Crianças transgênero sabem quem são

Por , em 18.01.2019

Há ainda poucas pesquisas que estudem a natureza de pessoas transgênero, e elas são cada vez mais necessárias para ajudar a superar o tabu e o preconceito que este tema sempre atrai. Um novo estudo, feito a partir de uma outra pesquisa, de longo prazo e feita para analisar a saúde e o bem-estar de crianças transgênero (aquelas que se identificam com um gênero diferente daquele que foram designadas no nascimento), descobriu que pessoas que, quando crianças, não se conformam com seu gênero e constantemente desafiam os estereótipos de gênero, já têm um forte senso de identidade que condiz com o gênero com o qual se sentem mais confortáveis neste período da vida – e é muito improvável que isso mude com os anos.

Crianças transexuais: 10 histórias que vão emocionar você

Desde 2013, Kristina Olson, psicóloga da Universidade de Washington, nos EUA, tem realizado um grande estudo de longo prazo sobre crianças transgênero. Desde o lançamento do estudo, Olson recebeu o contato de pais de crianças que não se sentiam confortáveis dentro de seus gêneros, mas que não eram transgênero – ou seja, não haviam feito nenhuma mudança social, como mudança de nome, etc: eram meninos que gostavam de usar vestidos ou meninas que brincavam com caminhões, mas que não mudaram, por exemplo, os pronomes que usavam para se referir a si mesmos (como intervenções médicas como bloqueio de hormônios e cirurgias de readequação não são consideradas para crianças pequenas das idades estudadas por Olson, seu estudo usa esta variação nos pronomes como o marcador central de uma transição social. Mudá-los é uma declaração significativa de identidade e é muitas vezes acompanhada de uma mudança no penteado, roupas e até nomes).

Esses pais perguntaram se seus filhos poderiam participar do estudo, e Olson concordou.

Depois de um tempo, ela percebeu que havia, sem querer, recrutado um grupo considerável de 85 participantes com estes problemas de gênero, com idades entre 3 e 12 anos. E, enquanto mantinha contato com as famílias ao longo dos anos, ela descobriu que algumas dessas crianças acabaram fazendo a transição. “[Como um número] suficiente deles estava fazendo isso, tivemos essa oportunidade única de analisar nossos dados para ver se as crianças que foram para a transição eram diferentes daquelas que não faziam isso”, conta Olson em matéria publicada no site da revista The Atlantic.

Identidade forte

Ao estudar as 85 crianças, sua equipe descobriu que aqueles que vão para a transição o fazem porque já têm um forte senso de identidade. Dados de longo prazo a respeito desta tendência são escassos. Conforme identidades transgêneras ganharam mais aceitação social, mais pais estão sendo confrontados com questões sobre se e como apoiar seus jovens filhos não-conformes ao gênero.

“Há muitos textos focados na ideia de que não temos ideia de quais dessas crianças não conformes de gênero irão ou não identificar-se como trans. Nosso estudo sugere que não é aleatório. Não podemos dizer que essa criança será trans e esta não será, mas não é que não tenhamos ideia!”, esclarece Olson. Essa é uma resposta a estudos que já defenderam a teoria de que, se apenas pequenas proporções dessas crianças chegam até a transexualidade, elas não deveriam estar em transição.

“Este estudo fornece mais credibilidade à orientação que os profissionais e outros profissionais devem afirmar – ao invés de questionar – a afirmação de um gênero por parte da criança, particularmente para aqueles que se identificam mais fortemente com seu gênero”, diz na mesma matéria Russell Toomey, da Universidade do Arizona, que estuda a juventude LGBTQ e é ele mesmo transgênero.

Autoconhecimento

As crianças participantes fizeram cinco testes no estudo que avaliavam quais brinquedos e roupas elas preferiam; se preferiam brincar com garotas ou garotos; quão similares elas se sentiam com meninas ou meninos; e a quais gêneros elas sentiam que pertenciam ou pertenceriam. Juntos, esses marcadores de identidade deram à equipe uma maneira de quantificar o senso de gênero de cada criança.

Novo estudo pode mudar a vida de adolescentes transgêneros

A equipe descobriu que as crianças que mostraram uma não-conformidade de gênero mais forte neste momento eram mais propensas à transição social. Assim, por exemplo, os meninos que tinham as identidades femininas mais extremas eram mais propensos a viver como meninas dois anos depois. Essa conexão não pode ser explicada por outros fatores, como o quanto os pais das crianças eram liberais ou não. Em vez disso, a identidade de gênero das crianças previa suas transições sociais. “Acho que isso não surpreenderia os pais de crianças trans e minhas descobertas são muitas vezes descobertas “duh” para eles. Parece bastante intuitivo”, diz Olson

Esta pesquisa corrobora outros estudos que também mostram que há um autoconhecimento muito forte e prematuro nestes casos. “Um dos temas mais consistentes [em entrevistas com pessoas trans] é que, em algum momento, às vezes entre os 3 e os 5 anos, há a sensação de que o indivíduo faz parte de outro grupo de gênero. Quando ouvem que fazem parte de seu gênero atribuído, eles dizem: ‘Não, isso não está certo. Isso não me serve’. Eles têm um autoconhecimento que é privado e que eles estão tentando comunicar”, diz Charlotte Tate, psicóloga da Universidade Estadual de São Francisco, também nos EUA.

A equipe de Olson também mostrou que essas diferenças na identidade de gênero são a causa das transições sociais – e não, como alguns já sugeriram, sua consequência. Depois de avaliar o grupo de 85 crianças com problemas de gênero, a equipe administrou os mesmos cinco testes de identidade de gênero a um grupo diferente de 84 crianças transgênero que já haviam transitado e a um terceiro grupo de 85 crianças cisgêneras que se identificavam com o sexo a que foram atribuídas ao nascer. Nenhum desses três grupos diferiu na força média de suas identidades e preferências. Em outras palavras, as meninas trans que ainda estavam vivendo como meninos se identificavam como meninas tão fortemente quanto as meninas trans que fizeram a transição para viver como meninas e como meninas cis que sempre viveram como meninas.

Ou seja, ser tratada como uma menina não faz uma criança trans sentir-se ou agir mais como uma menina, porque ela sempre se sentiu assim.

“A ideia de que isso muda as crianças de alguma forma, e que tomar essa decisão vai necessariamente colocar uma criança em um determinado caminho, está implícita nas preocupações de muitas pessoas sobre a transição social. Esta descoberta sugere o contrário”, diz Olson. Ou seja, as crianças mudam de sexo por causa de suas identidades; elas não mudam de identidade porque mudam de sexo.

“As conclusões deste estudo fornecem mais evidências de que as decisões de transição social são impulsionadas pela compreensão que uma criança tem do seu próprio gênero. Esta é uma informação criticamente importante”, diz Toomey.

Probabilidades

Um estudo controverso, de 2013, analisou 127 adolescentes que haviam sido encaminhados a uma clínica para tratar sua “disforia de gênero”, um termo médico que descreve o sofrimento quando alguém tem identificação com o gênero oposto ao daquele atribuído no nascimento. Apenas quatro pessoas entre estas 127 haviam transitado socialmente na primeira infância e acabaram se identificando como transgêneros no futuro. Por outro lado, a maioria daqueles que não fizeram a transição não tiveram disforia de gênero mais tarde.

“As pessoas compreenderam deste estudo que muitas dessas crianças não serão trans quando adultas, então você não deveria estar socialmente fazendo a transição delas, ou que as transições sociais estão mudando a identidade das crianças. Estamos sugerindo que as crianças que estão em transição social parecem ser diferentes mesmo antes dessa transição, o que desloca a interpretação do estudo anterior”.

5 realidades chocantes que a mídia ignora sobre ser um transexual

O novo estudo não é infalível. Ele é relativamente pequeno e todas as crianças vieram de famílias abastadas, instruídas e desproporcionalmente brancas. Para resolver pelo menos parcialmente essas deficiências, Olson fez uma análise multiverso: ela reavalia as análises de várias maneiras diferentes para ver se ainda obteria o mesmo resultado. E se, em vez de usar todos os cinco testes de identidade de gênero, ela apenas observasse combinações de quatro? Ou três? Dois? A equipe executou todos esses cenários hipotéticos e, em quase todos eles, os resultados foram os mesmos.

Olson salienta que ela não tem nenhum teste mágico que possa prever exatamente quais crianças farão a transição e quais não. É uma questão de probabilidades. Em seu estudo, com base em suas respostas, todas as crianças obtiveram um escore de não-conformidade de gênero entre 0 e 1. Aquelas que pontuaram 0,5 tiveram uma chance em três de transição social, enquanto aquelas que tiveram 0,75 tiveram uma em duas chances.

“Quanta não-conformidade de gênero é ‘suficiente’ para acalmar as ansiedades que os pais sentem em torno da transição é uma questão em aberto”, diz Tey Meadow, sociólogo da Universidade de Columbia, nos EUA, que estuda sexualidade e gênero. Meadow salienta como é difícil para os pais tomar uma decisão positiva para seus filhos. Afinal, eles devem decidir sobre o acesso de uma criança à transição e tomar decisões “em uma cultura que incentiva os pais a procurarem todas as alternativas possíveis ao invés de transicionar”, acrescenta.

“Não é como se você pudesse coletar uma amostra de sangue ou fazer uma ressonância magnética. Uma das frases usadas com frequência é ‘consistente, persistente e insistente’. Quando você consegue essa constelação, essa criança também é uma criança que pode querer fazer a transição. E é isso que a pesquisa [de Olson] está confirmando. Acrescenta alguns dados muito valiosos”, avalia Aaron Devor, diretor de estudos transgêneros da Universidade de Victoria, no Canadá, ele próprio transgênero.

Devor e outros observam que os estudos anteriores de Olson sugerem que as crianças que são apoiadas e afirmadas em suas transições são tão mentalmente saudáveis ​​quanto seus colegas cisgêneros. No texto da Atlantic, o jornalista Ed Yong compara estes estudos com o da psicóloga americana Evelyn Hooker, famosa por ajudar a desfazer o mito de que a homossexualidade era uma doença

“Na década de 1950, quando muitos psicólogos viam a homossexualidade como uma doença mental (em grande parte porque eles só trabalhavam com gays que tinham registros de problemas de saúde mental ou de prisão), Hooker pesquisou uma amostra mais representativa e descobriu que homens gays e heterossexuais não diferem em sua saúde mental. Isso foi fundamental para remover a homossexualidade de uma lista de transtornos mentais em 1987. “Estamos em um momento semelhante hoje com o transgenerismo”, diz Devor. “Os problemas de saúde mental que vemos são em grande parte o resultado de viver uma vida que bloqueia a expressão do seu gênero. Minha opinião é que o trabalho que sai do grupo de Olson terá um efeito Evelyn Hooker”, aponta o texto. [The Atlantic, Huffington Post]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (28 votos, média: 3,71 de 5)

Deixe seu comentário!