Desmistificando o cérebro trans: o que a ciência revela sobre as raízes biológicas da identidade de gênero

Por , em 29.06.2026

Poucos temas misturam tanta curiosidade científica, disputa pública e confusão terminológica quanto a ideia de um “cérebro trans”. A expressão chama atenção, mas também pode enganar: ela sugere que haveria uma resposta simples escondida dentro da cabeça, esperando apenas uma ressonância magnética para ser revelada.

Só que o cérebro humano raramente coopera com perguntas simples. Quando cientistas investigam identidade de gênero, eles não procuram uma etiqueta anatômica única, mas pistas: diferenças sutis em regiões, respostas, redes e padrões de desenvolvimento. Algumas dessas pistas são antigas, outras vêm de tecnologias recentes.

A pergunta central, portanto, não é se existe um exame capaz de “provar” quem alguém é. A questão mais interessante é outra: até que ponto a neurociência consegue mostrar que a identidade de gênero também tem raízes biológicas? Para responder isso, é preciso olhar para estudos com cérebros pós-morte, ressonância magnética, algoritmos e revisões científicas.

Diferença entre pessoa cis e pessoa trans

Antes de seguir, vale esclarecer dois termos. Uma pessoa cis é aquela cuja identidade de gênero corresponde ao sexo atribuído ao nascimento; por exemplo, alguém registrado como mulher ao nascer e que se reconhece como mulher. Uma pessoa trans é aquela cuja identidade de gênero não corresponde, total ou parcialmente, a esse sexo atribuído. Isso inclui homens trans, mulheres trans e também pessoas não binárias. A palavra “transição” pode envolver mudanças sociais, jurídicas, hormonais ou cirúrgicas, mas não existe uma única forma obrigatória de vivê-la.

O computador também ficou confuso

Um dos estudos mais didáticos para entender essa cautela foi publicado em 2020 no periódico Neuropsychopharmacology. Claas Flint e colegas treinaram um algoritmo com 1.753 exames de ressonância magnética de pessoas cisgênero, usando medidas de massa cinzenta para tentar classificar sexo biológico. Em amostras cis, o sistema tinha desempenho alto; quando aplicado a mulheres trans, a taxa de classificação masculina caiu para 56%.

Esse número é curioso porque não significa que o algoritmo passou a classificar automaticamente mulheres trans como mulheres cis. O resultado foi mais sutil: os cérebros das mulheres trans analisadas não se encaixaram de maneira simples nem no padrão masculino cis nem no padrão feminino cis. O computador, acostumado a gavetas bem etiquetadas, encontrou uma gaveta sem etiqueta.

O próprio estudo observou diferenças em regiões como a ínsula e o putâmen, áreas envolvidas em percepção corporal, integração de sensações e circuitos motores. Isso importa porque parte da experiência trans envolve a relação entre corpo percebido, corpo vivido e identidade. Mas os autores também foram cautelosos: a amostra de mulheres trans era pequena, e parte delas já havia passado por tratamento hormonal.

A pequena região que virou protagonista

Muito antes dos algoritmos, pesquisadores analisaram cérebros pós-morte. Em 1995, Jiang-Ning Zhou e colegas publicaram na Nature um estudo sobre o núcleo do leito da estria terminal, mais especificamente sua subdivisão central, chamada BSTc. Essa região participa de circuitos ligados a comportamento sexual, respostas hormonais e processamento emocional.

O achado foi marcante: nas mulheres trans avaliadas, o volume do BSTc era mais parecido com o observado em mulheres cis do que em homens cis. Os autores também argumentaram que esse padrão não parecia ser explicado por orientação sexual nem pelo uso de hormônios na vida adulta. Para um pedacinho tão pequeno de tecido cerebral, o BSTc conseguiu causar bastante barulho.

Em 2000, Frank Kruijver e colegas voltaram ao mesmo território microscópico, mas com outra pergunta. Em vez de olhar apenas para volume, eles contaram neurônios que expressavam somatostatina no BSTc. No The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, relataram que mulheres trans tinham número de neurônios nessa região dentro da faixa feminina, enquanto o único homem trans estudado ficou na faixa masculina.

Esses estudos são importantes, mas não devem ser tratados como sentença final. Eram amostras pequenas e pós-morte, um tipo de pesquisa difícil de repetir em grande escala. Ainda assim, eles ajudaram a deslocar a discussão: identidade de gênero não parecia ser apenas uma construção social solta no ar, mas algo possivelmente ligado ao desenvolvimento do sistema nervoso e de hormônios em fases críticas.

Cheiros, corpo e o mapa interno

Outra linha de pesquisa saiu da anatomia estática e foi observar o cérebro em funcionamento. Em 2008, Hans Berglund e colegas publicaram no Cerebral Cortex um estudo com mulheres trans expostas a esteroides odoríferos, incluindo a androstadienona.

Os estudos usam androstadienona porque ela é um esteroide odorífero encontrado, por exemplo, no suor masculino, e já foi associado em pesquisas a respostas diferentes no hipotálamo de homens e mulheres cis.

No estudo a resposta do hipotálamo se afastou do padrão típico masculino e ocupou uma posição intermediária, com características predominantemente mais próximas do padrão feminino.

Em 2014, Sarah Burke e colegas examinaram crianças e adolescentes com disforia de gênero em estudo publicado na Frontiers in Endocrinology. Ao avaliar a resposta hipotalâmica à androstadienona, os pesquisadores encontraram, em adolescentes trans, padrões mais próximos do gênero vivido do que do sexo atribuído ao nascimento. Nos grupos pré-púberes, os resultados foram mais mistos.

Isso sugere que puberdade, desenvolvimento cerebral e identidade de gênero podem se cruzar de modo complexo. O hipotálamo é pequeno, mas não é periférico: participa de regulação hormonal, temperatura, fome, sono e respostas autonômicas. Ele não “decide” quem a pessoa é, mas pode fazer parte de circuitos que ajudam a explicar por que a identidade de gênero não parece ser uma escolha superficial.

Há também pesquisas sobre percepção do próprio corpo. D. S. Adnan Majid e colegas publicaram no Cerebral Cortex um estudo em que participantes trans e cis avaliavam imagens de seus corpos modificadas em direção a traços masculinos ou femininos. Os sistemas neurais de processamento do corpo próprio se alinharam mais à identidade de gênero do que ao sexo atribuído ao nascimento.

O que as revisões deixam claro

Quando vários estudos são analisados juntos, a conclusão fica mais sóbria. Em 2021, Alberto Frigerio e colegas publicaram uma revisão sistemática no Archives of Sexual Behavior. A equipe avaliou 39 estudos sobre identidade de gênero e 24 sobre orientação sexual. O resumo é direto: algumas características neuroanatômicas, neurofisiológicas e neurometabólicas em pessoas trans se parecem com as do gênero vivido, mas a maioria das medidas mais amplas ainda se aproxima do sexo atribuído ao nascimento.

Essa revisão também reforçou os limites do campo. Muitos estudos têm amostras pequenas, métodos diferentes e grupos difíceis de comparar. Alguns avaliam pessoas antes da terapia hormonal; outros depois; alguns misturam idades, trajetórias clínicas e orientações sexuais. Isso não torna os achados inúteis, mas impede frases triunfais do tipo “a ciência provou tudo”.

Em 2025, Linda Bonnekoh e colegas publicaram em Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health uma revisão de escopo sobre neuroimagem em jovens trans e de gênero diverso com menos de 22 anos. A revisão incluiu 20 estudos e observou que a área ainda depende muito de desenhos transversais, com poucos dados longitudinais. Também destacou a escassez de estudos sobre adolescentes não binários.

A conclusão ética dessa revisão merece atenção: neuroimagem não deve reduzir diversidade de gênero a neurobiologia, nem virar ferramenta para validar ou invalidar identidades. Um exame cerebral não é um juiz com jaleco. No máximo, ele ajuda a entender mecanismos envolvidos na experiência humana.

Nem diagnóstico, nem fantasia

A melhor leitura dos estudos é intermediária. Não há base para dizer que pessoas trans simplesmente “têm o cérebro do sexo oposto” como se o cérebro inteiro trocasse de categoria. Também não há base para tratar identidade trans como invenção, capricho ou moda. Os dados apontam para componentes biológicos reais, mas espalhados em vários níveis.

O cérebro muda com desenvolvimento, hormônios, experiência, aprendizagem e contexto social. Por isso, separar o que veio antes da transição, o que mudou depois do tratamento hormonal e o que deriva da vivência cotidiana ainda é um desafio técnico enorme.

Outro cuidado: “sexo cerebral” é uma expressão sedutora, mas perigosa. O cérebro de Homo sapiens não vem com uma placa dizendo “modelo masculino” ou “modelo feminino”. Existem diferenças médias, sim, mas elas convivem com sobreposição, variação individual e circuitos que não obedecem a etiquetas simples. Quem procura uma resposta binária no cérebro talvez esteja fazendo a pergunta errada.

Portanto, a resposta curta é: sim, existem estudos neurológicos sérios mostrando que aspectos específicos do cérebro de pessoas trans podem se alinhar ao gênero vivido. A resposta completa é: esses achados formam um mosaico, não um certificado anatômico. A ciência ajuda a desmontar caricaturas, mas não substitui a experiência subjetiva de cada pessoa. Talvez essa seja justamente a parte mais madura do debate: reconhecer que a biologia é real, mas não precisa ser simplista para ser levada a sério.

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