Concepção imaculada: este peixe rescreverá os livros de biologia

Por , em 8.06.2015

Um estudo de rotina feito por uma equipe de cientistas norte-americanos trouxe um fato inesperado. Uma espécie de peixe-serra da Flórida está se reproduzindo sem sexo. Os pesquisadores destacam que esta é a primeira evidência sólida de tal reprodução assexuada na natureza em animais com espinha dorsal.

A reprodução assexuada é muitas vezes vista entre animais invertebrados. Ela acontece raramente em vertebrados, mas cada vez mais exemplos estão sendo descobertos. Por exemplo, o dragão de Komodo, o maior lagarto vivo do mundo, pode dar à luz através de partenogênese, na qual um óvulo não fertilizado se desenvolve até a maturidade. Esses nascimentos virgens também já foram observados em tubarões, em aves como galinhas e perus, e em cobras, como jararacas e jiboias. Atualmente, têm sido usado o termo telitoquia (do grego thely, que significa “mulher”, e tok, que significa “nascimento”) para designar esse tipo de reprodução.

Até agora, as evidências de partenogênese em vertebrados vieram quase inteiramente de animais em cativeiro, geralmente surpreendendo seus cuidadores por darem à luz, apesar do fato de não terem tido parceiros do sexo oposto. Recentemente, cientistas encontraram na natureza duas cobras fêmeas que engravidaram através de partenogênese, mas não se sabia se esses filhotes sobreviveriam. Como tal, permaneceu incerto se nascimentos virgens aconteciam de forma significativa na natureza.

Fora do cativeiro

Agora, os cientistas acham que os frutos de nascimentos virgens de peixe-serra-de-dentes-pequenos (Pristis pectinata) vivem regularmente na natureza. Estes peixes criticamente ameaçados de extinção são parentes dos tubarões.

“Animais vertebrados que nós havíamos acreditado que eram restritos à reprodução via sexo na natureza na verdade tem outra opção”, diz o coautor Demian Chapman, biólogo marinho da Universidade Stony Brook, em Nova York. “As espécies raras, como aquelas que estão em perigo ou que estão colonizando um novo habitat, podem ser as que estão fazendo isso com mais frequência. A vida encontra um jeito”, apontou, fazendo alusão à famosa citação do ator Jeff Goldblum em “Parque dos Dinossauros”. Para quem não lembra, no filme as coisas começam a dar muito errado quando fêmeas completamente isoladas de parceiros masculinos têm filhotes.

Extremo risco de extinção

A Pristis pectinata é uma das cinco espécies de peixe-serra, um grupo de grandes raias conhecido por seus focinhos longos e cravejados de dentes que usam para subjugar peixes pequenos. Peixe-serra-de-dentes-pequenos são encontrados principalmente hoje em alguns locais no sudoeste da Flórida. Estes peixes, que possuem esqueletos feitos de cartilagem, assim como os tubarões, podem chegar a até 7,6 metros de comprimento.

Os pesquisadores observaram que o peixe-serra pode ser a primeira família inteira de animais marinhos a ser extinta, o que está ocorrendo devido à pesca excessiva e perda de habitats costeiros. “Os peixe-serra estão à beira da extinção graças a humanos”, afirmou Chapman.

Os peixes-serra já desapareceram da maioria dos lugares no Atlântico, onde eram comuns há um século.

A descoberta

“Estávamos conduzindo exames de DNA de rotina nos peixes-serra encontrados nesta área a fim de ver se parentes estavam se reproduzindo entre si muitas vezes devido ao pequeno tamanho de sua população”, explica em um comunicado o principal autor do estudo, Andrew Fields, também da Stony Brook University. “O que o DNA nos disse foi muito mais surpreendente: as fêmeas do peixe-serra estão, algumas vezes, se reproduzindo sem sequer acasalar”.

Entre 2004 e 2013, os pesquisadores recolheram amostras do DNA de 190 peixes-serra. Todos os peixes foram marcados e soltos de volta na natureza como parte de um estudo ainda em curso sobre os movimentos destes animais.

Os cientistas descobriram sete animais resultantes de partenogênese, o que representa cerca de 3% dos peixe-serra que os pesquisadores estudaram. Cinco destes sete parecem ser todos irmãos com aproximadamente a mesma idade, provavelmente membros de uma mesma ninhada.

Tanto estes animais como muitas outras criaturas realizam meiose, na qual as células se dividem de modo a formar células sexuais, cada uma delas possuindo apenas metade do material necessário para fazer filhotes. Nos peixe-serra do sexo feminino que os pesquisadores analisaram, pares de células sexuais provavelmente se fundiram para gerar a prole. No entanto, estes progênies não são clones da mãe ou entre si; células sexuais não são perfeitamente idênticas umas às outras, como os descendentes resultantes destas células sexuais.

Filhotes saudáveis

Como o nascimento virgem é essencialmente uma forma extrema de consanguinidade, “havia um sentimento geral de que a partenogênese vertebrada era uma curiosidade que não costumava levar a prole viável”, conta no comunicado o coautor Gregg Poulakis, da Comissão de Conservação de Peixes e Vida Selvagem da Fórida, que liderou as coletas de campo do peixe-serra.

No entanto, os sete descendentes de parenogênese que os pesquisadores descobriram pareciam estar em perfeita saúde e eram do tamanho normal para sua idade. “Isto sugere que a partenogênese não é um beco sem saída reprodutiva, assumindo que eles atinjam a maturidade e se reproduzam”, conclui Poulakis.

A partenogênese pode ocorrer principalmente em populações pequenas ou em queda, talvez quando as fêmeas não conseguem encontrar machos durante a época de acasalamento. Os pesquisadores agora estão encorajando outros cientistas a analisarem suas bases de dados de DNA de aves, peixes, cobras, lagartos, tubarões e raias em busca de outros exemplos de partenogênese vertebrada na natureza.

“Isso poderia reescrever os livros de biologia”, ousa o coautor do estudo Kevin Feldheim, do Laboratório Pritzker no Museu Field de História Natural, em Chicago, onde a decodificação do DNA foi realizada. “A partenogênese ocasional pode ser muito mais rotineira em populações de animais selvagens do que jamais imaginamos”.

Os cientistas advertiram que a partenogênese por si só não é suficiente para salvar o altamente ameaçado peixe-serra do perigo de extinção. “Seria ótimo usar esta descoberta interessante para inspirar ações de conservação para o peixe-serra”, sugere Chapman.

Os cientistas detalharam suas descobertas online esta semana na revista “Current Biology”. [LiveScience]

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