Pensavam ser impossível: Cientistas mostram que luz quântica pode ser enviada ao espaço

Por , em 10.12.2025

Durante décadas, a ideia de enviar sinais quânticos da superfície terrestre para satélites parecia algo próximo da ficção científica. Pesquisadores acreditavam que a instabilidade da atmosfera e a necessidade de alinhar trajetórias de fótons com precisão absoluta tornavam esse processo inviável. Porém, um novo estudo da University of Technology Sydney (UTS), na Austrália, indica que, com estratégias inteligentes de transmissão, esse objetivo pode sair do papel e abrir caminho para a construção de uma internet quântica global.

A proposta envolve emitir dois fótons entrelaçados de estações terrestres diferentes, fazendo com que ambos se encontrem em um satélite a cerca de 500 quilômetros de altitude. É quase como jogar duas moedas do chão e tentar fazê-las se tocarem no ar durante uma passagem orbital — só que essas moedas viajam a quase 20 mil quilômetros por hora e precisam manter um estado quântico extremamente frágil. O estudo sugere que o sinal quântico pode ser estabilizado com ajustes finos no alinhamento óptico e no controle da interferência luminosa vinda da Terra e da Lua.

A novidade está em um método chamado entanglement swapping, que permite trocar estados quânticos entre partículas mesmo sem que elas tenham se encontrado diretamente. Segundo o modelo criado pelos cientistas, essa tecnica funciona mesmo levando em conta turbulencia atmosferica, ruídos fotônicos e movimentos relativos entre os equipamentos de solo e o satélite. A palavra-chave aqui é sincronização — uma dança minuciosa de luz e movimento.

No passado se pensava que a transmissão ascendente falharia porque o espalhamento atmosférico acontece logo no início da jornada do fóton e isso deveria comprometer o entrelaçamento quântico. Mas o novo estudo mostra que, se o satélite receber os fótons quase ao mesmo tempo e usar sistemas ópticos ajustáveis, esse obstáculo pode ser contornado com elegância e até economia de energia.

A vantagem prática é relevante: estações terrestres contam com muito mais energia do que satélites, permitindo produzir trilhões de pares de fótons em alta velocidade sem sobrecarregar equipamentos no espaço

Quantum no céu, proteção na Terra

Parte do fascínio da internet quântica é sua promessa de segurança praticamente absoluta. Como o estado quântico de um fóton muda ao ser observado, qualquer tentativa de espionagem ou interceptação deixaria rastros instantaneamente detectáveis. Esse mecanismo torna as redes quânticas não apenas seguras, mas autoauditáveis.

Hoje, essa tecnologia funciona melhor no sentido espaço → solo, pois a atmosfera só interfere no fim do caminho, reduzindo perdas. O novo modelo mostra que o caminho inverso também pode ser viável, desde que as transmissões ocorram à noite e em locais com baixa poluição luminosa. Aqui vale lembrar algo que astrônomos sabem bem em regiões rurais: a Terra é muito mais brilhante do que parece vista de longe, e esse brilho pode enganar sensores extremamente sensíveis.

Os satélites, nessa abordagem, não precisam carregar grandes fontes de energia ou sensores complexos. Eles atuariam mais como intermediários elegantes, comparando sinais recebidos e retransmitindo resultados, sem produzir os fótons eles mesmos.

O que isso muda no futuro da internet quântica

Para construir uma rede quântica global, é necessário transmitir chaves de criptografia a longas distâncias sem perda de informação. Hoje, fibras ópticas conseguem transportar esses sinais, mas apenas por alguns poucos milhares de quilômetros, porque a informação quântica se degrada ao longo do percurso. Satélites resolvem esse problema ao permitir saltos enormes pelo espaço, onde quase não há interferência.

Segundo os autores, testes práticos podem começar com receptores instalados em balões de alta altitude ou drones capazes de pairar acima das nuvens. Isso permitiria ajustar sistemas antes de apostar em satélites dedicados. É um pouco como testar uma rota de escalada antes de subir o penhasco completo.

O estudo foi publicado na revista Physical Review Research, reforçando um interesse crescente na expansão da computação e comunicação quânticas ao nível planetário.

É curioso imaginar um futuro em que o entrelaçamento quântico seja tão comum quanto a energia elétrica. Assim como hoje ligamos o celular sem pensar no caminho que o sinal percorre, podemos um dia acessar serviços digitais garantidos por partículas que dançam juntas mesmo separadas por continentes. No fundo, a ciência quântica insiste em nos lembrar algo simples: o universo é teimosamente mais conectado do que nossa intuição sugere.

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