85% das mulheres não vacinadas provavelmente contrairão este vírus — e novas pesquisas o associam a doenças cardíacas

No cenário de saúde do Brasil, as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte desde 1960, superando o câncer e os óbitos por causas externas somadas. Dados do Ministério da Saúde indicam que essas doenças representam cerca de 32% das mortes por causas definidas no país. Estima-se que uma pessoa morra por doenças cardiovasculares a cada 90 segundos no Brasil, o que equivale a aproximadamente 400 mil mortes por ano. Os principais fatores de risco incluem hipertensão, colesterol elevado, obesidade e tabagismo. No entanto, estudos recentes têm apontado que o papilomavírus humano (HPV) pode também estar associado ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, sugerindo que a prevenção de infecções virais pode ter um papel importante na saúde do coração.
O que é o HPV?
O HPV é a infecção sexualmente transmissível mais comum. Afetando homens e mulheres, ele muitas vezes não apresenta sintomas e, na maioria dos casos, desaparece sozinho em até dois anos. No entanto, quando persiste, pode levar a verrugas genitais ou câncer, dependendo do tipo de HPV.
O HPV é frequentemente transmitido durante relações sexuais vaginais ou anais, bem como pelo contato pele-a-pele durante o sexo. Uma pessoa infectada pode transmitir o vírus mesmo sem sinais visíveis. Os sintomas podem demorar anos para aparecer após a infecção.
Para prevenir o HPV, recomenda-se o uso de preservativos durante o sexo e exames rotineiros para câncer do colo do útero, sendo que muitas mulheres descobrem a infecção através de resultados anormais de exames de Papanicolau. A vacina contra o HPV é uma opção preventiva, geralmente administrada em duas ou três doses entre os 9 e 26 anos.
A prevalência do HPV
Dados do CDC indicam que 13 milhões de pessoas contraem HPV anualmente, com cerca de 36.000 casos evoluindo para câncer tanto em homens quanto mulheres. Um estudo de 2014 publicado no Sexually Transmitted Diseases estimou que 84,6% das mulheres e 91,3% dos homens adquiririam HPV até os 45 anos sem vacinação. Apesar dessas cifras terem provavelmente diminuído, a vacina só foi disponibilizada em 2006, quando muitos já estavam fora da faixa etaria para recebê-la.
O CDC dos EUA mantém que quase todos terão HPV em algum momento da vida. E não estamos falando de um prêmio de loteria que todos querem ganhar.
Estudos ligam HPV a risco cardiovascular
Um novo estudo apresentado na American College of Cardiology’s Annual Scientific Session (ACC.25) relaciona infecção por HPV a um risco significativamente aumentado de doença cardíaca e doença arterial coronariana, segundo o The Microbiologist. Após analisar dados de sete estudos entre 2011 e 2024, abrangendo o status de HPV e resultados cardiovasculares de quase 250 mil pacientes, os pesquisadores concluíram que:
Pacientes HPV-positivos tinham 40% mais probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares. Quando ajustado para variáveis de confusão (como fatores sociodemográficos e histórico médico), o risco era 33% maior. Além disso, pacientes com HPV tinham o dobro do risco de desenvolver doença arterial coronariana, uma condição onde o acúmulo de placas nas artérias do coração reduz o fluxo sanguíneo.
Dr. Stephen Akinfenwa, residente de medicina interna na UConn School of Medicine e autor principal do estudo, destacou que ainda não se determinou o mecanismo biológico, mas há uma hipótese de que esteja relacionado à inflamação cronica. Ele expressou interesse em verificar se a redução do HPV via vacinação poderia diminuir o risco cardiovascular.
HPV e saúde do coração: um mistério a ser desvendado
Embora o estudo mais recente não explique como o HPV afeta a saúde cardiovascular, pesquisas anteriores oferecem algumas pistas. Um estudo publicado em 2024 no European Heart Journal acompanhou 63 mil mulheres coreanas jovens e de meia-idade sem doenças cardíacas e concluiu que aquelas infectadas com HPV de alto risco tinham quatro vezes mais chances de morrer de doenças cardiacas.
Infeções virais podem desencadear inflamações um fator chave em doenças cardíacas segundo os autores do estudo. Contudo, eles também afirmaram que mais pesquisas são necessárias, especialmente envolvendo homens. Parece que o mistério do HPV e seu impacto no coração precisa de mais detetives científicos.
