Os “ladrões de pênis” africanos

Por , em 25.03.2013

Recentemente, a antropóloga Louisa Lombard, da Universidade da Califórnia em Berkeley (EUA), descreveu um caso curioso que presenciou ao visitar uma pequena cidade na República Centro Africana, envolvendo dois homens que afirmavam que seus pênis haviam sido roubados.

Isso mesmo. Parece que, no dia anterior, um viajante havia visitado a cidade e apertado as mãos de um vendedor de chá, que imediatamente alegou que sentiu um choque, que por sua vez fez seu pênis encolher. Ele gritou no instante do acontecimento, reunindo uma multidão, na qual um segundo homem disse que o mesmo havia acontecido com ele.

Eu e você estamos provavelmente pensando a mesma coisa: “isso é impossível”, ou então “isso é uma piada”.

Mas não é. Na verdade, é um distúrbio psicológico real, chamado de síndrome do Koro, ou simplesmente koro.

Nessa síndrome, as vítimas (principalmente homens, mas pode ocorrer em mulheres) passam a acreditar que seus genitais estão encolhendo ou se retraindo para dentro do corpo. A preocupação não é só com a sua sexualidade, mas também com sua vida, uma vez que as pessoas acreditam que a condição pode ser fatal se não for revertida.

A fim de evitar maior encolhimento, existem casos relatados de vítimas que amarraram firmemente seus pênis com grampos, corda ou metal – às vezes até mesmo pedindo que membros da família o segurassem até que algum tratamento pudesse ser realizado, geralmente por curandeiros tradicionais locais ou xamãs.

Síndrome bizarra – e consequências mortais

A condição tem sido mais frequentemente descrita na África nas últimas décadas, embora tenha também sido amplamente registrada na Ásia.

“Nos últimos anos, a mídia em diversos países do Oeste Africano relatou episódios periódicos de ‘pânico’ em que homens e mulheres são espancados, às vezes até a morte, depois de serem acusados de encolher ou desaparecer com pênis, seios e vaginas”, escreveram Vivian Dzokoto e Glenn Adams em um estudo publicado em 2005 na revista Culture, Medicine and Psychiatry. “Pelo menos 56 casos separados de encolhimento, desaparecimento e roubo genital foram relatados nos últimos sete anos [1998-2005] pela mídia de sete países da África Ocidental”.

Vítimas de koro geralmente acreditam que um toque, mesmo acidental, de um estranho causa o roubo, da mesma forma que um batedor de carteira pode furtar sua bolsa.

Enquanto algumas reportagens afirmam que ninguém nunca morreu diretamente de koro – a condição é puramente psicológica, ou seja, os principais perigos da síndrome são relacionados à ansiedade causada pelo medo -, outras afirmam que as medidas extremas que as pessoas tomam para “puxar os genitais para fora” do corpo são conhecidas por causar lesão e até morte.

Indubitavelmente, no entanto, a crença em koro pode ter consequências mortais: centenas de pessoas já foram acusadas de roubar (ou encolher) os genitais de outras, e dezenas foram mortas por conta disso.

Em muitos casos, “vítimas” de koro que gritaram e pediram a transeuntes para ajudar a prender o “ladrão de pênis” – este muitas vezes surpreso e protestando a sua inocência – acabaram linchando o coitado no local da confusão, como outros episódios de “justiça de rua” que vemos por aí.

Sistema de crenças

Especula-se que o termo “koro” venha do malaio. Supostamente, a palavra refere-se a cabeça de uma tartaruga conforme ela se “esconde” para dentro do casco. Considerando que a síndrome do Koro é a crença de que os órgãos genitais estão recuando para dentro do corpo, a metáfora é válida.

O aparecimento da síndrome é súbito. Segundo os médicos, os sintomas relacionados com a doença são distorção da imagem corporal, autoestima baixa, obsessão por réguas e fitas métricas, medição frequente dos órgãos genitais, inquietação, irritabilidade, depressão, pânico e ansiedade.

Quando a síndrome era quase que exclusivamente relatada em países do leste da Ásia, os cientistas acreditavam que era devido a alguma tendência intrínseca cultural para um tipo específico de preocupação. Também indagavam se o distúrbio não havia começado como um boato ou lenda que foi interpretado literalmente na região.

Na Ásia, os que desenvolvem a síndrome normalmente possuem conflitos interpessoais, e são mais vulneráveis a pressões socioculturais (que impõe tamanhos ideais para os órgãos genitais). Exposição ao frio, coito excessivo, conflitos interpessoais e pressões socioculturais, são, resumidamente, fatores que os cientistas acreditam que podem levar à síndrome.

No entanto, hoje se sabe que a estranha condição pode ser entendida de uma variedade de maneiras. Do ponto de vista psicológico, pode ser vista como um exemplo de histeria ou ilusão em massa, em que uma crença cultural coletiva pode manifestar-se na forma de experiências pessoais – seja essa experiência objetivamente “real” ou não.

As vítimas desse pânico do encolhimento de genitália podem se recuperar dentro de horas ou dias depois de serem convencidas de que a “doença” foi curada ou nunca existiu, bem como podem não ter quaisquer problemas psicossexuais.

Nestes casos, mais comuns na África, a ilusão é possível graças à crença subjacente na bruxaria, ou magia negra. Uma pesquisa da Gallup em 2010 descobriu que a crença na magia é generalizada em toda a África subsaariana, com mais da metade dos entrevistados dizendo que acreditam pessoalmente em bruxaria.

Estudos realizados em 18 países da África subsaariana mostram que essa crença varia muito, mas em média, 55% das pessoas entrevistadas acreditam em magia.

Como a maioria dos ocidentais não acredita em magia e bruxaria – ou pelo menos não na variedade que tem o potencial de reduzir ou roubar os genitais de alguém -, não há sistema de crença subjacente que tornaria o koro plausível e, portanto, não há relato da doença por aqui.

No entanto, segundo alguns médicos, conforme a síndrome torna-se mais conhecida nos países ocidentais, casos esporádicos têm sido registrados. A diferença é que estes casos tendem a ser associados a outras doenças psicológicas, enquanto que em outros lugares a síndrome é frequentemente diagnosticada em pessoas perfeitamente saudáveis.

“É um lembrete oportuno de que ninguém está imune a delírios de massa e que a influência da cultura e da sociedade no comportamento individual é muito maior do que a maioria de nós gostaria de admitir. Qualquer ilusão é possível se a falsa crença de que lhe está subjacente é plausível”, escrevem Robert Bartholomew e Benjamin Radford no livro “Hoaxes, Myths, and Mania: Why We Need Critical Thinking” (em português, algo como “Trotes, Mitos, e Manias: Por que Precisamos de Pensamento Crítico”).

No caso da crença em magia, “tratamentos” com curandeiros podem ser o suficiente para aliviar o sofrimento da “vítima”. No caso de um distúrbio mental mais grave, tratamento com acompanhamento psicológico pode ser feito. Médicos dizem que a psicoterapia pode regredir os sintomas e reajustar emocionalmente o doente. A terapia habitual envolve também medicação antiansiedade ou antipsicótica, para ajudar o doente a recuperar uma visão objetiva.[LiveScience]

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6 comentários

  • Deijivan Hanavan:

    Você já escreveu sobre isso no ano passado: https://hypescience.com/sindrome-do-koro-o-medo-irracional-de-que-os-genitais-estao-encolhendo/

  • Paulo Basso:

    Como a mente humana é fascinante!!! Isso me fez lembrar da questão das visões de OVNIs e sequestro por alienígenas – tem muito em comum, principalmente as nuances psicossexuais.

  • grasisuperstar:

    Ai Natasha Romanzoti você aparece com cada uma que até deus duvida!!!!
    Neste século acontecer uma coisa dessas parece loucura, mas o pio r é que acontece mesmo. E não é só nesses lugares mais “exóticos” não, por aqui acontece muitas coisas estranhas também
    Tenho trabalhado na área de saúde a muitos anos e tenho visto coisas muito estranhas principalmente de pessoas que acreditam ter adquirido doenças por meio de magia e feitiçarias. E é difícil dissuadi-las dessa crença.

  • Sergio Cemin:

    Natasha e suas reportagens mais que bizarras. E completas. hehe
    É bom saber desse comportamento Africano, pode ser útil algum dia. Vai saber né…

  • FartherAway:

    Bizarro

  • Carlos Ossola:

    Existem sim, o que os urologistas chamam de “micropenia precoce”, quando numa faixa etária mais avançada o sexo deixa de ser praticado frequentemente e o pênis, que sofre a perda muscular natural da idade, tende a se atrofiar. Em outros casos, a gordura local faz com que o pênis aparentemente se retraia, e existe procedimento cirúrgico para resolver o problema.

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