LSD: primeiras “viagens” de pacientes com ansiedade em fase 3 de estudo clínico foram “extraordinárias”

Por , em 17.12.2024

O tratamento para o transtorno de ansiedade generalizada pode estar prestes a dar um salto gigantesco com um velho conhecido dos anos 60: o LSD. A MindMed, empresa focada em terapias inovadoras para a saúde mental, iniciou um estudo clínico de fase 3 com sua formulação otimizada do LSD, o MM120 ODT, em pacientes com transtorno de ansiedade generalizada. A pesquisa promete revolucionar o tratamento de uma condição que afeta cerca de 19 milhões de brasileiros e cerca de 320 milhões de pessoa no mundo.

O que é o MM120 ODT e como ele funciona?

O MM120 ODT é uma versão farmacêutica aprimorada do LSD, conhecida também como tartrato D-lisergida. Diferente do que muitos imaginam quando ouvem falar de LSD, essa versão foi desenvolvida para fins terapêuticos, incorporando a tecnologia Zydis® ODT, que permite que o comprimido se dissolva rapidamente na boca. Além disso, ele tem absorção acelerada e reduz os efeitos colaterais gastrointestinais.

Na prática, o MM120 atua nos receptores de serotonina 5-HT2A do cérebro, ajudando a equilibrar a atividade neural associada à ansiedade crônica. Ou seja, ele não apenas alivia sintomas, mas atua no cerne do problema.

O ensaio de fase 3: estrutura e expectativas

O estudo chamado Voyage será dividido em duas etapas:

  • Parte A: Serão 12 semanas de um ensaio duplo-cego, controlado por placebo, para medir a eficácia do MM120 ODT.
  • Parte B: Uma extensão aberta de 40 semanas, onde os participantes elegíveis continuarão com o tratamento conforme a gravidade de seus sintomas.

O objetivo principal é avaliar a mudança nos escores da Escala Hamilton de Ansiedade (HAM-A), uma ferramenta amplamente utilizada em estudos psiquiátricos. E o mais importante? Resultados preliminares já deram motivos de sobra para esperança.

Resultados iniciais: por que a fase 2b empolgou os cientistas?

Na fase 2b, o MM120 mostrou-se notavelmente eficaz. Em apenas 12 semanas, cerca de 65% dos pacientes responderam positivamente à terapia, e 48% alcançaram uma remissão clínica – um feito extraordinário considerando que os tratamentos atuais muitas vezes exigem meses para apresentar melhorias modestas.

Outro ponto positivo é que os eventos adversos relatados foram leves ou moderados e limitaram-se às primeiras horas após a administração. Ou seja, nada de efeitos prolongados que comprometam a qualidade de vida do paciente.

David Feifel, psiquiatra e investigador do estudo, destaca, em um comunicado a imprensa, que o projeto da fase 3 foi estruturado para minimizar interferências externas, como “efeitos placebo acidentais”. Os pacientes serão avaliados por especialistas independentes que não terão acesso a informações sobre o tratamento.

Por que o tratamento para transtorno de ansiedade generalizada (TAG) precisa de inovação?

Se você acha que a ansiedade é apenas um problema moderno, está enganado. Em contextos evolutivos, nossa capacidade de sentir medo e preocupação era essencial para a sobrevivência. Hoje, no entanto, vivemos em um mundo onde as ameaças são menos tangíveis e mais constantes, o que sobrecarrega nosso sistema nervoso.

Para se ter uma ideia, o último medicamento inovador aprovado para o tratamento do transtorno de ansiedade generalizada surgiu em 2007. Desde então, os pacientes têm basicamente as mesmas opções: antidepressivos, benzodiazepínicos (que são altamente viciantes) e terapias cognitivo-comportamentais. Nada disso resolve a questão de forma rápida e efetiva.

O LSD pode mudar esse jogo. Sua ação no cérebro é quase como “reiniciar um computador com muitos programas abertos”, facilitando um padrão neural mais equilibrado.

LSD e o protocolo de terapia psicodélica: como funciona?

O LSD administrado no estudo de Fase 3 provavelmente seguiu um protocolo de terapia psicodélica, uma abordagem estruturada que tem ganhado destaque na medicina moderna. Diferente de simplesmente ingerir a substância, esse método combina suporte terapêutico e preparação psicológica antes, durante e após a experiência.

No protocolo, os participantes são acompanhados por terapeutas especializados em um ambiente seguro e controlado, projetado para otimizar os benefícios terapêuticos e reduzir riscos emocionais. O uso de LSD ou outros psicodélicos não é isolado; ele é integrado a sessões de conversas antes do tratamento, onde os pacientes definem intenções claras para a experiência. Durante o efeito da substância, os terapeutas monitoram o paciente, fornecendo suporte sem interferir diretamente na vivência subjetiva.

O pós-experiência é igualmente importante: os participantes passam por sessões de integração, onde discutem suas percepções e insights obtidos durante o “transe”. Esse processo ajuda a transformar os aprendizados da experiência psicodélica em mudanças comportamentais duradouras, como redução da ansiedade e melhoria da qualidade de vida.

Esse protocolo, já testado em terapias com MDMA e psilocibina (dos cogumelos mágicos), foi desenvolvido para unir a ciência moderna com práticas antigas de uso de psicodélicos, garantindo eficácia e segurança no tratamento de condições como o transtorno de ansiedade generalizada (GAD).

O que esperar dos próximos anos?

Se tudo correr conforme o planejado, os primeiros resultados da fase 3 devem ser divulgados no primeiro semestre de 2026. Enquanto isso, a MindMed também pretende expandir os ensaios para a Europa com o estudo Panorama em 2025. Além disso, a empresa está investigando outras possíveis aplicações do MM120, incluindo o tratamento da depressão maior com LSD.

Para o futuro, a esperança é que o MM120 represente não apenas um novo medicamento, mas uma mudança de paradigma na forma como tratamos as doenças mentais. Afinal, quando se trata de inovação, às vezes as soluções mais criativas já estavam lá, esperando que olhássemos para elas com novos olhos.

Nota do Editor: Como editor d ejornalismo científico, é fascinante ver como substâncias tão demonizadas no passado, como o LSD, estão sendo ressignificadas pela ciência. Hoje, com o rigor necessário, elas se mostram promissoras para trazer alívio a condições que limitam a vida de milhões. A história, afinal, adora uma boa reviravolta.

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