Chegou a supervacina do HIV? Não, mas quase: conheça o lenacapavir

Imagine se a prevenção contra o HIV deixasse de depender de comprimidos diários e passasse a exigir apenas duas aplicações ao ano. Essa é a promessa do lenacapavir, um medicamento inovador que já acumula resultados impressionantes em ensaios clínicos e que pode representar um ponto de virada no combate global ao vírus.
Como ele funciona
O lenacapavir pertence a uma nova classe de antirretrovirais. Em vez de atacar enzimas específicas, como fazem os tratamentos tradicionais, ele age sobre o capsídeo do HIV-1 — a “capa” que protege o material genético viral. Ao desestabilizar essa estrutura o medicamento consegue atrapalhar várias etapas do ciclo de vida do vírus. Isso o torna eficaz não só na prevenção, mas também em casos de infecção já estabelecida, inclusive quando há resistência a outras drogas.
Eficácia quase total
Os resultados dos estudos PURPOSE 1 e PURPOSE 2 chamaram a atenção. No primeiro, realizado com mulheres cisgênero na África, nenhuma participante que recebeu a injeção contraiu HIV, alcançando uma eficácia de 100% demtro do estudo (Gilead, 2024). Já no segundo, conduzido com homens que fazem sexo com homens e pessoas trans, a redução do risco de infecção foi de cerca de 96% em comparação à incidência esperada em populações semelhantes (Gilead, 2024). Somados, os dois ensaios sugerem que mais de 99,9% dos participantes permaneceram livres do vírus durante o acompanhamento.
Além disso, em pessoas vivendo com HIV multirresistente, o lenacapavir demonstrou manter a carga viral indetectável quando combinado a outros fármacos, mesmo após dois anos de uso (PubMed, 2024). Os efeitos colaterais mais comuns foram leves e restritos ao local da aplicação (PubMed, 2024).
O desafio do preço
Se a ciência já mostrou que funciona, o obstáculo está no custo. Nos Estados Unidos, o valor de lista do lenacapavir para prevenção chega a US$ 28.218 por ano — cerca de R$ 146 mil na cotação atual (The Body Pro, 2025). Em regimes de tratamento, o preço pode alcançar US$ 40 a 44 mil anuais (AJMC, 2024).
Mas os cenários futuros são animadores. Modelagens econômicas indicam que, em produção em larga escala e com concorrência de genéricos, o custo poderia cair para US$ 35 a 46 por pessoa ao ano, e em alguns cenários até para US$ 25 — pouco mais de R$ 120 (SSRN, 2025; UNAIDS, 2025). A diferença entre milhares de dólares e algumas dezenas é gigantesca e pode determinar se a droga será realmente acessível em países de baixa e média renda, onde a epidemia é mais grave.
No Brasil, a expectativa em torno da chegada do lenacapavir é alta, especialmente após a recomendação da OMS em 2024 para seu uso como uma nova opção de profilaxia pré-exposição (PrEP). Ainda não há data oficial definida para aprovação pela Anvisa, mas especialistas acreditam que o país poderá integrar o medicamento às políticas públicas de prevenção assim que forem viabilizados acordos de preço e distribuição. O histórico de adoção relativamente rápida de outras estratégias de PrEP pelo SUS, somado à pressão de organizações de saúde e à possibilidade de produção genérica futura, alimenta a esperança de que o lenacapavir não demore a se tornar uma realidade também para a população brasileira.
O futuro global
A Organização Mundial da Saude já incluiu o lenacapavir em suas recomendações de profilaxia pré-exposição em 2024, reconhecendo seu potencial estratégico. E a própria Gilead, fabricante original, firmou acordos de licenciamento voluntário sem royalties com produtores genéricos para viabilizar o acesso em 120 países de alta incidência (Gilead, 2024).
Se os entraves econômicos forem superados, o lenacapavir pode se tornar mais do que uma inovação científica: pode ser o primeiro passo concreto para um futuro em que prevenir o HIV seja simples, eficaz e acessível em escala global.
