Descoberta de um novo grupo sanguíneo: um mistério resolvido após 50 anos

Por , em 7.01.2025

Em 1972, uma amostra de sangue de uma mulher grávida deixou médicos intrigados. Faltava nela uma molécula presente em todos os outros glóbulos vermelhos conhecidos na época. Essa ausência molecular misteriosa permaneceu inexplicada por cinco décadas, até que cientistas do Reino Unido e de Israel finalmente identificaram um novo sistema de grupo sanguíneo em seres humanos.

Um marco na hematologia moderna

Após anos de pesquisa, o estudo foi publicado em setembro, marcando um feito significativo na área. Louise Tilley, hematologista do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido, descreveu a descoberta como o resultado de um esforço coletivo e uma vitória para pacientes raros que necessitam de cuidados especializados. Durante quase duas décadas, Tilley dedicou-se a desvendar esse enigma, que lança luz sobre a complexidade dos grupos sanguíneos humanos.

Embora os sistemas ABO e Rh sejam mais conhecidos, existem vários outros sistemas que dependem de proteínas e açúcares na superfície dos glóbulos vermelhos. Esses antígenos funcionam como marcadores de identificação para o corpo, ajudando a distinguir elementos “próprios” de possíveis ameaças externas. Essa diversidade, embora fascinante, pode causar reações graves em transfusões sanguíneas se os marcadores não forem compatíveis.

O que torna o sistema MAL único?

O novo sistema, batizado de MAL, foi identificado a partir da ausência do antígeno AnWj em uma paciente da década de 1970. Curiosamente, mais de 99,9% das pessoas possuem esse antígeno, localizado em uma proteína chamada de proteína de mielina e linfócitos. Quando ambos os genes MAL são mutados, o antígeno AnWj não se manifesta, resultando em um tipo sanguíneo raro e peculiar.

Os cientistas identificaram três pacientes com esse tipo sanguíneo, mas sem a mutação, indicando que outros fatores, como distúrbios sanguíneos, também podem suprimir o antígeno. Essa descoberta foi possível graças à introdução do gene MAL em células sanguíneas AnWj-negativas, o que levou à expressão do antígeno ausente.

Impactos clínicos e avanços na pesquisa

A proteína MAL desempenha um papel essencial na estabilidade das membranas celulares e no transporte intracelular. Estudos anteriores também revelaram que o antígeno AnWj não está presente em recém-nascidos, surgindo apenas após o nascimento. Esse detalhe pode ajudar a entender melhor o desenvolvimento do sistema imunológico humano.

Uma descoberta interessante foi que todos os pacientes AnWj-negativos compartilhavam a mesma mutação genética, mas não apresentavam outras anormalidades ou doenças associadas. Agora, é possível testar se a ausência do antígeno é hereditária ou causada por outros fatores, o que pode indicar problemas médicos subjacentes.

A ciência por trás dos grupos sanguíneos raros

Desde o início do século XX, muitos sistemas sanguíneos foram descobertos, mas a maioria afeta um pequeno número de pessoas. Em 2022, o sistema Er foi descrito, mostrando como avanços tecnológicos continuam a revelar detalhes antes impossíveis de serem detectados. Identificar esses sistemas não é apenas um feito acadêmico; ele salva vidas, evitando reações adversas em transfusões e possibilitando diagnósticos mais precisos.

O estudo sobre o sistema MAL foi publicado no periódico Blood.

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