com a anestesia eu fosse “sentir dor” por estar observando. É um efeito psicológico comum, pois quando você não olha para a injeção que vai tomar, ela não dói. Falando em injeção, o anestésico é a única parte dolorida em todo o procedimento, mesmo assim é pouca e curta. Mais um incômodo do que dor. Há técnicas de anestesia sem agulha, e segundo os pacientes podem causar um pouco de ardência na aplicação.

Apesar da anestesia a sensação de tato permanece intacta, apenas a dor vai embora. Portanto eu senti cada pegada, puxada, agarrada, cutucada, mas não podia enxergar nada por causa do campo cirúrgico que bloqueava minha visão. Isso tudo simulava dor na minha mente, mas logo me acostumei e deixei de me importar. Caso esteja curioso, eu tinha assistido este vídeo para me preparar psicologicamente (deixe o vídeo mudo, pois a música de elevador só vai te deixar mais tenso):

Após o médico ter concluído o procedimento e me costurado eu respirei aliviado apenas para descobrir que ele tinha que repetir tudo incluindo a pior parte, a anestesia, do outro lado da bolsa escrotal. São dois canais deferentes que conduzem o esperma. Obviamente ambos devem ser cortados e para isso são feitas duas incisões, uma a cada lado do escroto.

Depois do procedimento ainda tive que bater perna, apesar de não ser aconselhável. Chamei um táxi, fui para o laboratório levar os pedaços de canal deferente que ele tinha arrancado do meu saco para biópsia e passei na farmácia para comprar remédios dos quais não necessitei da maioria, pois não tive dor.

2. A recuperação é a pior parte

cirurgia de vasectomia informações

A dor das incisões foi quase inexistente, mesmo depois do efeito da anestesia passar. Mas andei de pernas abertas por vários dias, pois parece que você tomou um chute no saco e a região fica muito sensível por semanas. Qualquer toque é dolorido. É um pouco incômodo para achar uma boa posição sentado. Quase urrei de dor quando tentei cruzar as pernas, sem lembrar que estava operado. O local da anestesia fica inchado e meio roxo por umas duas semanas. No entanto eu já estava caminhando tranquilamente e dirigindo no dia seguinte.

Tive que manter gazes limpas e sempre secas firmes na cueca justa, para evitar movimentação e hemorragia. Lavei as incisões com sabonete antisséptico a cada banho. Entre duas e quatro semanas todos os pontos caíram ou foram absorvidos.

1. Depois de tudo isto ainda corria o risco de fazer filhos

Uma semana após a cirurgia eu já estava habilitado a usar o meu equipamento para fins de entretenimento novamente. Mesmo assim ainda corria o risco de uma gravidez inesperada: isso ocorre porque demora cerca de 23 ejaculações para livrar todo o sistema do esperma residual. Os médicos estimam três meses. Mas eu sou teimoso e depois de um mês fiz o exame mais encabulador da minha vida “coletando” uma amostra no banheiro do laboratório. Na mesma tarde saiu o resultado: zero espermas.

Se eu engravidar alguém este cara aqui é quem vai nascer.

Se eu engravidar alguém este cara aqui é quem vai nascer.

Apesar do SUS ou o plano de saúde teoricamente cobrirem o custo de uma vasectomia, na prática é complicado fazer sem pagar do próprio bolso e impossível se você não preencher os requisitos de ter dois filhos, mais de 25 anos e a esposa assinar um consentimento. Mesmo pagando do bolso ainda assim é infinitamente mais barato do que colocar uma nova pessoa na face do planeta pois o procedimento custa cerca de uma 1,5 mensalidades de uma boa escola particular (incluí o custo das consultas e medicamentos do pós operatório na conta também). Será possivelmente o segundo melhor investimento que já fiz na vida. Meu melhor investimento é o meu filho, mas não para meu próprio lucro.

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (10 votos, média: 4,60 de 5)

11 comentários

  • Leandro Benjamin:

    Tenho quatro filhos, 19, 13, 2, e um que vai nascer esse mês. Agradeço muito por tê-los, melhor coisa que existe na vida.

  • jcarlos:

    LEI Nº 9.263/1996. Art 10º: inc. I

  • jcarlos:

    Na verdade não é preciso ter mais de 25 anos “E” dois filhos, é preciso ter mais de 25 anos “ou” dois fihos, o que ocorrer primeiro.

  • walter weber:

    Fiz vasectomia em 1977, minha esposa foi a “enfermeira”, foi simples e foi a melhor coisa que fiz em minha vida e o convenio não cobre.

  • Alex Alves:

    Fiz há 20 dias, pelo SUS. Não teve nada dessa burocracia. Sem exames. Entre palestra e cirurgia foram 30 dias.

  • Marcelo Bonente:

    Eu não tenho filhos, e nunca quis, ou irei querer, tenho 26 anos, e fui a um médico particular, e FDP disse que a lei não me deixa fazer.

    • Marcelo Ribeiro:

      FDP de carteirinha!

  • Camila Godoy:

    Eu achava que era mais dificil e burocrático só com as mulheres, mas to vendo que não.

    • Marcelo Ribeiro:

      Para as mulheres é uma cirurgia de grande porte e bem mais complicada. Às vezes DIU é uma opção melhor.

  • Cesar Grossmann:

    Eu fiz no ano 2000, tive que pagar do bolso, não teve tanta frescura, e assisti pelo reflexo em um acrílico na iluminação de campo.

    A parte de raspar os pelos foi uma enfermeira (tive que ficar MUITO sério para não… bom… uma moça, manipulando as jóias da família, é muito difícil não demonstrar entusiasmo) no meu caso, e em 2000 acho que o SUS ainda não fazia este tipo de cirurgia, por isto tive de pagar do bolso.

    O corte e acabamento era mais ou menos assim: o médico primeiro apalpou os testículos para ver se algum deles tinha dois canais (acontece). Depois ele fez uma incisão do lado, puxou o canal, cortou ele e, em cada ponta, amarrou, cauterizou, dobrou e amarrou novamente, e então prendeu debaixo de uma dobra de pele, para garantir que não se encontrassem depois. Depois fez a mesma coisa do outro lado.

    Eu consegui assistir a tudo, mas foi por que a iluminação de campo estava protegida por uma placa de acrílico, e a área da cirurgia acabou sendo refletida pela placa de acrílico. Se dependesse do médico, não veria nada, ele levantou até uma “parede” na altura da cintura para eu não ver absolutamente nada. Só para sacanear fiquei o tempo todo fazendo perguntas “isto daí, branquinho, é o canal? você agora vai fazer o quê?” etc.

    ​Na minha recuperação, a receita dizia para usar uma pomada antisséptica no local, e tomar um analgésico caso sentisse dor. Senti dor, tomei o analgésico, não tive problemas com infecção (usei generosas doses de pomada), e sempre com o tal de suporte atlético. Depois de um mês praticando o sexo solitário, fui fazer uma coleta de esperma, mas o cara da clínica achou que eu estava querendo fazer um tratamento de fertilidade, e ia mandar fazer várias coletas durante a tarde (com o consultório vazio), com não sei quantas horas entre uma e outra “coleta”, e fazer a contagem, aí nesta hora eu disse “tem que ser zero”. E ele “como assim?” Aí eu contei “fiz uma vasectomia, a contagem tem que ser zero”. Aí ele disse “ah, mas então não precisa nada disso, vai ali no banheiro e faz a coleta aqui neste vidro”.

    Tomei a decisão de fazer a vasectomia quando vi minha esposa deitada em uma poça do próprio sangue em uma mesa cirúrgica, ela teve algumas complicações depois da cesariana do nosso quarto filho. Ela acabou se recuperando, e quando voltou para casa, tinha uma preocupação a menos (contraceptivos).

  • Cristian Avencurt:

    Fiz e recomendo fazerem, mas achei um absurdo eu não poder mandar no meu próprio corpo.

    E claro, tive pagar por todo o procedimento!

Deixe seu comentário!