O universo só ficará mais frio e morto daqui pra frente: estudo

Por , em 11.12.2025
Registro em infravermelho profundo do Herschel, mostrado junto com informações de luz visível coletadas pelo Euclid (Imagem por Ryley Hill, University of British Columbia, ESA).

Há um certo drama cósmico em perceber que até o universo tem seu auge — e ele já passou. A nova combinação de dados dos telescópios espaciais Euclid e Herschel, ambos da Agência Espacial Europeia (ESA), revela que o ritmo de formação de estrelas não só desacelerou, como vem caindo gradualmente há cerca de 10 bilhões de anos. Não se trata de um fim repentino, mas de um resfriamento lento, silencioso e inevitável.

Mais de 2 milhões de galáxias foram analisadas, formando o catálogo térmico mais extenso já construído. A emissão de calor da poeira estelar serviu como termômetro: galáxias fervilhando de estrelas jovens tendem a ser mais quentes, enquanto galáxias com pouca atividade ficam mais frias. Curiosamente, essa diferença não é dramática, mas persistente — e persistência, em escalas cósmicas, conta muito.

Os pesquisadores observaram que a temperatura média das galaxias caiu cerca de 10 kelvins nos últimos 10 bilhões de anos, uma mudança pequena, porém suficiente para indicar um declínio contínuo na formação de novas estrelas. Essa relação entre temperatura e criação estelar é bem estabelecida pela astrofísica moderna: menos calor, menos estrelas nascendo.

No entanto o que realmente chama atenção é a escala da tendência. O auge da formação estelar parece ter ocorrido quando o universo ainda estava se acostumando com sua própria existência, apenas alguns bilhões de anos após o Big Bang

Essa confirmação foi possível unindo instrumentos diferentes: enquanto o Euclid é otimizado para observar luz visível e infravermelha próxima, o Herschel enxergava o infravermelho distante, faixa na qual a poeira cósmica emite calor. A fusão desses dados ampliou o espectro analisável, permitindo medições mais precisas de temperatura e densidade da poeira que alimenta novas estrelas.

O fim da infância cósmica

Durante sua juventude, o universo era um cenário movimentado: nuvens densas de gás e poeira colapsavam sob sua própria gravidade, giravam, aqueciam e acendiam reatores de fusão nuclear, formando estrelas jovens e intensas. Esse ciclo, ao mesmo tempo energético e frágil, depende de reservas de gás que não são infinitas.

O gráfico oferece um panorama do mosaico e das imagens aproximadas publicadas pela missão Euclid da ESA em 15 de outubro de 2024. No topo à esquerda, é mostrado um mapa do céu inteiro, onde a área observada por Euclid na região sul está marcada em amarelo. (Crédito da imagem: ESA/Euclid/Consórcio Euclid/NASA, CEA Paris-Saclay, tratamento da imagem por J.-C. Cuillandre, E. Bertin, G. Anselmi; ESA/Gaia/DPAC; ESA/Planck Collaboration)

Com o tempo, galáxias podem perder esse material: colisões galácticas podem dispersa-lo, enquanto explosões oriundas de buracos negros supermassivos podem expulsar gás para fora das regiões onde estrelas nasceriam. Quando essa reserva se esgota, a galáxia entra em um estado chamado “quenching” — ela continua existindo, mas quase não produz estrelas novas.

E o universo, ao que tudo indica, está caminhando para esse estado global. Ainda vai demorar um tempo incompreensivelmente longo até que literalmente nada mais brilhe — algo entre dezenas de bilhões e números absurdos de anos que nem cabem na memória. Mas as condições que sustentam o brilho já estão diminuindo, devagar e sem retorno.

O mapa 3D que revelará nosso destino

A missão Euclid, que já catalogou 26 milhões de galáxias apenas em sua primeira grande coleta de dados, segue com o objetivo de construir um mapa tridimensional cobrindo um terço do céu. Isso permitirá compreender tanto a distribuição de matéria comum quanto de matéria escura, além de revelar como a energia escura acelera a expansão do espaço.

Essas medições também serão essenciais para comparar galáxias de épocas cósmicas diferentes lado a lado. É como olhar fotos de família separadas por bilhões de anos, percebendo como cada geração se torna um pouco mais silenciosa, mais fria, menos criativa em gerar novas estrelas.

No nível da Via Lactea, nossa galáxia ainda forma estrelas, embora em um ritmo morno comparado ao auge cósmico. Nosso Sol, por exemplo, está na metade de sua vida útil e, um dia, deixará de brilhar — muito antes da própria galáxia se “esvaziar” completamente.

Registro óptico feito pelo telescópio Euclid da maternidade de estrelas Messier 78, localizada a cerca de 1.300 anos-luz dentro da constelação de Órion. A cena destaca estrelas recém-formadas emergindo no meio de nuvens de poeira e gases. (Crédito: ESA/Euclid/Euclid Consortium/NASA, edição de imagem por J.-C. Cuillandre (CEA Paris-Saclay), G. Anselmi)

Ao pensar que tudo isso é tão vasto e tão longo que nossos calendários, séculos, civilizações e extinções inteiras não chegam perto de ser um piscar de olho, há algo poético. Um certo humor cósmico: o universo está envelhecendo, mas nós mal tivemos tempo de olhar para cima.

No fundo, essa história é menos sobre tragédia e mais sobre perspectiva. A compreensão de que somos uma etapa momentânea de um processo gigantesco costuma reduzir nossas urgências triviais, ainda que por segundos. Saber que o universo já viveu seu melhor verão estelar talvez torne cada noite clara um pouco mais valiosa para nós.

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