Para que serve a monogamia?

Por , em 5.08.2013

Boa parte da humanidade adere ao conceito de monogamia, ou seja, a ideia de viver com apenas um parceiro sexual. Mas de onde veio esta tendência?

Dois estudos recentes examinaram esta questão, mas chegaram a respostas diferentes. Um deles diz que a monogamia deve-se ao compromisso dos pais em defender os filhos de outros machos, e outro grupo aponta que a causa é a dieta da fêmea e a distribuição de recursos.

Por que monogamia?

Cerca de 90% das espécies de aves apresentam monogamia social, em comparação com apenas 3% dos mamíferos. Formar casais faz sentido para as aves – a tarefa de incubar e alimentar os filhotes exige a presença dos dois pais. Mas, no caso dos mamíferos, a fêmea é que “incuba” o filhote no útero e o alimenta com leite; o macho não faz nada.

Aliás, faz sentido para os machos não serem monogâmicos: depois de engravidar uma fêmea, eles ainda têm tempo e energia para engravidar outras e assim dar ao seus genes mais chances de chegar à geração seguinte, um comportamento chamado de poliginia. Por que, então, em algumas espécies os machos ficam por perto da fêmea em vez de procurar outras?

Particularmente entre os primatas, cerca de um quarto das espécies apresentam a monogamia social, um comportamento que parece ter surgido cerca de 16 milhões de anos atrás. Além dos primatas, lobos, chacais, castores, suricatos, aranhas, camarões e muitos outros animais também apresentam este comportamento, o que significa que ele deve trazer alguma vantagem evolutiva – mas qual?

Infanticídio de outros machos

Christopher Opie, da Univestity College London, publicou um estudo focado em primatas, um subgrupo do qual os seres humanos fazem parte, assim como gorilas e chipanzés. Nesta pesquisa, “monogamia social” significa “viver em casais”.

Estudando o que sabemos sobre a genética e comportamento de cerca de 230 espécies de primatas, eles testaram três hipóteses para explicar a monogamia social. Uma é o cuidado dos pais, ou seja, o macho fica junto da fêmea para ajudar a criar os filhotes.

Outra ideia é que as fêmeas se espalham nos territórios ocupados pela espécie, o que faz com que seja difícil para um macho ter mais de uma fêmea. A hipótese que foi achada mais provável, entretanto, é a de que os machos vivem com as fêmeas para proteger suas crias de outros machos, que poderiam querer matar os filhotes.

Os mamíferos normalmente não engravidam durante a lactação, então um macho que não é o pai pode aumentar suas chances de acasalar com a fêmea se matar a cria. O infanticídio não é vantagem para espécies que tem estações de acasalamento, porque todos os machos tem que esperar pela próxima estação para ter sua chance.

Segundo a análise dos pesquisadores, as espécies socialmente monógamas tem maior probabilidade de ter uma taxa de infanticídio menor. A causa seria a presença de pelo menos um ou dois pais o tempo todo para proteger a cria. Além disso, o período de lactação é menor, e a fertilidade retorna mais rapidamente entre as espécies com monogamia social, reduzindo o incentivo para que outros machos matem as crias.

Entre os seres humanos, entretanto, a transição para a monogamia social depende das fêmeas escolherem ser fiéis aos machos, o que faria com que eles tivessem mais interesse em proteger a cria. Mas a pesquisadora Maren Huck, da Universidade de Derby, no Reino Unido não está convencida. “Seria prematuro alegar que o infanticídio é o fator chave na evolução de monogamia social entre primatas”, diz.

Território e disponibilidade de alimentos?

Outro grupo de pesquisa trabalhou com uma amostra maior, de 2.500 espécies de mamíferos, em uma análise que excluiu os humanos – o grupo não está convencido que o ser humano é realmente monógamo.

No contexto deste segundo estudo, “monogamia social” significa pares de macho e fêmea vivendo juntos, com ou sem a cria, em pelo menos uma estação de reprodução.

Segundo o estudo, em algumas espécies de mamíferos as fêmeas começaram a encontrar alimentos de alta qualidade em áreas cada vez mais distantes umas das outras, e o resultado foi que elas passaram a defender mais agressivamente o território de alimentação.

Dieter Lukas, pesquisador de pós-doutorado no departamento de zoologia da Universidade de Cambridge, aponta que quando as fêmeas começam a se espalhar em um território maior, os machos começam a alterar suas estratégias de acasalamento. Nas espécies especializadas em alimento abundante, como as pradarias, evoluíam para a poliginia.

Os dois grupos chegaram a conclusões diferentes, o que provavelmente está relacionado ou com a forma que eles classificaram as espécies, ou com o tamanho das amostras – a explicação para a discrepância ainda não foi determinada.

E os humanos?

Ainda não há uma conclusão sobre a razão da monogamia entre humanos, mas provavelmente a dieta e distribuição de recursos pode ter algo a ver com isso, além da necessidade de cuidados paternos por um período estendido.

Considerando que os grandes macacos adotam a poliginia e entre os humanos há uma diferença marcante no tamanho do corpo de machos e fêmeas, bem como de longevidade, a condição ancestral humana provavelmente era a poliginia. [CNN]

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3 comentários

  • Logan Quasar:

    Nos humanos… Questões históricas e religiosas deveriam ser abordadas, penso eu. Porque a sociedade que influencia mais nisso hoje em dia, quando as pessoas “monogâmicas” vivem “pulando a cerca”.

  • Sérgio Moreira:

    Procura-se motivos instintivos para esse comportamento, quando na verdade são apenas psicológicos. O ser humano é possessivo e inseguro, portanto par possuir, permite-se ser possuído e dai surge o ‘contrato de exclusividade sexual’ que mutas vezes envolve viver na mesma casa. Quando as pessoas ficam mais velhas e , por insegurança, acreditam que ficará difícil encontrar alguém, passam a aceitar melhor a ideia de união.

    • mwcarval:

      vc fala como se psicologico não tivesse a ver com instinto, não estivesse ligado ao cerebro.

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