“O avanço do ano”, que pode ser o fim da epidemia de HIV, foi testado no Brasil

Por , em 13.12.2024
Uma farmacêutica segura um frasco de lenacapavir no Desmond Tutu Health Foundation’s Masiphumelele Research Site, na Cidade do Cabo, África do Sul. Reconhecido como a "Descoberta do Ano de 2024" pela revista Science, o medicamento foi descrito como um passo crucial para reduzir o HIV/AIDS como crise global, graças à sua eficácia revolucionária e administração semestral, que prometem transformar a prevenção em saúde pública. Imagem: Nardus Engelbrecht/AP

A possibilidade de erradicar a epidemia de HIV tem intrigado cientistas desde os anos 1980. Atualmente, com cerca de 1,3 milhão de novas infecções anuais, o mundo enfrenta dificuldades para cumprir a meta da ONU de acabar com o HIV/AIDS até 2030. Contudo, 2024 trouxe uma onda de esperança com os avanços no desenvolvimento do lenacapavir, um medicamento revolucionário que tem mostrado capacidade de praticamente eliminar novas infecções pelo HIV em relações sexuais.

O que torna o Lenacapavir tão especial?

Os estudos clínicos recentes, conhecidos como PURPOSE 1 e PURPOSE 2, destacaram a eficiência surpreendente do lenacapavir. No PURPOSE 2, mais de 3.200 participantes, incluindo homens cisgêner o, mulheres transgêner o e indivíduos não binários, foram acompanhados em vários países, como Argentina, Brasil, México, Peru, África do Sul, Tailândia e Estados Unidos. Os resultados mostraram uma taxa de eficácia de 96% na prevenção do HIV.

Da mesma forma, o estudo PURPOSE 1, que incluiu 5.300 mulheres cisgênero na África do Sul e Uganda, revelou uma eficácia impressionante de 100%. Nenhuma participante que recebeu o medicamento desde o início do estudo em 2021 contraiu HIV. Essa conquista foi um dos principais destaques da conferência AIDS 2024, realizada em Munique.

Lenacapavir funciona ao rigidificar a proteína capsíde do HIV, essencial para a replicação viral. Essa abordagem inovadora é fruto de anos de pesquisa sobre a estrutura e função do vírus e levou a revista científica Science a nomear o medicamento como a “Descoberta do Ano de 2024”.

Uma alternativa às pílulas diárias

Atualmente, a profilaxia pré-exposição (PrEP) em forma de pílulas, como o Truvada, é a principal opção para prevenir o HIV. Embora eficaz em 99% nos estudos clínicos, na vida real sua eficiência cai devido à baixa adesão. Problemas como estigma e percepções equivocadas contribuem para que muitos não sigam o regime recomendado. Por exemplo, em um estudo com homens sul-africanos que fazem sexo com homens, a eficiência foi de apenas 26% devido à falta de uso regular.

Lenacapavir, administrado por injeções semestrais, oferece uma solução prática e discreta. A assistente de medicina da Universidade Johns Hopkins, Ethel Weld, destacou que a simplicidade desse método facilita a adesão, aproximando-o de intervenções preventivas como vacinações.

Avançando a prevenção em regiões críticas

Cécile Tremblay, pesquisadora da Universidade de Montreal, enfatiza o impacto potencial do lenacapavir na África Subsaariana, onde está concentrada a maior parte das infecções globais. A região representa dois terços dos casos mundiais de HIV, com 25,7 milhões de pessoas infectadas. Além disso, cerca de 4.000 meninas e mulheres jovens são infectadas semanalmente. Tremblay observa que o estigma em torno das pílulas diárias tem limitado a eficiência da PrEP oral nessa população vulnerável.

Desafios para o acesso global

Embora o lenacapavir já seja aprovado pela FDA dos EUA para tratar o HIV resistente a múltiplos medicamentos desde 2022, seu uso como prevenção ainda depende de regulamentações. A Gilead Sciences planeja apresentar os resultados dos estudos PURPOSE para aprovação global, com o objetivo de disponibilizar o medicamento em 2025.

No entanto, o custo é uma barreira significativa. Atualmente, o tratamento anual com lenacapavir nos EUA custa US$ 42.250 (R$ R$ 240.825 ma cotação atual), enquanto opções orais de PrEP podem custar menos de R$ 20 mensais. Tremblay defende a necessidade de ampliar o acesso, especialmente em países de baixa e média renda. Linda-Gail Bekker, diretora do Centro de HIV Desmond Tutu, sugere que as regiões onde os estudos foram conduzidos tenham acesso prioritário, enquanto empresas genéricas preparam alternativas mais acessíveis.

Deixe seu comentário!