Lado esquerdo x lado direito do cérebro: mito ou realidade?

Por , em 30.09.2014

A base de alguns testes de avaliação de personalidade, livros de auto-ajuda e dinâmicas de grupo pode ser uma grande bobagem.

Cientistas estão desacreditando a teoria de que há diferenças entre as pessoas de acordo com o desenvolvimento dos lados do cérebro. A cultura popular nos fez crer que as pessoas lógicas, metodológicas e analíticas possuem o lado esquerdo do cérebro dominante, enquanto os criativos e artísticos têm o lado direito mais desenvolvido. O problema é que a ciência nunca deu suporte para essa noção.

Agora, cientistas da Universidade de Utah (EUA) estão desmistificando de vez essa ideia com uma análise de mais de 1.000 cérebros. Eles não encontraram nenhuma evidência de que as pessoas preferencialmente utilizam a parte esquerda ou a direita do cérebro. Todos os participantes do estudo – e, sem dúvida, os cientistas – estavam usando todo o seu cérebro da mesma forma, durante todo o curso do experimento.

A preferência por usar uma região do cérebro mais do que outras para determinadas funções, o que os cientistas chamam de lateralização, é de fato real, de acordo com o principal autor do estudo, Jeff Anderson, diretor do Serviço de Mapeamento Neurocirúrgico da Universidade de Utah.

Por exemplo, o ato do discurso emana do lado esquerdo do cérebro para a maioria das pessoas destras. Isso não significa, porém, que grandes escritores ou pessoas que falam bem em público usam seu lado esquerdo do cérebro mais do que o direito, ou que um dos lados do cérebro é mais rico em neurônios do que o outro.

Há um equívoco em pensar que tudo a ver com ser analítico, por exemplo, está confinado a um lado do cérebro, e tudo a ver com ser criativo está confinado para o lado oposto. Na verdade, são as conexões entre todas as regiões do cérebro que permitem que os seres humanos sejam tanto criativos quanto tenham um pensamento analítico.

“Não é o caso do hemisfério esquerdo estar associado com a lógica ou raciocínio mais do que o direito”, explica Anderson. “Além disso, a criatividade não é mais processada no hemisfério direito do que o esquerdo”.

A equipe de Anderson analisou imagens cerebrais de participantes com idades entre 7 e 29 anos, enquanto eles estavam descansando. Eles olharam para a atividade em 7.000 regiões do cérebro, e examinaram conexões neurais dentro e entre essas regiões. Embora eles tenham visto bolsões de tráfego neural pesado em algumas regiões-chave, em média, ambos os lados do cérebro eram essencialmente iguais em suas redes neurais e conectividade.

“Nós simplesmente não conseguimos ver padrões onde toda a rede do cérebro esquerdo estivesse mais ligada, ou toda a rede do cérebro direito mais ligada em algumas pessoas”, conta Jared Nielsen, estudante de pós-graduação e autor do novo estudo.

O mito das pessoas terem o lado esquerdo ou direito do cérebro mais desenvolvido pode ter surgido a partir da pesquisa do vencedor do Prêmio Nobel Roger Sperry, feita na década de 1960. Sperry estudou pacientes com epilepsia, que foram tratados com um procedimento cirúrgico que cortava o cérebro ao longo de uma estrutura chamada corpo caloso. O corpo caloso liga os dois hemisférios do cérebro, portanto os lados esquerdo e direito do cérebro desses pacientes não podiam mais se comunicar.

Sperry e outros pesquisadores, por meio de uma série de estudos de inteligência, determinaram que partes, ou lados, do cérebro estavam envolvidos em linguagem, matemática, desenho e outras funções nestes pacientes. Mas, então, entusiastas de psicologia de nível popular aproveitaram esta ideia, criando a noção de que a personalidade e outros atributos humanos são determinados através do domínio de um dos lados do cérebro sobre o outro.

“A comunidade da neurociência nunca comprou essa noção e agora temos evidências de mais de 1.000 imagens do cérebro mostrando absolutamente nenhum sinal de dominância na esquerda ou na direita”, desmente Anderson. A pesquisa pretendia, originalmente, entender melhor a lateralização do cérebro para tratar doenças como a síndrome de Down, o autismo ou a esquizofrenia, onde os hemisférios esquerdo e direito têm funções atípicas.

Então, você deve jogar no lixo o seu aplicativo que tenta determinar se você pensa mais com o lado esquerdo ou o lado direito? Ambos os lados de qualquer cérebro, inclusive o dos neurocientistas, dizem que sim. [Live Science]

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