Essa estratégia de emagrecimento é 5 vezes mais eficaz do que Ozempic, aponta estudo

Por , em 17.12.2025

Os medicamentos da classe dos GLP-1, como a semaglutida (Ozempic) , vêm sendo celebrados como um marco no tratamento da obesidade. Mas uma nova análise da New York University (NYU) indica que, no longo prazo, as cirurgias bariátricas ainda proporcionam resultados muito superiores — e a diferença é de proporções consideráveis.

Quando o bisturi vence a caneta

O estudo comparou pacientes que utilizaram semaglutida ou tirzepatida — medicamentos que mimetizam o hormônio intestinal GLP-1 — com pessoas que passaram por gastrectomia vertical ou bypass gástrico. Ao cruzar dados de idade, índice de massa corporal e glicemia, os pesquisadores ajustaram os grupos para que fossem comparáveis. A conclusão surpreende pelo contraste: enquanto a cirurgia levou a uma perda média de 25,7% do peso corporal total em dois anos, o grupo medicamentoso apresentou uma redução de 5,3%.

Esses números são expressivos, mas não contam toda a história. Parte da diferença se explica pelo abandono dos medicamentos: muitos pacientes interrompem o uso dos GLP-1 antes de completar um ano. A cirurgia, por outro lado, é uma intervenção única e permanente, algo que o paciente não pode simplesmente “deixar para depois”.

Ainda assim, a NYU ressalta que o impacto hormonal das cirurgias — como a modificação nos sinais de saciedade e nos níveis de glicose — vai além da simples restrição alimentar. Por isso, a eficácia tende a ser mais duradoura.

O efeito “mundo real”

Os resultados, apresentados no congresso anual da American Society for Metabolic and Bariatric Surgery (ASMBS), mostram uma diferença curiosa entre os ensaios clínicos e o cotidiano dos pacientes. Avery Brown, residente de cirurgia na NYU, explicou que, embora estudos controlados indiquem perdas de 15% a 21% com GLP-1, o “mundo real” costuma ser menos generoso.

Segundo Brown, até 70% dos pacientes interrompem o tratamento em um ano, o que derruba a média global. E, sem continuidade, o efeito do remédio tende a regredir. Por isso, ele defende que alguns pacientes considerem intervenções metabólicas cirúrgicas como opção de longo prazo.

Essa diferença entre teoria e prática ecoa em outras pesquisas, como as publicadas na JAMA Network Open, que também relatam taxas de adesão menores. Em contrapartida, o número de prescrições de GLP-1 dobrou de 2022 para 2023, enquanto as cirurgias bariátricas diminuíram.

O peso da escolha certa

O financiamento do estudo pela ASMBS levanta a necessidade de cautela: é natural que a entidade queira reforçar o valor dos procedimentos cirúrgicos. Ainda assim, os dados são sólidos e o ganho metabólico dos pacientes operados não pode ser ignorado.

A cirurgia, porém, está longe de ser um atalho simples. Mesmo com baixos índices de complicações, trata-se de um processo invasivo que requer disciplina alimentar, suplementação e acompanhamento médico constante. O mito da “solução mágica” já foi desmentido várias vezes .

Os remédios, por sua vez, não são apenas uma moda passageira. Além da perda de peso, a semaglutida foi aprovada inicialmente para tratar o diabetes tipo 2 e demonstrou potencial em reduzir riscos cardiovasculares e até certos tipos de câncer. No estudo, os pacientes operados apresentaram melhor controle glicêmico, mas isso não elimina a importância das terapias farmacológicas como alternativas menos invasivas.

Hormônios, cérebros e expectativas

Os agonistas de GLP-1 atuam no eixo intestino-cérebro, diminuindo a fome e retardando o esvaziamento gástrico. Essa ação sobre o sistema nervoso central explica a sensação de “mente mais silenciosa em relação à comida”, já observada em experimentos recentes .

O desafio é manter o tratamento o tempo necessário para consolidar os resultados. O custo elevado e os efeitos adversos gastrointestinais são fatores que empurram muitos pacientes para a desistência. Por isso, a personalização das terapias será cada vez mais importante — combinando medicamentos, acompanhamento nutricional e intervenções de estilo de vida para resultados sustentáveis.

O que vem pela frente

O cirurgião Karan Chhabra, da NYU Grossman School of Medicine, resumiu os próximos passos da pesquisa: identificar quais pacientes respondem melhor a cada estratégia e entender como os custos e o acompanhamento influenciam o sucesso a longo prazo. O estudo completo foi apresentado na revista Surgery for Obesity and Related Diseases.

No fim das contas, a ciência sobre obesidade em Homo sapiens ainda está evoluindo — e a solução ideal talvez envolva uma mistura de caminhos. Seja bisturi, seringa ou estilo de vida, o essencial é encarar o excesso de peso como uma condição metabólica complexa, e não como uma simples falha de vontade.

Como observação pessoal, o que esse estudo mostra é menos uma disputa entre medicamentos e cirurgias e mais uma lição sobre expectativa: perder peso é fácil quando o corpo coopera, difícil quando ele resiste — e impossível quando a mente desiste antes do tratamento.

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