O primeiro beijo surgiu há 21 milhões de anos, dizem cientistas

Por , em 15.12.2025

A ideia de que o beijo é um comportamento exclusivamente humano acaba de levar um choque evolutivo. Segundo uma nova análise comparativa envolvendo primatas, mamíferos de clima frio e até aves oceânicas, esse gesto aparentemente simples nasceu há cerca de 21 milhões de anos, muito antes de qualquer forma de linguagem ou cultura ter se consolidado entre nossos ancestrais. A descoberta sugere que o beijo não é uma excentricidade cultural, mas sim uma herança profunda, compartilhada com grande parte do reino animal.

O estudo foi publicado no periódico Evolution and Human Behaviour. Liderado pela pesquisadora Matilda Brindle, da Universidade de Oxford, o grupo procurou evidências de contatos boca-a-boca em registros de campo, vídeos e descrições etológicas. Eles encontraram padrões surpreendentemente consistentes entre espécies distantes, algo que exigiu uma definição altamente técnica para “beijo”, uma decisão um pouco anticlimática para quem esperaria algo mais poético.

Entre as conclusões mais instigantes, os autores afirmam que o ancestral comum de humanos, chimpanzés e bonobos provavelmente já beijava. E uma consequência inesperada desse achado envolve os Neandertais: análises de DNA mostram que eles compartilhavam com humanos modernos um tipo específico de bactéria oral descrita em Nature. Segundo os cientistas, a única forma de manter esse microrganismo circulando é com troca frequente de saliva algo que remete diretamente a contatos íntimos entre os dois grupos ao longo de centenas de milhares de anos.

Como o beijo entrou na nossa história evolutiva?

A equipe precisou padronizar o comportamento antes de poder compará-lo entre espécies que vivem em contextos ecológicos completamente diferentes. O gesto foi definido como contato oral-oral não agressivo, com movimentação dos lábios ou estruturas equivalentes e sem transferência de alimento. Embora essa definição pareça saída de um manual de laboratório, ela permitiu mapear o beijo desde orangotangos até ursos-polares, que realizam encontros tão úmidos que quase redefinem o conceito.

Essa busca por padrões evolutivos levou os pesquisadores a examinar primatas com atenção especial, já que eles formam o elo mais direto para a linhagem humana. Chimpanzés costumam usar beijos para reduzir tensões após conflitos, enquanto bonobos integram o gesto a rituais de reconciliação. Esses comportamentos sugerem que o beijo pode ter surgido como uma ferramenta social, utilizada para estabilizar relacionamentos dentro de grupos complexos que dependem de cooperação.

O fato de espécies tão distantes exibirem comportamentos semelhantes implica que o gesto pode ter emergido bem antes de qualquer ancestral próximo ao Homo sapiens. Quando sinais sociais persistem por milhões de anos, à interpretação mais simples é que funcionam como uma forma intuitiva de comunicação emocional algo essencial para animais sociais.

O enigma do beijo: para que ele serve?

Apesar de sabermos quando o beijo apareceu, a pergunta mais difícil continua sem resposta: por que esse comportamento existe?
Uma das hipóteses mais antigas sugere que o beijo tenha evoluído a partir de rituais de limpeza entre primatas, uma transição gradual entre arrumação social e contato mais íntimo, que com o tempo teria incorporado significados adicionais.

Outra possibilidade aponta para um papel biológico mais específico: o beijo seria uma maneira eficiente de avaliar a saúde e a compatibilidade fisiológica de um parceiro. A saliva humana carrega pistas químicas associadas ao sistema imunológico ao estresse e até ao estado nutricional. Desse ponto de vista, o beijo poderia funcionar como uma forma rápida de “leitura corporal”, ajudando indivíduos a selecionar parceiros em melhores condições.

Um dado interessante complementa essa linha de raciocínio: diversos estudos mostram que substâncias presentes na saliva podem modular humor e criar sensação de proximidade afetiva. Para espécies sociais, vínculos fortes podem significar mais proteção, mais cooperação e maior chance de sobrevivência do grupo como um todo.

Beijos pelo reino animal: muito além dos humanos

Os cientistas encontraram comportamentos equivalentes em lobos, cães-da-pradaria, alguns felinos selvagens e até albatrosses, aves conhecidas por formar casais duradouros. Para fechar o conjunto de evidências, surgem os ursos-polares, que parecem quase exagerar na demonstração de afeto.
Além disso, certas espécies exibem beijos em contextos inesperados, como rituais de saudação ou reforço de hierarquia social, o que amplia ainda mais a interpretação sobre o significado evolutivo desse gesto.

Essa diversidade sugere que o beijo não está reduzido ao afeto romântico que vemos nas sociedades humanas. Trata-se de uma ferramenta comportamental com funções múltiplas, moldada por pressões sociais e ecológicas distintas.
Ao estudar esse fenômeno, os pesquisadores perceberam que o padrão não é exceção, mas sim parte integral da comunicação de animais complexos que precisam constantemente equilibrar competição, convivência e cooperação.

A investigação também mostra que entender comportamentos universais pode revelar conexões profundas com espécies que raramente associamos ao nosso repertório social. É notável como um simples contato boca-a-boca, presente em vídeos de primatas e aves, acaba unindo linhagens evolutivas que se separaram há dezenas de milhões de anos

É curioso pensar que um gesto tão cotidiano, capaz de desencadear lembranças, paixões e até brigas adolescentes, tenha provavelmente surgido numa floresta antiga, entre dois primatas que talvez só buscassem aplacar um conflito. De alguma forma, o beijo atravessou épocas geladas, predadores gigantes, migrações humanas e extinções, até se transformar no símbolo cultural que conhecemos hoje.

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