O misterioso fungo negro de Chernobyl que pode comer radiação

Por , em 29.11.2025

A imagem clássica de Chernobyl é a de uma terra fantasma, cheia de prédios abandonados, ferrugem e placas amarelas de perigo nuclear. Mas, entre concreto rachado e cabos corroídos, um tipo bem específico de vida prospera silenciosamente: um fungo negro capaz não só de suportar doses absurdas de radiação, como possivelmente usar parte dessa energia para crescer. O que começou como uma curiosidade microscópica em um reator destruído hoje mexe com a imaginação de quem sonha em viver na Lua ou em Marte.

Nos anos que se seguiram ao acidente de 1986, cientistas voltaram à região esperando encontrar um cenário estéril e desolado. Em vez disso se depararam com florestas retomando sua área, animais de grande porte vagando pela zona de exclusão de trinta quilômetros e, em cantos discretos, manchas escuras de bolor colonizando concreto, metal e solo contaminado. Pouca gente imaginava que justamente esse fungo de Chernobyl poderia se tornar candidato a “material de construção” para futuras bases espaciais.

Mais intrigante ainda é a hipótese que vem sendo formulada ao longo de décadas: alguns desses microrganismos não estariam apenas sobrevivendo heroicamente na radiação, mas tirando vantagem dela. Como se a vida, depois de apanhar de um acidente nuclear, tivesse encontrado um jeito criativo de usar o soco como combustível.

Como um acidente nuclear virou laboratório evolutivo

Em 26 de abril de 1986 o reator quatro da usina nuclear de Chernobyl explodiu durante um teste de segurança, liberando uma nuvem de radionuclídeos sobre a Europa. Iodo radioativo e outros elementos se espalharam pelo ar e pelo solo, forçando a evacuação de cidades inteiras e criando a chamada “zona de exclusão”, uma área em que humanos foram proibidos de viver para reduzir riscos de câncer e outros danos de longo prazo.

Os pesquisadores Germán Orizaola e Pablo Burraco analisam como populações de sapos de árvore reagiram ao estresse radioativo na região impedida de Chernobyl. Segundo a hipótese apresentada por eles, o contato prolongado com a radiação pode ter favorecido organismos com pele mais escura, diferenciando-os de espécimes localizados fora do perímetro isolado. Créditos: Germán Orizaola / Pablo Burraco.

Com o tempo, porém, a ausência de gente abriu espaço para algo inesperado. Lobos, javalis e aves voltaram, às vezes em densidades maiores do que antes do desastre. No solo, musgos, líquens e plantas colonizaram clareiras. E, nas encostas do prédio do reator, começou a chamar atenção uma camada escura de bolor que insistia em crescer onde os dosímetros apitavam mais alto do que o recomendável.

Foi nesse cenário que, em 1997, a microbiologista Nelli Zhdanova entrou em áreas internas fortemente contaminadas da usina. Armado de dosímetros e muito sangue frio, o grupo de pesquisa coletou amostras de paredes, tetos e dutos metálicos. Entre os muitos organismos encontrados, um grupo de fungos negros se destacava: não apenas estavam vivos em um ambiente em que humanos só podem ficar por minutos, como pareciam crescer “na direção” de fontes de radiação.

Ao analisar amostras de solo e resíduos ao redor da usina, Zhdanova percebeu que certas espécies fúngicas pareciam literalmente buscar partículas radioativas, comportamento apelidado de radiotropismo. Em paralelo, estudos de fauna local mostraram que sapos mais escuros em lagoas contaminadas – ricos em melanina – tinham vantagem de sobrevivência, sugerindo que o pigmento poderia ser um aliado importante na vida sob bombardeio ionizante.

Quando a melanina vira escudo e bateria biológica

A protagonista química dessa história é a melanina, o pigmento responsável por boa parte da diversidade de tons de pele e cabelo em humanos Em nós, ela funciona como um guarda-sol microscópico: absorve radiação ultravioleta e reduz o dano ao DNA. Em fungos extremos, no entanto, a melanina vai além do papel de escudo passivo e pode estar envolvida em um truque energético bem mais ousado.

O estudo conduzido por Zhdanova e sua equipe e divulgado em 2000 pela Elsevier detalhou a presença de diferentes comunidades de fungos isoladas em setores altamente contaminados da quarta unidade de Chernobyl. Uma das linhagens identificadas foi Cladosporium sphaerospermum; nos testes, as amostras exibiram grande acúmulo de melanina nas paredes celulares, evidenciando o fenômeno de melanização, apontado pelos pesquisadores como parte central da notável tolerância à radiação ionizante. Credit: Elsevier / Zhdanova et al., 2000.

Em laboratório, fungos negros coletados em ambientes radioativos mostram paredes celulares carregadas de melanina. Esse pigmento não é liso nem organizado como uma armadura rígida; sua estrutura desordenada permite absorver diferentes tipos de radiação e dissipar a energia de maneira controlada. Além disso, a melanina atua como antioxidante, neutralizando moléculas reativas que se formam quando tecidos vivos são bombardeados por radiação ionizante.

Em 2007, a pesquisadora Ekaterina Dadachova e sua equipe, no Albert Einstein College of Medicine, testaram uma ideia audaciosa: se a melanina poderia não só proteger, mas ajudar a transformar energia de radiação em ganho metabólico. Eles cultivaram fungos melanizados e não melanizados em laboratório, com e sem exposição a fontes de radiação, incluindo césio radioativo. Os resultados, publicados na revista PLOS One, mostraram que as linhagens ricas em melanina cresciam mais rápido sob radiação do que em condições idênticas, porém sem radiação.

A equipe observou também que a melanina exposta à radiação tinha suas propriedades eletrônicas alteradas, aumentando sua capacidade de participar de reações químicas ligadas ao metabolismo, como a redução de moléculas tipo NADH. É como se o pigmento fosse reconfigurado pela radiação, ficando mais eficiente em “manipular” elétrons dentro da célula. Dadachova cunhou o termo radiossíntese para descrever esse possível processo, em um paralelo com a fotossíntese das plantas.

Nem todos os fungos escuros, porém, entram no clube dos fungos radiotróficos. Levantamentos em Chernobyl indicaram que apenas uma parte das espécies melanizadas mostrava radiotropismo claro. Outros estudos, expondo fungos a fontes de radiação ionizante e ultravioleta, não encontraram diferenças significativas de crescimento entre linhagens com e sem melanina. Tudo indica que, mesmo entre esses micróbios durões, existe uma variedade de estratégias, e o “fungo que come radiação” é mais exceção interessante do que regra geral.

Fungos no espaço e paredes vivas

Se a ideia de um fungo que cresce melhor com radiação já é estranha na Terra, ela fica ainda mais intrigante quando se muda o palco para a órbita da Estação Espacial Internacional. Foi exatamente isso que pesquisadores fizeram ao enviar uma linhagem de Cladosporium sphaerospermum, o mesmo tipo de fungo encontrado no interior do reator de Chernobyl, para crescer em microgravidade sob a constante chuva de radiação cósmica que atravessa a estação.

Nils Averesch e Aaron Berliner demonstraram em cultivo controlado que a linhagem de Cladosporium sphaerospermum coletada em Chornobyl desenvolve camada espessa de melanina quando crescida em placa de ágar de batata e dextrose. O aumento expressivo da melanização reflete uma adaptação biológica típica de microrganismos que evoluíram sob estresse radioativo contínuo. Créditos: Nils Averesch / Aaron Berliner.

Durante cerca de vinte e seis dias, placas com o fungo foram monitoradas no espaço e comparadas com controles em laboratório na Terra. Os dados indicaram que o crescimento em órbita foi, em média, um pouco maior. Os autores, em artigo de 2022 na revista Frontiers in Microbiology, tomaram cuidado para não atribuir tudo à radiação, já que a microgravidade e outros fatores também afetam fungos. Mas um experimento adicional deu uma pista importante: sensores colocados sob uma fina camada do microrganismo registraram uma pequena redução na radiação conforme o bolor se espalhava.

Outro trabalho, disponível em forma de pré-print, mediu por cerca de trinta dias a capacidade desse mesmo fungo de atenuar radiação na Estação Espacial Internacional. Uma “manta” de poucos milímetros de espessura foi capaz de reduzir em torno de 2% a radiação medida sob ela. Parece pouco, mas em engenharia espacial, onde cada centímetro de blindagem pesa, um material leve, autorreplicante e que continua crescendo pode ser um bom negócio.

Esses resultados se encaixam em uma tendência maior da exploração espacial: substituir, sempre que possível, materiais inertes pesados por soluções biológicas. Em vez de levar toneladas de aço, alumínio e concreto para a Lua ou Marte, pesquisadores imaginam estruturas infláveis revestidas por micélio – a rede de filamentos que forma o “corpo” dos fungos – capaz de endurecer e se tornar uma espécie de tijolo vivo. A NASA vem estudando esse conceito em seu projeto de “myco-architecture”, detalhado em comunicados da agência e em atualizações sobre tijolos de micélio para habitats.

Além de oferecer suporte estrutural, essas paredes fúngicas poderiam contribuir com isolamento térmico e, no melhor dos cenários, uma camada extra contra radiação. Como são organismos vivos, ainda teriam a vantagem de crescer, se autorreparar após pequenos danos e, potencialmente, adaptar-se a condições locais. É uma visão bem diferente da imagem clássica de bases espaciais metálicas e frias que costumamos ver em filmes.

O que esse fungo estranho diz sobre a vida

Voltar os olhos para o fungo de Chernobyl muda um pouco a narrativa tradicional sobre desastres nucleares. Em vez de enxergar apenas destruição, começamos a ver também um experimento evolutivo gigantesco, em que organismos de todos os tamanhos testam estratégias para lidar com um estresse ambiental extremo. Plantas, animais e microrganismos mostraram uma resiliência que, embora não apague o sofrimento humano, revela uma capacidade notável de ajuste da vida.

Os chamados fungos radiotróficos entram nesse contexto como exemplos de como a biologia consegue transformar forças hostis em oportunidades. Tomar radiação ionizante, algo que tende a quebrar moléculas e causar mutações, e transformá-la em grãos de vantagem energética é um truque que nenhum engenheiro teria colocado de primeira em um manual de projeto. Mas ali, entre cabos corroídos e concreto rachado, ele parece estar acontecendo em escala microscópica.

É difícil não achar poético que um bolor negro, típico símbolo visual de mofo e decadência, esteja sendo estudado como possível aliado em missões de longa duração no espaço. Enquanto a humanidade tenta limitar acidentes nucleares e controlar seus resíduos, parte da biosfera já está ocupada em testar soluções praticas para viver em meio a esse problema. E, de quebra, nos oferece ideias de como proteger astronautas da radiação em futuros lares lunares e marcianos.

Ao olhar para o fungo de Chernobyl, dá para enxergar um recado curioso: a vida raramente se contenta em ser vítima. Sempre que surge uma nova fonte de energia – seja luz, compostos químicos profundos na crosta ou radiação que nos causa medo – algum organismo tenta explorar essa brecha. Se conseguirmos entender e aproveitar esse tipo de estratégia, talvez as primeiras “casas” realmente sustentáveis fora da Terra sejam, ironicamente, feitas de algo que hoje a gente ainda chama de mofo.

Via BBC

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