Como convencer alguém de que ele cometeu um crime que nunca ocorreu

Por , em 18.01.2015

Todos nós sabemos que existem condenações injustas. Isso sugere que os suspeitos podem ser questionados de forma que os levam a falsamente acreditar e/ou confessar crimes que não cometeram.

Agora, uma nova pesquisa descobriu o fenômeno por trás desses casos, mostrando que adultos inocentes podem ser convencidos, ao longo de algumas horas, que tinham perpetrado crimes tão graves quanto assalto a mão armada em sua adolescência.

“Nossos resultados mostram que falsas memórias de um crime podem ser surpreendentemente fáceis de gerar, e podem ter todos os mesmos tipos de dados complexos que as memórias reais”, disse a cientista psicológica e principal da pesquisadora do estudo, Julia Shaw, da Universidade de Bedfordshire (Reino Unido).

A pesquisa

Shaw e outro coautor do estudo, Stephen Porter, da Universidade de British Columbia (Canadá), entraram em contato com a família de estudantes universitários que participaram do estudo.

Eles foram convidados a preencher um questionário sobre eventos específicos que os alunos podiam ter experimentado entre as idades de 11 a 14 anos, fornecendo o máximo de detalhes possível. Em seguida, foram orientados a não discutir as questões com os estudantes.

Os pesquisadores identificaram um total de 60 estudantes que não tinham sido envolvidos em qualquer crime e que de outra forma preenchiam os critérios do estudo. Esses alunos foram levados ao laboratório para três entrevistas de 40 minutos, que aconteceram com cerca de uma semana de intervalo.

Na primeira entrevista, o pesquisador disse ao aluno sobre dois eventos que ele ou ela tinha experimentado quando adolescente, dos quais apenas um realmente havia acontecido. Para alguns, o falso evento era relacionado a um crime que resultou em contato com a polícia (assalto, assalto com arma ou roubo). Para outros, o falso evento foi de natureza emocional, como lesão corporal, ataque de um cão ou a perda de uma grande soma de dinheiro.

É importante ressaltar que as histórias de eventos falsos incluíam alguns detalhes verdadeiros sobre esse tempo da vida do aluno, extraídos do questionário feito pela família.

Os participantes foram convidados a explicar o que aconteceu em cada um dos dois eventos. Quando tiveram dificuldade em explicar o evento falso, o entrevistador encorajou-os a tentar de qualquer maneira, explicando que, se eles usassem estratégias de memória específicas, seriam capazes de recordar mais detalhes.

Na segunda e terceira entrevistas, os pesquisadores novamente pediram aos alunos para lembrar o que pudessem sobre os eventos.

Os resultados foram verdadeiramente surpreendentes. Dos 30 participantes que foram informados que tinham cometido um crime quando adolescente, 21 (71%) foram classificados como tendo desenvolvido uma falsa memória do crime; dos 20 que foram informados sobre um assalto de algum tipo (com ou sem uma arma), 11 relataram detalhes elaborados da falsa memória de suas interações com a polícia.

Uma proporção similar de alunos (76,67%) formou falsas memórias do evento emocional do qual foram informados.

Curiosamente, os falsos eventos criminais pareciam ser tão críveis quanto os emocionais. Os alunos tenderam a fornecer o mesmo número de detalhes e relataram níveis similares de confiança e vivacidade na memória dos dois tipos de evento falsos.

Um grande problema

Shaw e Porter especulam que a incorporação de detalhes verdadeiros, como o nome de um amigo real, provavelmente dotou o falso evento de familiaridade o suficiente para parecer plausível.

Houve, no entanto, algumas diferenças entre as memórias dos alunos para eventos falsos e suas memórias para eventos verdadeiros. Por exemplo, eles relataram mais detalhes sobre fatos reais e mais confiança em suas descrições das memórias verdadeiras.

Os resultados têm implicações claras em interrogatórios criminais e outros aspectos do procedimento legal. Isso coloca em cheque a credibilidade de suspeitos e testemunhas e complica o trabalho do entrevistador, que não pode influenciar nas memórias do interrogado.

“Entender que existem essas memórias falsas complexas e que pessoas ‘normais’ podem ser levadas a gerá-las muito facilmente é o primeiro passo para a sua prevenção”, diz Shaw. [ScienceDaily]

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