Mamíferos podem “escolher” o sexo de seus filhos

Por , em 11.07.2013

Uma nova pesquisa da Escola de Medicina da Universidade de Stanford (EUA) relevou que, surpreendentemente, espécies de mamíferos podem “escolher” o sexo de seus filhos a fim de vencer as adversidades e produzir mais netos (prolongando, assim, a família).

Pela primeira vez, pesquisadores foram capazes de provar uma teoria fundamental da biologia evolutiva: a de que os mamíferos contam com algum mecanismo fisiológico ainda desconhecido para manipular o sexo de sua prole como parte de uma estratégia evolutiva altamente adaptável.

“Este é um dos objetivos primordiais da biologia evolutiva moderna – encontrar os dados que mostram definitivamente que as fêmeas escolhem o sexo de seus filhos de forma estratégica para produzir mais netos”, disse Joseph Garner, professor de medicina comparativa e um dos autores do estudo, publicado na edição de 10 de julho da revista PLoS ONE.

A ideia

O estudo se baseou em uma teoria clássica proposta pela primeira vez em um artigo de 1973 pelos cientistas Robert Trivers e Dan Willard, fundadores do campo da sociobiologia evolutiva.

Eles desafiaram a sabedoria convencional de que a determinação do sexo em mamíferos era aleatória, com os pais investindo igualmente em sua prole para gerar uma relação de sexo 50-50 na população.

Em vez disso, criaram a hipótese de que os mamíferos são criaturas egoístas, manipulando o sexo da prole de modo a maximizar o seu próprio sucesso reprodutivo. Nesse caso, pais com boa saúde, bom tamanho, domínio ou outras características, investiriam mais na produção de filhos, cuja força herdada poderia ajudá-los a competir melhor no mercado de acasalamento e dar-lhes maiores oportunidades para produzir mais descendentes.

Por outro lado, mães em mau estado, mais fracas, provavelmente preferem jogar mais seguro, tendo mais filhas, cuja produtividade é fisiologicamente limitada.

Outras hipóteses fazem previsões semelhantes – que as fêmeas escolhem companheiros com “bons genes” (por exemplo, para atratividade) a fim de produzir os chamados “filhos sensuais” como resultado.

A hipótese foi reforçada em 1988, em um artigo publicado na Nature por TH Clutton-Brock, da Universidade de Cambridge, que descobriu que entre veados selvagens, mães dominantes produziam significativamente mais filhos do que veados que ocupavam uma posição subalterna dentro do grupo.

O estudo

A análise de Garner contou com 90 anos de registros do zoológico de San Diego, nos EUA.

Ele e seus colegas reuniram informações com a ajuda do supervisor de cuidados animais, Greg Vicino, vasculhando dados sobre mais de 38 mil indivíduos de 678 espécies. O projeto foi trabalhoso e exigiu anos para reconstruir as árvores genealógicas e histórias de reprodução dos animais.

Os pesquisadores acabaram com 1.627 avós e 703 avôs e o registro completo de suas três gerações. Os principais grupos de mamíferos foram representados, incluindo primatas carnívoros, como leões, ursos e lobos, animais de casco fendido, tais como vacas, búfalos e veados, e animais de pasto com dedos ímpares, como cavalos e rinocerontes.

Os cientistas descobriram que as avós e avôs eram capazes de escolher estrategicamente o gênero de sua prole para recompensá-los com mais netos. Quando as fêmeas produziam principalmente filhos, esses tinham 2,7 vezes mais prole do que aqueles cujas mães tiveram número igual de descendentes do sexo masculino e feminino.

“A questão é, dentro de cada espécie, entre as gêmeas que tinham mais filhos, os filhos se saíram melhor em termos de produzir mais netos per capita? E a resposta é sim”, disse Garner.

O cientista comparou o acasalamento a um tipo de jogo de azar. “Estou apostando em quantos netos vou produzir. Se só produzir filhas, eu estou fazendo uma aposta segura. Filhos, por outro lado, são de maior risco e trazem a maior recompensa”, explica.

Se um animal produz um filho fértil de alta qualidade, ganhou na loteria em termos reprodutivos, pois ele terá muitos filhos.

“Pense sobre leões”, disse Garner. “A maioria dos leões machos não se reproduz. Pode haver 10 ou 15 fêmeas, mas apenas um macho é o pai de todos os filhotes. O mesmo é verdade com babuínos. Há um macho alfa. Se você é o pai desse dono do harém, parabéns, porque ele pode produzir dezenas ou centenas de descendentes. Se você tem um macho que nunca produz filho, fica sem netos. Por isso, é uma aposta de alto retorno e de alto risco”.

Os avôs que produziram principalmente filhos também tiveram mais sucesso, já que esses filhos, em média, tiveram 2,4 vezes mais netos per capita. “Mas esse sucesso pode ser inteiramente determinado pela fêmea, já que ela pode decidir a proporção do sexo dos filhos com base na qualidade do macho”, Garner disse.

Fêmeas no comando

Os pesquisadores creem que o processo de escolha é largamente controlado pelas fêmeas.

“Parece que é um jogo masculino, que são os machos que competem por fêmeas, com elas obedientemente escolhendo o vencedor. Mas, na realidade, as fêmeas é que estão tomando decisões altamente estratégicas sobre sua reprodução com base no ambiente, na condição e na qualidade de seu companheiro”, conta.

De alguma forma, elas estão escolhendo os espermatozoides que irão produzir o sexo que melhor serve aos seus interesses.

Mas como, de fato, elas manipulam o sexo de sua prole? Garner disse que o mecanismo não é muito conhecido, embora uma teoria sustente que as fêmeas podem controlar espermas “machos” e “fêmeas”, que têm formas diferentes, conforme eles se movem através do muco no trato reprodutivo, seletivamente acelerando o esperma que deseja.

E nós, podemos escolher?

Garner disse que pode haver alguns paralelos entre os seres humanos, com alguns estudos sugerindo que podemos ser capazes de ajustar as taxas de crianças de cada sexo em resposta a estímulos sociais.

Por exemplo, nas sociedades poligâmicas, a esposa de alto escalão é muito mais propensa a ter um filho que a esposa “abaixo” na hierarquia (já que é o filho que tem o poder econômico da família).

Um estudo com 400 bilionários norte-americanos publicado em 2013 descobriu que eles eram mais propensos a ter filhos do que filhas – presumivelmente, os cientistas pensam, porque os filhos tendem a reter a riqueza da família.

Uma pesquisa de 1988 também constatou que as mães com distúrbio da fala herdado dos pais tinham três vezes mais filhos do que filhas, em teoria, porque um filho com um problema de fala teria menos problema em encontrar uma companheira e se reproduzir do que uma filha com deficiências de fala, cujo sucesso depende mais do discurso e de habilidades sociais.

De acordo com os pesquisadores, uma melhor compreensão da manipulação da razão sexual em animais pode ajudar a levar a intervenções que ajudem a preservar diversas espécies.[ScienceDaily]

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3 comentários

  • Marcus Vinicius:

    “um filho com um problema de fala teria menos problema em encontrar uma companheira e se reproduzir do que uma filha com deficiências de fala, cujo sucesso depende mais do discurso e de habilidades sociais”

    Não seria o contrário ?! O homem, sendo ativo, depende mais do discurso oral do que a mulher, que depende mais dos atributos físicos.

  • Du Silva:

    É pressizo descobrir o quê esses cientistas andam fumando,e isso é urgente.

    • Felippe Viana:

      É preciso saber onde você aprendeu a escrever pra ninguém lecionar lá, isso sim.

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