Medicamento antigo agora considerado “pílula mágica” faz o cabelo crescer de novo, melhora a próstata e fortalece a saúde do coração

Por , em 22.03.2026

Durante muito tempo, a finasterida foi vista quase só por dois ângulos: o tratamento da calvície masculina e o alívio de sintomas ligados ao aumento benigno da próstata. Agora, um estudo recente colocou o remédio em uma conversa bem diferente. Pesquisadores observaram que homens que relataram usar finasterida tinham, em média, níveis mais baixos de colesterol, e decidiram investigar se isso podia ter alguma relação com a saúde cardiovascular.

A pista apareceu quando a equipe analisou dados do NHANES, um grande levantamento de saúde dos Estados Unidos. Entre os homens que disseram usar finasterida, o colesterol total parecia cerca de 30 mg/dL mais baixo do que entre os não usuários. Isso, sozinho, não prova que o remédio causou a diferença. Pode haver outros fatores misturados no meio. Mesmo assim, o sinal chamou atenção o bastante para justificar testes em laboratório. Nos experimentos com camundongos predispostos à aterosclerose e alimentados com dieta rica em gordura e colesterol, a finasterida reduziu colesterol circulante, atrasou a progressão da aterosclerose e diminuiu marcadores ligados à inflamação e à vulnerabilidade das placas arteriais. O resultado é interessante porque vai além de “melhorar um número no exame” e sugere um efeito biologico mais amplo.

A explicação mais plausível passa pela ação hormonal do medicamento. A finasterida bloqueia a enzima 5-alfa-redutase, reduzindo a conversão de testosterona em di-hidrotestosterona, o DHT, mecanismo que ajuda a explicar seu uso tradicional contra a alopecia androgenética e a hiperplasia prostática benigna. As indicações aprovadas continuam essas, e não há aprovação regulatória para usar finasterida com objetivo cardiovascular. Em outras palavras, ninguém deveria olhar para esse estudo e concluir que surgiu um substituto de estatina.

Esse detalhe é importante porque os próprios autores do estudo foram cautelosos. A dose que funcionou melhor nos camundongos foi alta, e isso não corresponde automaticamente ao que acontece em humanos na prática clinica. Esse tipo de trabalho serve para abrir uma hipótese séria, não para encerrar a discussão. O próximo passo real seria testar se o possível benefício aparece em pessoas, em doses usuais, com segurança e impacto mensurável em desfechos clínicos de verdade. Até lá, o achado deve ser lido como promissor, mas preliminar.

Também existe o lado menos mágico da história. Entre os efeitos adversos descritos em fontes regulatórias e de referência estão redução da libido, disfunção erétil, alterações na ejaculação, sensibilidade mamária e relatos de depressão em alguns usuários. As bulas também registram que alguns eventos sexuais foram relatados como persistentes após a interrupção, embora a relação exata e a frequência desses casos ainda sejam debatidas. Por isso, transformar a finasterida em “pílula mágica” é bom para manchete, mas ruim para decisão médica. Remédio que mexe com hormônios nunca deveria ser tratado como atalho inocente.

Há ainda um motivo extra para a pergunta científica ser relevante. Uma revisão sistemática de 2024 apontou que pessoas trans apresentam risco cardiovascular maior do que pessoas cis do mesmo sexo atribuído ao nascer, o que reforça a importância de entender melhor como hormônios, metabolismo e risco cardíaco se cruzam. Isso não quer dizer que a finasterida deva ser usada preventivamente nesse contexto, mas mostra que a discussão sobre o medicamento pode ser mais ampla do que parecia há alguns anos.

No fim, a parte mais interessante dessa história talvez seja outra: a medicina ainda consegue encontrar surpresas em medicamentos antigos. A finasterida segue sendo, oficialmente, um remédio para calvície masculina e para sintomas da próstata aumentada. Só que agora ela também entrou, ainda com muito cuidado, na conversa sobre colesterol, inflamação e aterosclerose. Não é uma revolução pronta. É mais o começo de uma pergunta boa, daquelas que fazem a ciência andar um pouco mais adiante.

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