O Círculo Ártico está queimando

Por , em 29.07.2019

Não, não é impressão sua. O inverno de 2019 está sendo atipicamente quente – e no hemisfério Norte o verão está quebrando recordes de temperatura. Segundo o programa de monitoramento climático Copernicus Climate Change Service (abreviado como C3S), a onda de calor que está varrendo o planeta já fez com que o último mês de junho fosse o mais quente já registrado. Enquanto isso, o círculo Ártico está sofrendo com a pior temporada de incêndios florestais já vista.

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De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência da Organização das Nações Unidas (ONU) que acompanha o clima e o tempo, desde o início de junho, mais de uma centena de incêndios florestais aconteceram nesse pedaço do globo. Apenas no mês passado, esses incêndios jogaram na atmosfera 50 megatoneladas de CO2 – o que é igual às emissões anuais da Suécia. O órgão classificou os eventos como “sem precedentes”.

Do Alasca à Sibéria, enormes faixas de chamas e fumaça estão envolvendo o hemisfério Norte do planeta. Ainda que incêndios florestais no ártico e na região boreal não sejam uma anomalia, eles têm ficado muito piores. Em 2013, um grupo de cientistas publicou um estudo demonstrando que as queimadas que vêm sendo observadas em florestas boreais ultrapassaram os limites estabelecidos nos último 10 mil anos.

De acordo com o jornal britânico “The Guardian”, na Groenlândia, o prolongado incêndio em Sisimiut, detectado pela primeira vez no dia 10 julho, veio em um momento de calor e seca incomuns, em que o derretimento da vasta camada de gelo no país começou um mês antes do normal. No Alasca, houve relatos de pelo menos 400 incêndios florestais.

Imagem de satélite mostra incêndios no Alasca e no Canadá. Crédito: Pierre Markuse

Prejuízo para a atmosfera

O Ártico também é, até o momento, a região mais drasticamente afetada pela crise climática, registrando um aquecimento duas vezes mais rápido do que o do resto da Terra. À CNN, a cientista Claudia Volosciuk, da OMM, declarou que, na Sibéria, a temperatura média de junho deste ano foi quase 5,5 °C mais quente do que a média de longo prazo entre 1981 e 2010.

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Em entrevista ao USA Today, o geógrafo ambiental da London School of Economics Thomas Smith afirmou que a incêndios desta magnitude nunca foram registrados nos 16 anos de registro por satélite. Além das florestas, alguns dos incêndios aparentam estar queimando a turfa que cobre as regiões mais ao norte do planeta. Smith explica que essa situação é preocupante porque, enquanto queimadas em florestas tipicamente acabam em algumas horas, esse tipo de solo pode queimar por dias e até mesmo meses. E, como queimam depósitos de carbono, estes eventos podem acelerar ainda mais o processo de aquecimento, levando a mais incêndios.

“Estes são alguns dos maiores incêndios florestais do planeta, com alguns parecendo ter mais de 100 mil hectares [de extensão]”, contou o pesquisador. “A quantidade de [dióxido de carbono] emitido pelos incêndios do Círculo Ártico em junho de 2019 é maior do que a soma do CO2 liberado por incêndios no Círculo Ártico de 2010 até 2018”.

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Na Rússia, onze de suas 49 regiões têm registros de incêndios florestais, sendo que os maiores – que teriam sido causados por raios – aconteceram nas regiões de Irkutsk, Krasnoyarsk e Buryatia. Segundo o Earth Observatory, da Agência Espacial Americana (Nasa), em 22 de julho, as chamas já tinham queimado 89.076 hectares, 38.930 hectares e 10.600 hectares nessas regiões, respectivamente. E mesmo locais em que não há relatos de incêndios nas proximidades, como em Novosibirsk, a maior cidade siberiana, os ventos carregaram fumaça suficiente para causar uma queda na qualidade do ar.

Em seu perfil no Twitter, o cientista atmosférico Santiago Gassó mostrou que os incêndios siberianos criaram uma cortina de fumaça que se espalha por 4,5 milhões de quilômetros quadrados na região central do norte asiático. “Isso é chocante”, escreveu. [Science Alert, The Guardian, USA Today, Nasa, CNN]

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