Cura gay: cientistas contratam prostituta para condicionar homossexual a tornar-se hétero

Por , em 19.07.2016

Durante a primeira hora, eles apenas conversaram. Ele estava nervoso; nunca tinha feito isso antes. Ela era compreensiva e tranquilizadora: “vamos deitar na cama juntos”, ela disse, “e ver o que acontece”. Em breve, os acontecimentos tomaram seu curso: eles estavam se divertindo tanto que quase podiam esquecer-se sobre os fios que estavam conectados à cabeça dele.

O ano era 1970, o homem era um paciente psiquiátrico de 24 anos. A mulher, de 21 anos, era uma prostituta do bairro francês de Nova Orleans, contratada com permissão especial do procurador-geral da Louisiana. E eles tinham acabado de se tornar parte de uma das experiências mais estranhas, bizarras e cruéis da história científica: uma tentativa de usar o prazer condicionado para transformar um homem gay em heterossexual, uma tentativa de “cura gay” em laboratório.

O paciente – com o codinome B-19 – era, de acordo com os dois trabalhos acadêmicos que catalogaram o curso da experiência, um “homem solteiro, branco, de gestação e nascimento comuns”. Ele veio de uma família militar e tinha tido uma infância infeliz. Ele tinha entrado para o exército, mas havia sido expulso por “tendências homossexuais” dentro de um mês. Ele tinha um histórico de cinco anos de homossexualidade, e um histórico de abuso de drogas de três anos: ele provou cola, tinta, diluentes, sedativos, maconha, LSD, anfetaminas, até mesmo noz-moscada e extrato de baunilha. O paciente também tinha epilepsia do lobo temporal. Era depressivo, suicida, inseguro, procrastinador, autopiedoso e narcisista. “Todos os seus relacionamentos”, escreveram seus médicos, com uma impiedosa falta de simpatia, “têm sido caracterizados pela coerção, manipulação e exigência”.

No cérebro

Em 1970, B-19 acabou sob os cuidados de Robert Galbraith Heath, presidente do departamento de psiquiatria e neurologia da Universidade de Tulane, em Nova Orleans. A prescrição de Heath foi drástica. Ele e sua equipe implantaram eletrodos de aço inoxidável revestidos de teflon em nove regiões distintas do cérebro de B-19, com os fios conduzindo para fora de seu crânio. Quando ele se recuperou da operação, uma caixa de controle foi anexada, o que lhe permitiu, sob a supervisão de seus médicos, fornecer um choque de um segundo na área do cérebro de sua escolha.

Antes de receber o controle dos eletrodos, B-19 assistiu um filme “exibindo as preliminares de relações sexuais heterossexuais”. Ele reagiu com raiva e repulsa. Mas, em seguida, as sessões de estimulação começaram, através do botão que parecia mais agradável para ele. Ao longo dos próximos dias, ele descobriu que poderia ficar estimulado, e passou a pressionar o botão “a um ponto que, tanto comportamentalmente quanto introspectivamente, ele estava experimentando uma euforia e uma exaltação quase esmagadoras, e teve de ser desligado, apesar de seus protestos vigorosos”. Ele chegava a apertar o botão até 1.500 vezes durante uma sessão de três horas.

A experiência

Depois de dez dias com este tratamento, os médicos sugeriram que B-19 assistisse ao filme pornô novamente. “Ele concordou, sem relutância, e durante a sua exibição ficou sexualmente excitado, teve uma ereção, e se masturbou até o orgasmo”. Ele começou a falar sobre o desejo de ter relações sexuais com mulheres – e assim Heath obteve permissão para contratar alguém que ele mais tarde se referiu como uma “dama da noite”. “Nós pagamos 50 dólares a ela”, disse. “Eu disse a ela que poderia ser um pouco estranho, mas o quarto seria completamente fechado com cortinas”.

Ela certamente fez o seu trabalho, orientando B-19 através do processo e encorajando-o a construir gradualmente a sua confiança. “Quando a segunda hora começou, ela relata que sua atitude teve uma mudança ainda mais positiva, para a qual ela reagiu através da remoção de seu sutiã e calcinha e deitando ao lado dele. Então, de forma paciente e solidária, ela o encorajou a passar algum tempo em uma exploração manual”. Apesar de sua timidez inicial, ele acabou tendo uma experiência tão boa que – para a alegria de seus médicos – muitas vezes ele fez uma pausa antes do momento do orgasmo, a fim de prolongar o seu prazer.

Mas então será que a “cura” de Heath realmente funciona? Em um artigo que ele escreveu com o colega Charles E Moan, Heath afirmou que B-19 – que ele identificou em entrevistas contemporâneas como um prostituto – teve posteriormente um relacionamento de dez meses com uma mulher casada. Enquanto ele também tinha voltado a ter atividade homossexual, isso só tinha acontecido duas vezes, “quando ele precisava de dinheiro e essa era uma maneira rápida para obtê-lo quando ele estava sem trabalho”, segundo o médico.

Heath acrescentou que “tais ações não se destinavam a substituir o sexo com mulheres, o que ele indicou estar definitivamente motivado a continuar”. Em uma entrevista em 1972, ele foi mais longe, afirmando que B-19 teria “resolvido muitos dos seus problemas pessoais e está levando uma vida ativa e exclusivamente heterossexual”.

Erros e falta de confiabilidade

Missão cumprida, então? Não é bem assim. Enquanto os eletrodos de Heath podem ter incitado a excitação temporária, não chegaram a mudar a natureza básica do paciente. “Pelo menos no momento em que eu conheci B-19, a questão era menos sobre se ele era homossexual ou heterossexual. Ele era uma espécie de assexuado. Ele simplesmente não estava interessado (em sexo)”, diz John Goethe, que trabalhou com Heath. “Ficou claro para mim que alguns de seus fatores de estresse estavam relacionados à orientação sexual, mas a maioria não estava”. Ele flutuava entre postos de trabalho e “não era uma pessoa contente com um monte de coisas”. Ele acrescenta que foi B-19 que se aproximou de Heath para obter ajuda com sua sexualidade – em vez de ter uma “cura” imposta a ele em troca de clemência por causa de acusações de drogas, como foi sugerido por Bill Rushton no momento.

Como era de se esperar, o trabalho do Dr. Robert Heath recebeu diversas críticas ao longo dos anos. A mais prejudicial, no entanto, veio em 1973, no livro Brain Control (“Controle Cerebral”) de Elliott Valenstein. Ao contrário de outros que criticaram Heath, Valenstein – agora professor emérito de psicologia e neurociência na Universidade de Michigan, nos EUA – era um membro da própria profissão de Heath. E ele não argumentou que Heath era um monstro, mas simplesmente um mau cientista.

Valenstein apontou de forma gentil, mas firme, que, por causa da falta de controle de Heath, seu hábito de ler o que ele queria nos dados, e outros erros experimentais, muito do seu trabalho foi simplesmente inválido. “Minha crítica a Heath”, diz ele hoje, “é que ele não parece saber como testar suas próprias conclusões para verificação. Ele estava sempre interessado em resultados que eram espetaculares – como encontrar alguma proteína no cérebro que evocasse a esquizofrenia. Ele publicou trabalhos desse tipo, mas nunca realmente olhou para explicações alternativas, nunca testou a confiabilidade de suas descobertas, esteve sempre muito disposto a divulgar rapidamente as suas conclusões, de modo que não era muito confiável”. [Medical Xpress]

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