Esponja carnívora “bola da morte” e imúmeras outras espécies são descobertas no Oceano Antártico

Por , em 27.11.2025
O ROV SuBastian encontrou, a 3 601 metros abaixo da superfície, uma inédita esponja carnívora esférica — a famosa “death ball” — no local conhecido como Trench North, a leste da Ilha Montagu. O achado faz parte da missão científica conduzida pela Nippon Foundation–Nekton Ocean Census em parceria com o Schmidt Ocean Institute.

O mar gelado do Oceano Antártico, uma das regiões mais isoladas e misteriosas do planeta, acaba de revelar uma coleção surpreendente de criaturas inéditas. Cientistas encontraram 30 novas espécies durante a expedição internacional Nippon Foundation–Nekton Ocean Census, que explorou as profundezas ao redor das Ilhas South Sandwich. Para isso, utilizaram o navio de pesquisa R/V Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, equipado com tecnologia de ponta. Embora pareça um número modesto, os especialistas lembram que menos de 30 % das amostras foram analisadas até agora — o que indica que há muito mais seres desconhecidos esperando para serem descobertos.

A esponja “bola da morte” e outros horrores encantadores

Entre as novas criaturas, a mais comentada é a esponja carnívora Chondrocladia sp. nov., apelidada de “death ball”. Essa esfera coberta por microganchos captura presas que se aproximam — um comportamento bem diferente do modo “zen” das esponjas comuns, que apenas filtram água. O exemplar foi encontrado a cerca de 3 600 metros de profundidade, próximo à Ilha Montagu. Alguns pesquisadores chegaram a compará-la a um pompom demoníaco — a ironia de algo bonito e mortal coexistindo no fundo do mar.

Durante uma descida até 2 859 metros no local South Trench, a noroeste da Ilha Zavodovski, o ROV SuBastian identificou um fascinante verme de escamas cintilantes — uma nova espécie que parece refletir luz como metal líquido. A descoberta foi liderada por Jialing Cai, integrante da missão conjunta entre a Nippon Foundation–Nekton Ocean Census e o Schmidt Ocean Institute.

Outros achados incluem o verme de escamas iridescentes Eulagisca sp. nov., que parece brilhar como um enfeite perdido no abismo. Três novas espécies de estrelas-do-mar — das famílias Brisingidae, Benthopectinidae e Paxillosidae — também foram registradas, além de crustáceos inéditos, como isópodes e anfípodas, e material que pode indicar o surgimento de uma nova família inteira desses pequenos invertebrados. Gastrópodes e bivalves raros, adaptados a ambientes vulcânicos e hidrotermais, completam o catálogo inicial dessa fauna improvável.

Vermes zumbis e uma lula colosal juvenil

A expedição ainda observou o peculiar verme “zumbi” Osedax, que não possui boca nem intestino. Em vez disso, vive graças a bactérias simbióticas que dissolvem gorduras presentes nos ossos de grandes animais marinhos, como baleias. Embora já conhecido pela ciência, esse organismo raramente é visto vivo devido à profundidade extrema em que habita. No mesmo conjunto de mergulhos, os cientistas registraram o primeiro flagrante confirmado de uma lula colosal juvenil — e foi impossível esconder o entusiasmo a bordo diante dessa raridade.

Tecnologia que enxerga onde o homem não chega

Para capturar essas imagens e exemplares, a equipe usou o veículo subaquático controlado à distância ROV SuBastian, aliado a mapeamento 3D do fundo oceânico e câmeras de resolução altíssima. Essa combinação permitiu explorar regiões jamais vistas, como caldeiras vulcânicas e planícies abissais. O uso de sequenciamento genético rápido ajudou a identificar espécies em tempo recorde, reduzindo um processo que antes levava anos. Essa façanha mostra como a tecnologia está transformando a maneira de observar o planeta, mesmo nos lugares mais inacessíveis

Durante uma exploração no local Ridge North, o ROV SuBastian encontrou a 3 533 metros de profundidade um inédito isópode — um crustáceo de aparência quase alienígena que vive nas zonas mais escuras do oceano. O achado foi registrado por Jialing Cai, integrante da equipe científica da Nippon Foundation–Nekton Ocean Census em parceria com o Schmidt Ocean Institute.

A biodiversidade marinha profunda é uma peça-chave para entender a evolução e a resiliência dos ecossistemas diante das mudanças climáticas. Os oceanos polares, em especial, funcionam como sensores naturais das transformações ambientais globais. Conhecer novas espécies ajuda a desvendar adaptações biológicas que podem inspirar avanços em medicina, biotecnologia e até na engenharia de materiais. É curioso como o fundo do mar, invisível para a maioria de nós, pode conter respostas para problemas aqui da superfície.

A geografia secreta das Ilhas South Sandwich

A região explorada inclui caldeiras vulcânicas, vales abissais e encostas submersas ao redor das Ilhas Montagu e Saunders. Em um dos mergulhos, os cientistas aproveitaram uma fenda aberta no gelo para investigar solos marinhos que ficaram isolados por séculos. As imagens revelaram paisagens quase alienígenas: plumas de vapor, formações minerais esculturais e criaturas translúcidas pairando no escuro. Cerca de 2 000 exemplares foram coletados, cobrindo 14 grupos animais diferentes, o que reforça como o oceano Antártico ainda é um enorme livro não lido.

Humor e maravilha nas trevas

Pensar que ainda tropeçamos em seres bizarros sob o gelo é um lembrete de que a Terra continua sendo um planeta de descobertas. A “esponja da morte”, os vermes brilhantes e as lulas colossais mostram que a vida é capaz de florescer mesmo onde a luz jamais chega. E há algo de cômico nisso: enquanto tentamos colonizar Marte, o verdadeiro “alienígena” talvez esteja logo abaixo das ondas.

Explorar o fundo do mar é, no fundo, explorar o nosso próprio espanto diante do desconhecido. O planeta ainda guarda segredos que nenhuma IA, telescópio ou satélite consegue prever. E isso é reconfortante: significa que a curiosidade humana continua sendo o motor da aventura científica — mesmo quando o caminho nos leva direto para o escuro abissal.

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