“Heroico” médico chinês silenciado após alertar sobre o surto morre de coronavírus

Por , em 7.02.2020

Li Wenliang, o médico que tentou alertar sobre a possibilidade de um surto de infecções virais preocupantes em uma província chinesa, morreu na sexta-feira passada (31) após contrair a doença, o novo coronavírus que tem afligido não apenas a China, mas o mundo todo.

A epidemia, declarada uma emergência global pela Organização Mundial da Saúde, já tirou a vida de 637 outros chineses, de acordo com os últimos dados da OMS.

Reprimenda

O Dr. Li começou a falar sobre a epidemia em um bate-papo online com outros colegas médicos no dia 30 de dezembro de 2019.

Na época, o vírus ainda não havia sido identificado. O profissional disse que se assemelhava à síndrome respiratória aguda grave (SARS), um outro tipo de coronavírus que criou problemas semelhantes na China quase duas décadas atrás.

No início de janeiro, no entanto, foi chamado por autoridades médicas chinesas e pela polícia e forçado a assinar um comunicado que afirmava que seu aviso era um boato infundado e ilegal. Outras oito pessoas assinaram comunicados semelhantes.

Em entrevista ao New York Times, Li defendeu que se os funcionários tivessem divulgado informações sobre a epidemia anteriormente, “teria sido muito melhor. Deveria haver mais abertura e transparência”.

Duplamente derrubado

Dr. Li era oftalmologista e contraiu o vírus de um paciente o qual tratava para glaucoma. Ele tinha 34 anos e esperava um segundo filho com sua esposa.

Li “teve a infelicidade de ser infectado durante a luta contra a nova epidemia de pneumonia por coronavírus, e todos os esforços para salvá-lo falharam”, disse o Hospital Central da Cidade de Wuhan em um comunicado. “Expressamos nosso profundo pesar e condolências”.

A notícia de sua morte desencadeou uma onda de emoção na China, especialmente em Wuhan, o epicentro do surto, onde ele morava.

“Não esqueceremos o médico que falou sobre uma doença chamada de boato”, postou um comentarista em resposta ao anúncio do hospital. “O que mais podemos fazer? A única coisa é não esquecer”.

Censura

A morte do Dr. Li não pega bem para o governo chinês, que vem tentando reprimir as críticas generalizadas de que administrou mal sua resposta ao surto inicial em Wuhan.

Segundo o New York Times, a China tem intensificado a censura depois de uma série de julgamentos online e reportagens investigativas que expuseram erros cometidos por autoridades que subestimaram a ameaça do vírus.

Além disso, o falecimento de um profissional da saúde tem aumentado o debate sobre o número de médicos e enfermeiros infectados com a doença. Esse tópico não tem sido abertamente discutido, mas um especialista em doenças infecciosas proeminente disse no começo da epidemia que um único paciente havia infectado 14 trabalhadores médicos em um hospital.

Nicholas Bequelin, diretor regional da Anistia Internacional do Sudeste Asiático, disse à Reuters que a morte de Li é um “lembrete trágico” de como a preocupação da China em manter a estabilidade leva o país a suprimir informações vitais.

“A China deve aprender a lição do caso de Li e adotar uma abordagem respeitadora dos direitos no combate à epidemia”, concluiu. [NYTimes, Reuters]

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