Homem recebe o primeiro pênis transplantado dos EUA

Por , em 22.05.2016

Um homem cujo pênis foi removido por causa de um câncer recebeu o primeiro transplante de pênis nos Estados Unidos, o terceiro já realizado em todo o mundo e o segundo bem sucedido da história médica, no Massachusetts General Hospital, em Boston.

Thomas Manning, de 64 anos, um mensageiro do banco de Halifax, no Massachusetts, passou pela operação de transplante com duração de 15 horas nos dias 8 e 9 de maio. O órgão veio de um doador falecido.

“Quero voltar a ser quem eu era”, disse Manning na sexta-feira em uma entrevista em seu quarto de hospital. Sentado em uma cadeira, feliz por estar fora da cama pela primeira vez desde a operação, ele disse que se sentia bem e que não tinha experimentado quase nenhuma dor.

“Estamos cautelosamente otimistas”, disse o Dr. Curtis L. Cetrulo, cirurgião plástico e reconstrutivo e líder da equipe cirúrgica. “São águas desconhecidas para nós”.

A cirurgia é experimental, parte de um programa de pesquisa com o objetivo final de ajudar veteranos de guerra com lesões graves pélvicas, bem como pacientes com câncer e vítimas de acidentes.

Se tudo correr como planejado, a micção normal deve ser possível para Manning dentro de algumas semanas, e a função sexual entre semanas a meses, afirma Cetrulo.

Combatendo a vergonha e o preconceito

Manning recebeu perguntas do jornal norte americano New York Times e disse que queria falar publicamente para ajudar a dissipar a vergonha e o estigma associado a cânceres e lesões genitais, e deixar claro para os outros homens nas mesmas condições que havia esperança de ter a anatomia normal restaurada.

“Não se escondam atrás de uma pedra”, encoraja Manning, que afirmou não estar pronto para entrar em detalhes sobre seu transplante. Ele terá que tomar vários medicamentos anti-rejeição para o resto de sua vida. Um deles, o tacrolimus, parece acelerar a regeneração do nervo e pode ajudar a restaurar a função para o transplante, disse Cetrulo.

Segundo o médico, outro paciente, que teve seu pênis destruído por queimaduras em um acidente de carro, irá receber um transplante em breve, assim que um doador compatível estiver disponível.

Cirurgiões no Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins, no estado americano de Maryland, também estão planejando realizar transplantes de pênis, e têm um veterano de combate, ferido no Afeganistão, na lista de espera por vários meses.

Cetrulo estima o custo da cirurgia entre US$ 50.000 a US$ 75.000 – entre R$ 180.000 e R$ 270.000, aproximadamente. Ambos os hospitais estão pagando os procedimentos, e os médicos estão doando seu tempo.

Em todo o mundo, apenas dois outros transplantes de pênis já foram relatados: um que falhou na China, em 2006, e um que obteve sucesso na África do Sul, em 2014, em que o beneficiário mais tarde teve um filho.

Lesões de guerra

Veteranos de guerra são um dos grandes focos de programas de transplante nos Estados Unidos, porque as taxas de suicídio são excepcionalmente elevadas em soldados com graves danos nos órgãos genitais e do trato urinário, conta o Dr. Cetrulo. “Eles são caras de 18 a 20 anos de idade, e sentem que não têm esperança de intimidade ou de uma vida sexual. Eles não podem sequer ir ao banheiro de pé”, conta.

Dado o preço psicológico, diz ele, um transplante de pênis pode salvar vidas.

Cetrulo afirma que a equipe provavelmente aperfeiçoará suas técnicas em pacientes civis e, em seguida, passará para os veteranos feridos. Ele também irá treinar cirurgiões militares para realizar os transplantes.

O Departamento de Defesa dos EUA “não gostaria de ter soldados feridos submetidos a técnicas não comprovadas – ou seja, eles não querem que eles sejam ‘cobaias’, uma vez que eles já sacrificaram tanto”, aponta o especialista.

Trabalhando contra a rejeição

A equipe está trabalhando em maneiras de minimizar ou mesmo eliminar a necessidade de medicamentos anti-rejeição, que pacientes de transplante normalmente têm de tomar. Essa pesquisa é especialmente importante para os veteranos, porque muitos deles são jovens e correrão o risco de efeitos adversos graves, como câncer e danos no rim, se forem obrigados a tomar os medicamentos durante décadas.

De 2001 a 2013, 1.367 homens nas forças armadas americanas sofreram as chamadas lesões geniturinárias no Iraque ou no Afeganistão, de acordo com os registros de lesões do Departamento de Defesa do país. Quase todos tinham menos de 35 anos e tinham sido feridos por bombas caseiras, comumente chamadas de artefatos explosivos improvisados, ou I.E.D.s, na sigla em inglês. Alguns perderam parte ou a totalidade de seus pênis.

A equipe do Massachusetts General passou três anos preparando-se para os transplantes de pênis. Eles fizeram dissecções meticulosas com cadáveres em laboratório para mapear a anatomia, e fizeram operações em cinco ou seis doadores mortos para a prática de remoção do tecido necessária para os transplantes. A operação de Manning envolveu cerca de uma dúzia de cirurgiões e 30 outros profissionais de saúde.

Dr. Dicken Ko, líder da equipe e diretor do programa de urologia regional do hospital, disse que a equipe não planejou um determinado número de transplantes. Em vez disso, ele disse, o hospital vai avaliar os candidatos um por vez e decidir se vai permitir a cirurgia. Por enquanto, os transplantes serão limitados a pacientes com câncer e trauma, e não serão oferecidos aos transsexuais.

Salvo pelo acaso

Um acidente de trabalho em 2012 trouxe Manning para o hospital, e, finalmente, para a equipe de transplante. Equipamentos pesados tinham caído sobre ele, causando lesões graves. Os médicos que o trataram viram um crescimento anormal no seu pênis que ele não tinha notado.

Os testes revelaram um câncer agressivo e potencialmente fatal. O câncer de pênis é raro – representa 2% de todos os tipos de câncer que atingem os homens brasileiros.

“Eu estaria morto há dois anos se não fosse o acidente”, diz o próprio Manning.

Os médicos disseram que, para salvar sua vida, eles teriam de remover a maior parte do seu pênis, em uma operação chamada penectomia parcial. O oncologista urológico de Manning, Dr. Adam S. Feldman, estima que algumas centenas de homens por ano precisam de penectomias totais ou parciais por causa do câncer.

Manning ficou com um toco de cerca de dois centímetros e meio de comprimento. Ele tinha que se sentar para urinar. Sexo estava fora de cogitação. Ele era solteiro e não estava envolvido com ninguém quando o câncer foi encontrado. Após a amputação, novas relações eram impensáveis para ele. “Eu não chegava perto de ninguém”, conta. “Eu não poderia ter um relacionamento com ninguém. Você não pode dizer a uma mulher: ‘Eu tive uma amputação do pênis'”, acredita.

Algumas pessoas próximas a ele pediram para que mantivesse a operação em segredo, mas ele se recusou, dizendo que era como mentir, afirmando que não tinha nada para se envergonhar.

“Eu não anunciava (a cirurgia), mas se as pessoas perguntavam, eu lhes dizia a verdade”, disse ele, acrescentando que alguns amigos homens brincavam às suas custas, mas que isso o deixou mais forte. “Os homens julgam sua masculinidade por seus corpos”, aponta.

Antes de deixar o hospital após a amputação, ele começou a perguntar ao Dr. Feldman sobre um transplante. Ninguém no hospital estava considerando a ideia ainda, e Feldman admitiu que pensou que a ideia era um pouco estranha.

Logo após isso, Cetrulo e Ko começaram a debater sobre transplantes de pênis. Cerca de três anos mais tarde, Feldman chamou Manning para perguntar se ele ainda queria a operação.

Depois de uma bateria de exames médicos, entrevistas e avaliações psicológicas – típicas para candidatos a transplante, para se certificar de que eles compreendem os riscos e irão tomar remédios anti-rejeição -, Manning entrou na lista de espera. Duas semanas mais tarde, um doador com o tipo sanguíneo correto e o mesmo tom de pele se tornou disponível.

Doação específica

Manning ficou atordoado por tudo ter acontecido tão rápido. Cetrulo dá os créditos da velocidade no processo ao Banco de Órgãos da Nova Inglaterra, que solicita às famílias de alguns pacientes terminais se estas gostariam de considerar a doação de órgãos. O banco de órgãos disse que a família do doador do pênis quis manter o anonimato, mas contou que eles tinham enviado uma mensagem para Manning dizendo que se sentiam abençoados e encantados que a sua recuperação estava indo bem.

Bancos de órgãos não tomam como algo garantido que as famílias que doam órgãos internos como rins e fígados também estarão dispostas a dar partes visíveis ou íntimas de seus parentes, como um rosto, as mãos ou um pênis. Esses pedidos são feitos separadamente. Várias famílias concordaram em permitir que o pênis de seus parentes mortos fossem removidos, e nenhuma negou, afirma Jill Stinebring, diretor regional de serviços de doação de órgãos do banco de órgãos.

Até agora, Manning teve apenas uma complicação séria. No dia depois de sua cirurgia, ele começou a ter uma hemorragia e teve que ser levado às pressas de volta à sala de cirurgia.

Desde então, sua recuperação tem sido mais suave, afirma ele. Ele diz não se arrepender. Olha para o futuro esperando voltar a trabalhar e ter, eventualmente, uma vida amorosa novamente.

“Se eu tiver sorte, eu volto a ser 75% do que eu costumava ser”, disse ele. “Antes da cirurgia eu estava 10%. Mas eles não fizeram promessas. Isso era parte do acordo”, resigna-se. [NY Times]

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1 comentário

  • EvandroJGC:

    Que horror (a amputação)!
    Que bom que ele não esmoreceu (pelo menos pelo que ele disse), dada sua situação, e que teve o transplante.

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