Físicos registram rara ilusão de um objeto se movendo a 99,9% da velocidade da luz

Por , em 13.10.2025
Os pesquisadores em Viena combinaram múltiplos fragmentos de luz para montar registros visuais. Quando está parada (à esquerda), a forma cúbica parece habitual. Porém, na simulação a 99,9% da velocidade da luz (à direita), a esfera mantém a circularidade mas revela partes escondidas de seu lado oposto. (Crédito: Hornof et al., 2025; CC BY 4.0)

Imagine observar uma esfera ou um cubo disparando quase na mesma rapidez dos fótons. Esse cenário, que parecia restrito à teoria, foi finalmente recriado em laboratório por físicos da Universidade de Tecnologia de Viena. O feito trouxe à realidade o efeito Terrell-Penrose, previsto nos anos 1950, em que um objeto em velocidade relativística não parece achatado, mas sim girado — uma ilusão criada pelo tempo desigual de chegada da luz ao observador.

Quando a relatividade vira espetáculo visual

A relatividade especial de Einstein prevê que objetos em movimento extremo sofrem contração de Lorentz, ou seja, encurtam-se na direção em que viajam. Esse fenômeno já foi confirmado indiretamente em aceleradores de partículas, onde elétrons atingem frações significativas da velocidade da luz. Mas, como observaram Terrell e Penrose um observador humano não perceberia um “amasso”, e sim uma rotação aparente.

Essa diferença ocorre porque a luz que parte da parte traseira do objeto demora mais a chegar até nós em comparação à da frente. O resultado é que a câmera ou o olho “monta” uma cena distorcida, na qual o objeto parece inclinado. Até recentemente, essa ideia permanecia apenas em cálculos e simulações de computador — mas agora ganhou imagens reais.

De certo modo, é quase um lembrete irônico de que, se estivéssemos realmente correndo na rua à velocidade da luz, ainda assim pareceríamos ligeiramente tortos nas selfies.

Recriando a velocidade impossível

Mover fisicamente um cubo de 1 metro a quase 300 mil quilômetros por segundo é inviável: a energia necessária seria astronômica. Então os pesquisadores optaram por recriar o efeito com uma solução elegante. Usaram pulsos de laser ultrarrápidos, de apenas 300 picosegundos, e câmeras que capturam fatias ínfimas de luz refletida.

Entre cada disparo, deslocaram o cubo 4,8 centímetros — distância que corresponderia ao avanço real caso estivesse a 80% da velocidade da luz no intervalo do pulso . Ao juntar dezenas dessas fatias, o resultado visual foi o de um objeto aparentemente em disparada. Curiosamente, o cubo ganhou um aspecto rotacionado, sem ter se movido de fato.

O mesmo procedimento foi repetido com uma esfera, que foi movida em incrementos de 6 centímetros. As imagens finais mostraram a bola redonda, mas com uma revelação intrigante: partes de seu “lado de trás” se tornaram visíveis. É uma experiência quase teatral, onde a ciência encena movimentos impossíveis.

Ciência, geometria e um toque de humor

Os resultados foram publicados na revista Communications Physics. Dominik Hornof, autor principal, destacou que o mais impressionante foi a simplicidade da ideia. Bastou alinhar lasers, câmeras e paciência para dar vida a um conceito com mais de 60 anos.

A demonstração confirma que o efeito Terrell-Penrose não contradiz Einstein, apenas mostra que nossos olhos e lentes captam a realidade de forma enviesada. O encurtamento físico continua existindo, mas o registro visual nos engana com a sensação de rotação.

É quase como assistir a um filme de ficção científica produzido dentro de uma sala de laboratório. E, se me permitem uma nota pessoal como editor, esse tipo de estudo nos lembra que a física, as vezes, é capaz de criar truques de mágica mais convincentes que qualquer ilusionista de palco

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