Porque os homens não procuram terapia

Por , em 23.05.2011

James Puckett estava tendo problemas e queria ver um terapeuta. Passou por vários; ou melhor, várias. Segundo ele, suas psicólogas lhe deram algum conforto, mas não conseguiram fazer com que ele enxergasse o que estava por trás de reações de enfrentamento muito “machas”, como socar uma parede.

Ele decidiu procurar um homem, e constatou que havia poucos psicólogos. Ele conseguiu um, e para ele, isso fez toda a diferença.

Há um tempo atrás, pesquisadores começaram a estudar a “feminização” da atenção à saúde mental. As mulheres superam os homens em áreas como psicologia e orientação. Hoje, sua predominância está quase concluída.

Os homens representam apenas um em cada cinco diplomas em psicologia, menos da metade da década de 1970. Eles são menos de 10% dos trabalhadores sociais com menos de 34 anos.

Seus números também diminuíram entre os conselheiros profissionais: 10% dos afiliados na Associação Americana de Aconselhamento são homens (em comparação com 30% em 1982) e parecem estar em declínio entre os terapeutas matrimoniais e familiares.

Homens não combinam com terapia?

O resultado disso, muitos terapeutas afirmam, é que a profissão está em risco de perder seu apelo a um grande grupo de pessoas – a maioria homens – que gostariam de receber terapia com um profissional do sexo masculino.

Segundo terapeutas, há coisas sobre as pessoas que só um homem entende em outro homem, e vice-versa para as mulheres. Mas o ponto de vista do sexo masculino tem sido desvalorizado durante os últimos 40 ou 50 anos, e agora praticamente não existe mais.

As razões para a mudança são econômicas, bem como culturais. Os rendimentos dos terapeutas caíram na década de 1990. A psiquiatria, o canto mais machista da terapia, é cada vez mais voltada para tratamentos com drogas. E, como as mulheres entraram na força de trabalho em maior número, elas mostraram-se mais atraídas pela cura através da conversa do que os homens (tanto em dar quanto em receber esse tipo de tratamento).

Mas alguns estudos indicam que o impacto desta mudança de gênero sobre o valor da terapia é insignificante. Um bom terapeuta é um bom terapeuta, homem ou mulher. Aliás, experiência compartilhada pode até ser um impedimento em alguns casos: terapeutas frequentemente alertam estudantes que assumir que eles têm uma visão especial sobre os problemas da pessoa só porque eles têm algo em comum não é bom.

Ainda assim, a percepção é muito importante quando se trata de procurar ajuda pela primeira vez. Um estudo recente com 266 homens descobriu que a vontade de um homem de procurar tratamento estava diretamente relacionada com o quanto ele concordava com pressupostos tradicionalmente masculinos, como: “Eu posso lidar com qualquer coisa que surgir no meu caminho”.

Assim, os homens poderiam se desencorajar pela perspectiva de ter que falar com uma mulher. Muitos acreditam que só um homem pode ajudá-los, e não importa se isso é verdade ou não.

Ambos terapeutas homens e mulheres concordam que há certos assuntos que, pelo menos inicialmente, são melhor discutidas dentro do gênero. O sexo é um deles. Alguns homens têm muito menos vergonha desse assunto quando falam com outro homem.

Agressão é outro. Muitos homens crescem em um mundo hostil e violento quase invisível para as mulheres. Uma briga de bar que parece traumática para uma terapeuta pode ser mais uma noite boa para um homem. Da mesma forma, o que pode parecer trivial a distância pode ter um impacto no inconsciente.

Quando os homens têm que confessar coisas que estão relutantes em admitir até para si mesmo, surgem afirmações como: “eu fugi de uma briga na escola” (e isso vindo de homens em sua maioria de meia-idade, casados).

Só nos últimos anos, os psicólogos identificaram uma série de questões que são, na verdade, versões masculinas das questões de identidade que muitas mães enfrentam no mercado de trabalho: a dúvida de ser um pai presente, a tensão entre ser um provedor e ser um pai, e mesmo depressão pós-parto masculina.

Da mesma forma que há algo muito pessoal em ser mãe, muito importante para a identidade feminina, a experiência de ser pai também é muito poderosa e alguns homens preferem falar sobre isso – a alegria de ser pai, o estresse, como é impactante para eles – com um terapeuta que teve a mesma experiência, o mesmo ponto de vista.

Isso é, se eles conseguirem encontrar um. O mundo do inconsciente está um pouco distante dos homens atualmente. Sem psicólogos suficientes, não há muitos homens procurando terapia, o que é muito triste.[NewYorkTimes]

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4 comentários

  • Jeferson Conte:

    Homens não gostam de terapia porque um macho normal tem amigos machos normais que te dizem o que tu tem que ouvir na cara, sem rodeios e sem cobrar 300 reais a hora.

  • Silvio RC:

    Não sou psicólogo, mas fui voluntário no CVV Samaritanos, durante 8 anos e estudávamos Carl Rogers.
    Observei que os homens ficavam mais soltos para falar de seus problemas sexuais, afetivos e de relacionamento comigo, do que as mulheres.

    Com as voluntárias mulheres, o mesmo se dava quando a atendida era do sexo feminino.
    Com as atendentes, os homens quase não iam fundo e ficavam bloqueados em tais assuntos.

    No caso do profissiional, sua idade também tem um peso. Psicólogos muito jovens são evitados por pacientes mais maduros.
    Parece que (sem generalizar) procuram no terapeuta a imagem do(a) amigo(a) da mesma faixa etária ou superior, do pai ou da mãe.

    O mesmo se nota na relação ou aconselhamento com padres, pastores e mestres religiosos, onde os mais velhos inspiram maior confiabilidade e credibilidade.
    Nesse caso, jovens padres, freiras e monjas budistas ficam em segundo plano.

    É o que penso.

  • Vinícius D.:

    Engraçado a relação dada entre psicologia e inconsciente, como se esse fosse o alvo [exclusivo] do estudo da psicologia.

  • EP:

    Sou homem e tenho psicóloga há umas 8 semanas e vi que só pode me fazer bem. Fui muito resistente no começo, na verdade eu deveria estar fazendo isso desde quando tive a primeira oportunidade, com uns 13 anos (agora tenho 18). Não há porque os homens terem medo… mal não faz, então não custa tentar.

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