Isso é o que acontece quando damos ecstasy a um polvo

Por , em 21.09.2018

Em seres humanos, a droga psicoativa conhecida como ecstasy pode fazer as pessoas se sentirem mais carinhosas em relação aos outros. E nos polvos?

Um estudo da Universidade Johns Hopkins (EUA) resolveu descobrir. Aparentemente, tem o mesmo efeito.

Polvos são antissociais

Os polvos são quase totalmente antissociais, exceto quando estão acasalando. Os cientistas que os estudam precisam abrigá-los separadamente para que eles não se matem ou comam uns aos outros.

No entanto, os polvos que receberam MDMA – uma droga conhecida por vários nomes, como ecstasy, bala, Molly e pílula do amor – queriam passar mais tempo perto de outros polvos, e até mesmo abraçá-los.

Esses invertebrados estão separados dos humanos por mais de 500 milhões de anos de evolução. Os parentes mais próximos dos polvos são criaturas como caracóis e lesmas.

Embora extremamente inteligentes, seus cérebros têm uma série de estruturas estranhas que evoluíram em uma trajetória completamente diferente do caminho humano.

“Eles têm esse enorme cérebro complexo que construíram, que não tem absolutamente nada a ver com a maneira como o nosso age – mas aqui eles mostram que sim”, comentou Judit Pungor, neurocientista da Universidade de Oregon (EUA) que estuda polvos, mas não fez parte da equipe de pesquisa.

MDMA e seus efeitos sociais no cérebro

A ideia de testar o efeito da droga em polvos veio de Gul Dolen, neurocientista da Universidade Johns Hopkins. “Meu laboratório tem estudado o MDMA há muito tempo. Seres humanos desenvolveram muitos mecanismos neurais que permitem ao MDMA ter esses efeitos pró-sociais realmente profundos”, explicou.

Dolen se interessou por polvos alguns anos atrás, quando cientistas sequenciaram o código genético completo da espécie Octopus bimaculoides, da Califórnia. Acontece que os polvos e as pessoas têm genes quase idênticos para uma proteína que liga a molécula de sinalização serotonina às células cerebrais.

Esta proteína também é o alvo do MDMA, então Dolen se perguntou como a droga afetaria esse animal normalmente hostil.

“Só porque eles têm a proteína, não significa que quando o MDMA se liga a ela, vai fazer algo parecido com o que acontece em um humano ou um rato”, afirmou.

O experimento

Para descobrir, Dolen e Eric Edsinger, um colega do Laboratório de Biologia Marinha em Woods Hole, Massachusetts (EUA), deram doses diferentes da droga aos polvos.

Em um espaço confinado, colocaram essas doses na água para que os polvos pudessem absorvê-las através de suas guelras. Os pesquisadores começaram com doses altas, só para ver se tinha algum efeito sobre os polvos.

“Eles realmente não gostaram. Pareciam estar assustados. Adquiriam posturas de hipervigilância, se sentavam no canto do tanque e olhavam para tudo”, disse Dolen.

Mas doses menores – do tipo que uma pessoa pode tomar – tiveram uma consequência muito diferente no comportamento dos animais.

Amorosos

Os pesquisadores sabiam a partir de estudos anteriores que dois polvos confinados em um espaço pequeno normalmente ficariam bem longe um do outro.

Já nesse experimento, os polvos sob efeito do MDMA ficaram bem íntimos com seu vizinho. Passaram muito mais tempo próximos.

Sem a droga, qualquer polvo que se aproximasse permaneceria muito reservado, talvez apenas estendendo um dos braços para tocar provisoriamente a gaiola do outro animal.

“Depois do MDMA, eles estavam essencialmente se abraçando”, contou Dolen, explicando que os polvos estavam “muito mais relaxados na postura e usando muito mais do corpo para interagir com o outro polvo”.

Mistérios da evolução

Dolen crê que isso significa que o neurotransmissor serotonina codifica funções sociais há muito tempo. “Pelo menos há 500 milhões de anos, ele começou a fazer essa função”, sugere.

Pesquisas anteriores já mostraram que dar serotonina extra para lagostas pode alterar seu comportamento social também. Neste caso, os animais se tornam mais dominantes e agressivos socialmente.

Uma coisa é certa: o MDMA, que afeta o sistema da serotonina, também afeta claramente o comportamento social dos polvos. Porém, não é possível ter certeza se está realmente induzindo um carinho maior por outra criatura.

Ainda assim, Zachary Mainen, neurocientista da Fundação Champalimaud em Portugal, diz que é incrível que tenha efeitos comportamentais semelhantes.

“Eu gosto do fato de que eles mostraram que uma espécie tão estranha para nós como um polvo tem uma molécula, um transportador de serotonina, que pode ser afetada por uma droga que nos afeta, e que a droga tem um efeito um pouco semelhante. Isso só nos mostra o quanto não sabemos e quanto há por aí para descobrirmos”, afirma.

Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Current Biology. [NPR]

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3 comentários

  • Talma Lennon:

    O que acontece? cadê o vídeo?

  • Marco Antonio:

    MDMA não é o msm que ecstasy.. é o principio ativo do ecstay, mas não é a msm coisa…

    • Thiago Possan:

      O ecstasy tem outros componentes em sua mistura mas sua ideia inicial era apenas a de um comprimido com MDMA.

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