Os neandertais foram pioneiros na exploração de recursos marinhos – e portanto não eram inferiores aos humanos modernos

Por , em 3.04.2020

Um novo estudo liderado por pesquisadores da Universidade de Lisboa (Portugal) descobriu que a familiaridade dos hominídeos com o mar e os seus recursos é muito mais antiga do que se pensava – ao que tudo indica, a pesca e a recolha de marisco contribuíram de forma muito significativa para a economia de subsistência dos neandertais.

Esse tipo de consumo alimentar, ao lado de novas evidências sobre cultura material simbólica entre essa população, indica que os neandertais possuíam comportamentos avançados muito semelhantes aos dos humanos modernos.

Dieta 50% marinha

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores escavaram a Gruta da Figueira Brava, situada no Portinho da Arrábida, entre 2010 e 2013.

Esta gruta, atualmente à beira mar, mas que chegou a estar a 2.000 metros da costa, foi constantemente usada como lugar de habitação ao largo dos vinte milênios compreendidos entre 86 e 106 mil anos atrás.

Lá, são abundantes os vestígios arqueológicos deixados por comunidades neandertais, como cinzas, carvões e outras provas de utilização intensiva do fogo, utensílios em quartzo e sílex e restos alimentares.

Os cientistas analisaram amostras de ossos humanos de centenas de enterramentos mesolíticos, descobrindo quantidades significativas de restos de peixe e marisco. Isso os levou a concluir que o componente marinho era importante para os neandertais, tomando até 50% de suas dietas.

“Por toda parte, há evidências de um sistema de assentamento/subsistência baseado na exploração regular de todos os recursos animais oferecidos pelo ambiente costeiro: grandes caranguejos, moluscos marinhos, peixes, aves e mamíferos marinhos, tartaruga, aves aquáticas e caça de animais com cascos”, dizem os cientistas em seu artigo, publicado na revista Science.

Preconceitos de pesquisa

De acordo com os cientistas, a imagem dos neandertais como povo “do frio”, especializados na caça de mamutes, rinocerontes, bisontes e renas, é uma distorção criada pela história da investigação.

Esses preconceitos de investigação explicariam por que isso tipo de registro (o marinho) não foi encontrado anteriormente na Europa na escala vista entre populações de países africanos.

Os pesquisadores defendem que a grande maioria dos neandertais provavelmente viveu como os de Figueira Brava.

“Podemos inferir, portanto, que terá sido também assim no caso das populações neandertais do litoral atlântico da Península Ibérica”, disse o coordenador da pesquisa, o professor João Zilhão.

Inteligência semelhante

Esses resultados, por sua vez, desafiam noções sobre o papel importante dos componentes marinhos no desenvolvimento das capacidades cognitivas dos nossos antepassados.

Um cenário comum sobre as origens humanas é que o consumo habitual de alimentos aquáticos e os ácidos graxos que eles contêm, que favorecem o desenvolvimento do cérebro, sustentaram a aquisição da cognição e comportamento modernos.

Isso significa que nós, humanos modernos, adquirimos essa vantagem comendo alimentos do mar e nos aproveitamos das inovações resultantes em tecnologia, crescimento demográfico e maior socialidade para expandirmos para fora da África.

O novo estudo sugere que esses avanços aconteceram à escala da humanidade no seu conjunto, não apenas à escala de uma pequena população africana que depois se expandiu, uma vez que os neandertais também teriam consumido esses alimentos em larga escala.

“A descoberta agora revelada assume, por isso, especial importância quando um modelo muito influente sobre as origens da humanidade tem defendido que o consumo habitual de recursos aquáticos – ricos em ômega 3 e outros ácidos gordos que favorecem o desenvolvimento dos tecidos cerebrais – teria propiciado um incremento das capacidades cognitivas das populações africanas “modernas” contemporâneas dos neandertais europeus do último interglaciar. Esse incremento explicaria o aparecimento precoce de uma cultura material simbólica, e uma capacidade idêntica à nossa para o pensamento abstrato, a comunicação por símbolos e, em última análise, a linguagem”, escrevem os pesquisadores portugueses em seu artigo.

Miscigenação

Segundo tal modelo amplamente divulgado da evolução humana, a expansão de populações africanas para o resto do mundo teria resultado na “inevitável” extinção das populações aborígenes da Europa e da Ásia, nomeadamente a dos neandertais.

Essas suposições são baseadas em uma possível “inferioridade” dessas populações. Ao longo da última década, no entanto, diversos estudos têm encontrado evidências de que os neandertais também tinham uma cultura material simbólica. Dois anos atrás, por exemplo, foram divulgados outros trabalhos coliderados pelo professor Zilhão em que se demonstrava que os neandertais praticavam arte rupestre desde pelo menos 65.000 anos atrás, bem como usavam objetos de adorno pessoal desde pelo menos 115.000 anos atrás.

Com o novo estudo, os cientistas creem que deixa de haver fundamento para defender que pequenas diferenças na morfologia do crânio e da mandíbula, que permitem distinguir europeus “arcaicos” (neandertais) de africanos “modernos”, correspondem necessariamente a níveis diferentes de cognição e inteligência.

Na realidade, essas seriam apenas de diferenças rácicas entre populações que viriam a miscigenar-se extensivamente, e que contribuíram todas para a gênese do Homo sapiens de hoje.

O artigo sobre o novo estudo foi publicado na prestigiada revista científica Science.

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