Malas antigas revelam histórias fascinantes sobre pacientes psiquiátricos

Por , em 16.05.2013

Encontrar pertences abandonados antigos pode ser uma experiência bastante comovente. Se há uma história triste ligada aos objetos, geralmente sentimos melancolia. Ainda assim, ao mesmo tempo, ficamos fascinados por essas histórias e pelas vidas dos outros, especialmente se suas experiências forem muito diferentes da nossa.

É por isso que essas malas, que antes pertenciam a pacientes do Centro Psiquiátrico Willard, em Nova York (EUA), são tão cativantes.

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Em 1995, trabalhadores encontraram as malas no sótão de um edifício abandonado quando o hospital fechou. As malas tinham sido colocadas lá para armazenamento entre 1910 e 1960, cada uma retirada de um paciente recém-chegado. Como as pessoas muitas vezes eram enviadas para o hospital para ficar lá o resto de suas vidas (a estadia média era de mais de 30 anos), além de deixarem família para trás em países estrangeiros, os objetos nunca foram reclamados ou recuperados.

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Cada uma das malas é como uma pequena cápsula do tempo, oferecendo um vislumbre da vida dessas pessoas: uma visão preciosa de quem seus donos eram, de onde vieram, do que os interessava e até mesmo a quem amavam. “Foi-me dada a incrível oportunidade de fotografar essas malas e seus conteúdos”, disse o fotógrafo Jon Crispin. “Para mim, elas abrem uma pequena janela para a vida de algumas das pessoas que viviam na instalação”.

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As malas abandonadas foram levadas ao Museu Estadual de Nova York (New York State Museum, EUA) e entraram para sua coleção permanente. Lá, foram cuidadosamente catalogadas, com cada item contido nas malas sendo embrulhado para proteção. Crispin os desembrulhou para fazer estas fotografias.

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A mala acima pertencia a uma mulher chamada “Freda B” (não é possível compartilhar o nome completo dos pacientes, pois eles são protegidos por leis de privacidade). Apesar de não sabermos o sobrenome de Freda, há coisas que podemos saber sobre ela. Olhando para os seus pertences, podemos supor que ela gostava de manter as coisas em ordem. A mala inclui um conjunto de escovas para cuidados pessoais, uma pequena vassoura, um sapato de couro creme e um despertador. Também contém um livro, que pode sugerir que ela era uma professora ou pelo menos interessada no campo de treinamento de sentidos e jogos.

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A maioria dos pacientes que acabaram no centro psiquiátrico em Willard foram enviados para lá contra a sua vontade. Na década de 1950, não era difícil mandar alguém para uma instituição mental. Tudo o que era necessário era um atestado médico. Muitos pacientes eram simplesmente “rejeitados” pela sociedade.

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A mala acima pertencia a Frank, um homem que teve uma reação exagerada ao ser servido em um prato danificado em um restaurante no Brooklyn (Nova York, EUA), em junho de 1945. Sentindo-se desrespeitado, Frank “simplesmente enlouqueceu”, segundo Crispin. Ele não faz mal a ninguém, mas chutou algumas latas de lixo e fez muito barulho do lado de fora do restaurante. Foi internado em dois outros hospitais antes de acabar em Willard em 1946, para uma estadia de três anos. As repercussões do incidente no restaurante nunca abandonaram Frank, e ele acabou morrendo em um hospital para veteranos em Pittsburgh (EUA) em 1984.

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Na imagem acima, vemos uma coleção de fotografias pessoais que Frank mantinha na sua mala. Ele se correspondia com sua família em West Virginia e Ohio, inclusive com seu pai. No entanto, de acordo com registros médicos, Frank não tinha nenhum contato com a família, o que mostra como a história oficial pode errar. “Frank parece muito elegante, e há todas essas belas mulheres dos anos 30 e 40 em suas fotos”, conta Crispin. “Isso realmente me afetou”. Crispin também acrescentou que descobriu que Frank era gay.

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Aqui vemos mais uma fotografia do conteúdo da mala de Frank. Entre seus pertences estavam seu uniforme do Exército, cartas de sua família, e um sapato de bebê.

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Um homem chamado Dmytro foi outro ex-paciente com uma história incrível. Ele era filho de um fazendeiro pobre na Ucrânia e foi forçado a trabalhar como escravo pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mais tarde, foi preso pelos soviéticos na Hungria. Dmytro conseguiu escapar e acabou em um acampamento americano em Viena. Lá, ele conheceu sua esposa Sophia (foto acima). Em 1949, o casal mudou-se para os EUA, e Sophia ficou grávida. A vida era boa para Dmytro, mas logo veio a tragédia.

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Infelizmente, Sophia perdeu seu bebê e morreu, e a vida do imigrante ucraniano entrou em uma espiral descendente. Em luto, Dmytro tinha ilusões de que estava destinado a se casar com a filha do então presidente americano Truman, Margaret. Em 1952, Dmytro tentou fazer uma visita não autorizada à Margaret na Casa Branca, e o Serviço Secreto dos EUA o manteve sob custódia. Dmytro acabou em Willard em 1953, após breves estadias em dois outros hospitais psiquiátricos.

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Durante a sua estada em Willard, Dmytro foi submetido a 20 sessões de terapia de eletrochoque, que – talvez não surpreendentemente – não o melhorou. Na década de 1960, ele descobriu que possuía um dom para expressar-se com pintura. Sendo assim, usou suas telas para contar a sua história de vida e fez uma pintura por dia por vários anos. Sua arte foi exibida em uma exposição em Washington (EUA), mas ele deu a maior parte de seu trabalho para membros do hospital. Em 1977, Dmytro foi finalmente dispensado do centro psiquiátrico. Em 2000, ele faleceu em um lar de idosos com 84 anos.

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A mala acima pertencia a Anna e, de acordo com Crispin, contém um registro meticuloso das roupas dentro dela. Claramente, esses itens eram os favoritos da paciente.

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Ocasionalmente, as razões pelas quais as pessoas eram enviadas a asilos eram ligadas a lutos que elas tiveram que sofrer, ou devido a terem crenças religiosas estranhas. Outras vezes, elas podem ter sofrido com problemas de saúde ou traumas. É provavelmente justo dizer que pelo menos alguns desses indivíduos não deveriam ter recebido o tratamento que receberam. Uma vez que eram admitidos em Willard, as pessoas eram classificadas com base em sua capacidade de trabalhar. As mulheres geralmente eram atribuídas para cozinhar, costurar e limpar, enquanto os homens recebiam tarefas como jardinagem, sapataria e carpintaria. Essa prática foi proibida em 1973, mas até lá os próprios pacientes mantinham a instituição funcionando, com sua força de trabalho não remunerada.

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Aqueles que eram considerados perigosos para si ou outros eram presos, e suas atividades eram rigorosamente controladas. Os tratamentos oferecidos em Willard, pelo menos até meados dos anos 1950, eram bastante desagradáveis. Um deles era de hidroterapia, no qual os pacientes eram forçados a ficar em banhos de água fria por longos períodos de tempo. Também havia a eletroconvulsoterapia, como a que Dmytro foi submetido.

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Não foram apenas malas que ficaram no sótão do hospital. Este recipiente de armazenamento era de propriedade de uma mulher chamada Eleanor, que provavelmente gostava de costurar. Talvez ela tenha trabalhado como costureira no centro. Muitos desses artefatos pessoais permaneceram no local após a morte de seus proprietários porque as leis de privacidade faziam com que fosse difícil que parentes tivessem algum contato. E, em alguns casos, quando as famílias podiam ser encontradas, elas já tinham cortado relações com o paciente institucionalizado.

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Esta mala contém objetos embrulhados e evidencia o processo de preservação do museu. Foi em 1999 que o psiquiatra e cineasta Peter Stastny, bem como Darby Penney, um ativista para pessoas com deficiência mental, viram pela primeira vez as malas. A dupla utilizou registros hospitalares para escolher um pequeno número de casos para um estudo mais aprofundado. Junto com a fotógrafa Lisa Rinzler, eles passaram uma década investigando o perfil dos pacientes, o que levou a uma exposição e ao livro de 2009 “The Lives They Left Behind” (em português, “A vida que eles deixaram para trás”).

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O livro e a exposição receberam muitas reações diferentes, de intriga à indignação. Os pertences abandonados geraram lágrimas. Cada mala tem uma história, até mesmo esta acima, aparentemente vazia, de Floyd.

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Olhando para estas malas antigas, podemos nos sentir aliviados que os tempos mudaram. No entanto, enquanto as coisas podem ter melhorado muito no campo das doenças mentais, a luta continua. Um grande número de pessoas ainda vive mal, e os pacientes mentais podem acabar excluídos socialmente. Pessoas afetadas por problemas de saúde mental ainda têm dificuldades financeiras, e as drogas que elas tomam podem levar a condições secundárias, como diabetes e doenças cardíacas, o que pode conduzir à morte. Espera-se que essas malas ajudem a humanizar os doentes mentais, e aumentar a conscientização sobre suas condições.[EG]

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14 comentários

  • Cristiana Ferreira:

    Na prática acredito ser necessário chegar ao equilíbrio de tudo isso,pensar em equipamentos de saúde mental que abranjam de fato a necessidade dos pctes em suas particularidades e de acordo c suas patologias, rever as internações que são necessárias em diversos casos, capacitar as equipes, fortalecer as redes em suas estruturas principalmente a nível municipal e claro fiscalizar as instituições psiquiátricas visando garantir a humanização e assistência adequada dos locais de internações. Infelizmente o investimento é grande e a longo prazo, mas reconhecer o erro já é um bom começo. Penso que o maior problema a ser enfrentado é a forma como tem sido constituída a saúde pública como um todo. Se pensarmos nos impostos que pagamos, no nosso Sistema Único de Saúde no âmbito de tudo o que ele preconiza e vermos as filas nos hospitais,as macas nos corredores,a falta de atendimento, as más condições de trabalho dos profissionais, os baixos salários e a grande demanda percebemos que há algo mto errado e a saúde mental é apenas uma parte disso tudo. Na verdade podemos concluir que a saúde pública como um todo precisa ser humanizada e levada a sério urgentemente!

  • grasisuperstar:

    Oi Silvio, confesso que antes de trabalhar em um Caps eu imaginava o doente mental sempre gritando babando ou achando que era o Napoleão. Mas percebi que boa parte dos pacientes são pessoas que nada diferem de nós “normais”. São como você e eu. muitos se expressam com clareza até acima da média! Muitos são mais inteligentes que nós dois juntos talvez, gostam de musica tem preferências de filme novelas odeiam ou amam matemática. Mas são doentes da alma, de comportamento imprevisível. Num dia chegam normal no caps conversam sobre o tempo, comentam os jogos da rodada participam dos trabalhos manuais atividades físicas como nós! — mas um dia ou outro chegam completamente mudados em crise as vezes até violentos, mas não são assim o tempo todo.Mas infelizmente são estigmatizados e vítimas de violações físicas, psicológicas e perdem seus direitos humanos básicos. Muitos são confinados contra a sua vontade e podem ser deixados a definhar durante anos em condições deploráveis e longe da familia que eles amam como nós amamos a nossa.Pensa no sofrimento deles já que não estão o tempo todo em crise. Acho que o governo devia investir mais em Caps que é onde o doente tem assistência de profissionais em várias áreas e ficam durante o dia todo e a noite e finais de semana ficam com a família…a idéia é ótima mas acredito que ainda são poucos principalmente nas cidades grandes.E é logico que há os casos graves que necessitam de internação mais prolongada ou até o confinamento perpétuo….esta é minha opinião. Gostaria de elogiar a jornalista pela ótima reportagem.

  • Cristiana Ferreira:

    Trabalho na enfermagem de um Hospital Psiquiátrico há pouco mais de 10 anos,temos leitos crônicos e agudos, A/D, Caps II, Caps A/D e serviço de residência terapêutica. O que tenho a dizer com base na experiência que vivo diariamente é que vivemos atualmente o resultado do extremismo de uma luta contra a tbm extrema exclusão dos portadores de transtornos mentais. Em nada me surpreende o comentário de franobre e digo que esse é um dos frutos da luta antimanicomial e não há como negar isso. A política de saúde mental no nosso país é falha, foge e mto do que vivemos na realidade no sistema público. Claro que a exclusão e a falta de humanização eram problemas graves e c urgência em serem revistos, porém não pensar na consequência da desinstitucionalização e não se preparar p isso foi um grande erro. Não há leitos de urgência suficientes, as equipes de PS e PA não são capacitadas p atender urgências psiquiátricas conforme o previsto em lei, Caps e hospital dia não são um equipamento eficiente devido a tbm falta de capacitação, RH e grande demanda de atendimento, falta de estrutura e a tal médico descentralização, que na prática não funciona uma vz que no tratamento psiquiátrico a medicalização é insubstituível, o que faço questão de repetir, insubstituível,(sem a hipocrisia de mencionar a atuação de laboratórios, eles atuam em interesse próprio em várias áreas da saúde, acho ridículo a psiquiatria ser usada como bode expiatório de um sistema corrompido, mas essa é uma outra questão…) Costumo exemplificar a questão fazendo uma comparação simples. Um pcte diabético, insulinodependente, precisa de assistência médica, medicamentosa, acompanhamento e orientação p conscientizar-se de sua participação efetiva no tratamento de sua doença, e msm sendo um pcte consciente e dedicado,sofre c as hipos e hípers, pode necessitar de internações algumas vzs, pode passar por situações que o colocam em risco, possuir limitações e fragilidades em decorrência e enfim… pq conseguimos achar que com um portador de transtorno mental grave,sem cura, que possui limitações psíquicas que na maioria das vzs o impedem de cuidar de si msm, que é resistente ao tratamento, tem dificuldades em aderir a esse devido a sua condição biopsicosocial, é dependente de medicações psicotrópicas e necessita de acompanhamento médico, que se coloca em risco e oferece risco, seria diferente?
    Claro, humanização, inclusão, respeito e assistência adequada são imprescindíveis e óbvios, mas a internação tbm é necessária e isso precisa ser revisto.
    Fechar leitos psiquiátricos foi um grande erro e hj colhemos os frutos dessa atitude impensada.
    Acredito que fomos de um extremo a outro,as equipes multiprofissionais se perderam em seus papéis e hj vivemos um contexto na saúde mental onde a opinião médica foi desvalida por belas ideologias que na prática não funcionam.
    Infelizmente vivemos a desassistência psiquiátrica, os pactes estão nas ruas, desassistidos e as famílias sem apoio, a rede não funciona devido um sistema de saúde mental falho, e ineficiente na maioria casos…

  • luciana:

    Não vamos ser hipócritas, é melhor um psicopata em um sanatório, do que na rua.

    • furiasncta:

      Belíssimo trabalho sobre o resgate do humano e sobre e a redenção do engano da História.
      Gostaria que se publicasse história e nomes pois assim como a tecnologia de vigilância pode “criar uma consciência moral” a revelação da História possa criar uma consciência do preconceito e da discriminação. Por estar deste lado da linha (que é tão real para a maioria das pessoas mas que o tempo e a Ciência provam que nem tanto) ainda tenho dúvidas pois “viver em sociedade” com o estigma da doença mental, conhecimento das próprias limitações convivendo diariamente com a incompreensão e o descrédito exige muito mais equilíbrio que a maioria das pessoas seria capaz. Assim viver no “gueto” poderia ser menos doloroso e mais digno se houvesse real assistência e responsabilidade do Poder Público (sonho).
      Abaixo algumas informações: interessante, Luciana é que o Psicopata Comunitário pode ser qualquer pessoa que vc conheça e acha super normal e que inclusive pode ser muito popular pois extremamente inteligente e dissimulada.
      Silvio Ribeiro, muito bom seu comentário e realista, é muito difícil, me lembrei do magnífico filme Oscarizado “O Amor”.
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_personalidade
      http://pt.wikipedia.org/wiki/Psicopata

      Psicopata comunitário ou de grau leve [editar]
      A maioria dos indivíduos psicopatas correspondem a aqueles de grau leve, por isso, geralmente não satisfazem totalmente todos os critérios do DSM do transtorno de personalidade antissocial. Nesse grupo predominam as mulheres. São os indivíduos psicopatas mais comuns, tendem a exibir poucos critérios e são aqueles que dificilmente chegam a violência física extrema; entretanto, são as mais difíceis de serem diagnosticadas porque tendem a se passar despercebidas no ambiente social, caracterizando o indivíduo “psicopata comunitário”. Geralmente, possuem inteligência acima da média, mas pessoas frias, racionais, mentirosas, não se importam com os sentimentos alheios e são pessoas ditas dissimuladas na sua intimidade: Escondem tais características a todo momento, de forma que pouquíssimas pessoas consigam perceber, são muito manipuladoras. Muitas vezes estão ao lado de todos e ninguém consegue perceber isto. Elas podem ser desde um(a) falso(a) colega oportunista que vive se fazendo de vítima, até trapaceiros(as), parasitas sociais, políticos, empresários(as) e religiosos(as). Esse psicopata raramente vai para a cadeia, mas quando esses indivíduos – por algum motivo ilícito – vão para a prisão, são tidos como presos “exemplares” pelo seu bom comportamento: são muito bem vistos(as), comportados(as), não arranjam confusões e dissimulam uma aparência de inocentes coitadinhos(as), a ponto que outros presos e seguranças não consigam acreditar que aquela pessoa tão calma pôde cometer alguma atrocidade. Exatamente por isso, enganam tão facilmente a todos, fazendo com que diminuam o tempo de pena na cadeia. Do ponto de vista infantil, esses indivíduos podem ou não ter traumas significantes que possam ter sido considerados agravantes do transtorno mas, de forma geral, tiveram uma educação aparentemente normal. Comumente foram crianças com grande charme superficial, encantavam facilmente adultos pela sua aparência de docilidade e espontaneidade, entretanto, já apresentavam traços de frieza, insensibilidade, e intolerância à frustração – que podem ser evidentes em condutas como maltratar coleguinhas, animais, mentir etc.

  • Silvio Ribeiro:

    O texto é longo, mas vale conferir.

    Concordo com o Franobre.

    Assim como existem instituições que abrigam crianças abandonadas, idosos, menores infratores, hospitais do câncer, hospitais gerais, etc., etc., fazem-se necessárias, também, as instituições de abrigo aos deficientes mentais de gravidade mais severa.
    Tanto para o bem deles como para o bem de suas famílias e da sociedade.

    Cada caso é um caso e não podemos generalizar, rotulando de “louco” qualquer ser humano que se expresse de maneira diferente dos padrões de comportamento aceitáveis pela sociedade.
    Vide Van Gogh, entre muitos gênios.

    O antigo modelo de manicômio era desumano, utilizava métodos terapêuticos equivocados, hoje discutíveis com o avanço da moderna farmacologia. Eram um verdadeiro depósito de loucos.

    Todos sabem que a deficiência mental não tem cura, agrava-se com o avanço da idade e persiste até a morte.
    Há períodos breves de melhora e lucidez, seguidos de piora. Com o passar dos anos, os períodos de lucidez vão se escasseando, dando lugar a crescentes e contínuos estados de demência grave.

    É cientificamente comprovado que a lua exerce influência no comportamento dos doentes mentais, dos animais, assim como no fluxo e refluxo das marés e da seiva dos vegetais.
    Segundo relatos de psiquiatras de vários países, na fase cheia da lua, esses pacientes tornam-se mais excitados, irrequietos, extremamente nervosos e entram em crise. Eram no passado chamados de “lunáticos”.

    A literatura e o cinema estão recheados de obras alusivas ao efeito da lua cheia, como “O médico e o monstro” e filmes sobre zumbis e lobisomem. Embora ultra fictícios, possuem certo fundo de verdade no tocante à lua.

    Não é nada fácil conviver em família com um doente mental, pois (diferentemente do Mal de Alzheimer) seu comportamento ora é de total insensatez, ora de mudança repentina de humor, ora de agressividade e rudeza, que acaba desequilibrando e infelicitando a todos.

    Depoimento:

    Aconteceu com minha avó, imigrante italiana que trabalhou duro ao lado de meu avô, para criar seus 9 filhos. Era uma líder e matrona, mas com o tempo foi se desequilibrando a ponto de chegar à demência e numa cadeira de rodas.
    Xingava minha mãe (sua nora) de vagabunda, quem lhe dava banho e a cuidava. Os outros irmãos omitiram-se e não aceitaram ficar com a nonna, mesmo por uns tempos para que minha mãe tivesse um pouco de sossego.

    Se minha mãe lhe servisse o prato de comida, ela o atirava no chão, dizendo que nele havia veneno. Só aceitava se meu pai a servisse. Gritava, chorava e praguejava durante noite inteira, não deixando ninguém dormir.
    Jurava que Nossa Senhora lhe apareceu dizendo que havia muito dinheiro depositado em sua poupança na Caixa Econômica. Exigia que meu pai fosse retirar, pois era dela. Para aliviá-la, meu pai foi checar e voltou dizendo que não havia nem conta nem dinheiro algum. Ela começou a gritar, acusando minha mãe de ter roubado todo o seu dinheiro. Minha mãe emagreceu, ficou doente e ninguém da família, filhos ou noras vieram ajudar. Meu pai teve que dar banho em minha avó, até que minha mãe restabelecesse a saúde.

    Concluindo:

    Portanto, meus caros, não há como prevenir doenças psicológicas graves e eu sinceramente não conheço uma pessoa sequer que conseguiu curar-se com tratamento psiquiátrico. Os fortíssimos medicamentos de tarja preta, amenizam por certo tempo, mas logo vem a recaída.
    Quem convive com pessoas assim, sabe do que estou dizendo.

    No filme “Duas Mulheres” de Vittorio De Sica. com Sophia Loren, (segunda guerra) há uma cena tão trágica como chocante. O jipe militar segue por uma estrada de terra e é obrigado a parar, diante de uma mulher descabelada, em farrapos e tresloucada, que traz nos braços o seu bebê morto.
    Os soldados descem e tentam ajudá-la, mas ela não consegue falar e só balbucia frases desconexas, segurando com força sua criança morta contra o peito, como se fosse a última coisa que lhe sobrara na vida.

    As guerras possuem muitas histórias traumáticas e enlouquecedoras, mas já é outro assunto.

    Perdoem por ter-me estendido tanto.

  • grasisuperstar:

    Franobre, eu entendo o seu ponto de vista que é realmente preocupante. A nossas realidades são diferente visto que moro no interior e nunca vi aqui essas aglomerações que você descreveu
    Mas em contrapartida ja trabalhei em Caps onde pude constatar o que as internações causam a essas pessoas.
    O assunto é muito profundo e tem sido discutido esse aspecto também, por isso a importância desse movimento.

    • Silvio Ribeiro:

      Olá, Grasisuperstar:

      Acredito que você, que já trabalhou no CAPS, poderia discorrer mais sobre o assunto, principalmente a respeito dos resultados positivos e negativos do CAPS.
      Fico no aguardo, pois o assunto é muito complexo e me interessa bastante.
      Abs:
      Silvio

  • Maria Fernanda Monteiro:

    Vc já parou pra pensar que ao invéns da solução ser enfiar doentes mentais em um manicomio a solução seria prevenir as doenças psicologicas dando dignidade a apoio a pessoas que levam vidas miseráveis e dificeis que geralmente levam a doenças psicologicas?Nem todo mundo pode ter uma vida tão equilibrada quanto vc e acabam sendo vitimas da sociedade que os enlouquece.Lutemos por um mundo mais justo ao invéns de mais manicomios

    • franobre:

      Concordo integralmente. Creio que meu discurso fez parecer que sou a favor de manicômios. Realmente não sou. Mas, como tudo na vida, esse é um problema dialético. Para resolvê-lo então temos que mudar a sociedade, transformando-a em um ambiente mais justo? Certo, concordo e desejo muito, porém, e enquanto isso? E a moça que foi esfaqueada no ponto de ônibus porque deixamos uma pessoa sem atendimento em hospital psiquiátrico? O que fazer? Creio que deve-se lutar por um novo paradigma social, por novas aspirações e por novos valores, sinceramente tento empregar isso no meu dia-a-dia, mas há pessoas que necessitam de atendimento para ontem. Há pessoas jogadas nas ruas totalmente delirantes, totalmente fora de sintonia e que os cidadãos comuns passam longe, tentando se esquivar, pois o que um relés cidadão que se apressa para chegar ao trabalho na Av. Paulista pode fazer por uma pessoa que está rasgando a roupa no meio da rua, gritando e pulando? E não pensem que seja um caso isolado. Ficar gritando aos quatro ventos pelo fim de hospitais psiquiátricos, com certeza não estará sendo de nenhum ajuda a pessoas com tais problemas se eles ficarão jogados nas sarjetas, dia e noite!

  • franobre:

    Não sou um estudioso do assunto, quanto a eficácia ou não da existência de manicômios. Vejo apenas o que acontece nas ruas, principalmente em São Paulo, e mais especificamente na Av. Paulista, onde circulo diariamente. Lá, sempre houve um número elevado de mendigos, mas, de alguns anos para cá, o perfil deles tem mudado. Antes, eram pessoas maltrapilhas e, muito comumente, com problemas sérios de alcoolismo. Hoje, há um número crescente de pessoas com graves transtornos psiquiátricos. Eu falo distúrbios graves mesmo. É muito comum ver uma pessoa se autoflagelando, ou um outro, no meio da rua, pulando e gritando ou ficando nú, ou defecando no meio da calçada. No vão livre do MASP é muito fácil contar grupos de 10 ou 20 falando coisas sem sentido e mexendo com os pedestres. A ideia do fim dos manicômios e o medo das internações compulsórias antigas, criou esse nó, onde, já que não se pode internar, então deixe solto pelas ruas, já que uma pessoa nessas condições nunca irá voluntariamente a um hospital psiquiátrico, mesmo se eles existissem. Que eu tenha sabido, já aconteceu duas vezes de uma pessoa nessa condição de demência ferir um pedestre na AV. Paulista. Um deles esfaqueou uma mulher que esperava um ônibus no ponto em frente do Parque Trianon que, para quem não conhece, é um dos locais mais “turísticos” de São Paulo. Não é o caso de ser hipocrita e querer que escondam essas pessoas só para não vermos sua miséria. Mas, é o caso de pensar sobre o que é melhor para eles. Será que é melhor deixá-los nas ruas dessas forma ou interná-los à força, mesmo que sem perspectiva de cura? Para mim, a segunda hipótese ainda é a “menos pior”!

  • grasisuperstar:

    O Brasil comemora no dia 18 de maio o Dia Nacional da Luta Antimanicomial um movimento por uma sociedade sem manicômios.
    E também uma luta contra o preconceito que ainda existe em relação ao doente mental. Se tiver esse movimento em sua cidade, por favor participe, é muito importante para as pessoas que sofrem desse mal.

    • franobre:

      Por favor, leia meu comentário no Hyperscience e responda-me qual a solução então! O que fazer na prática já. É possível conviver lado-a-lado com uma pessoa com grande disturbio mental e com surtos psicóticos? A minha experiência nas ruas de São Paulo é que isso é impossível, mas posso estar enganado.

  • Joaovicentefr:

    Queria ver as obras feitas pelo Dmytro..

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