Milhões de chineses foram banidos de viajar de avião ou trem por baixa nota social

Por , em 6.03.2019

É cidadão chinês e não pagou uma conta, multa ou imposto no prazo? Andou com o cachorro sem guia em via pública? Ocupou mais de um assento no trem? Então diga tchau-tchau para o direito de comprar passagens de avião ou de trens de alta velocidade, e até de sair do país.

Há alguns anos ouvimos falar no sistema de crédito social que estava sendo testado em alguns grupos na China para mantê-los na linha, mas agora sabemos que ele já está funcionando para valer. Um novo relatório divulgado pelo governo chinês apontou que 17,5 milhões de compras de passagens de avião ou trem foram bloqueadas em 2018 por motivos de baixa nota no crédito social.

O Centro de Informação de Crédito Público Nacional da China informa também que 128 pessoas foram impedidas de sair da China porque não pagaram imposto.

A China tem passado nas últimas décadas por reformas e mudanças econômicas que sacudiram as estruturas sociais antigas. O Partido Comunista chinês afirma que as penalidades do crédito social vão organizar melhor essa sociedade e fazer com que todos se comportem direitinho.

O slogan que tem sido repetido nas redes sociais do Estado chinês é: “uma vez que você perde a confiança, você vai encarar restrições em todos os lugares”.

Empresas também estão na mira

Seis bebês morreram e milhares ficaram doentes com fórmula chinesa adulterada em 2008

A China realmente tem que resolver muitos problemas, como o excesso de cópias ilegais de produtos e fraudes em suas indústrias, que são infames no mundo inteiro. Essas fraudes são maléficas até mesmo para o próprio mercado interno chinês: quem tem condições financeiras acaba importando itens básicos como fórmula de bebê e ração de cachorro porque lotes adulterados já causaram a morte de bebês e cães de estimação.

Esta demanda por leite em pó importado tem causado problemas no mercado australiano, que enfrenta falta do produto em algumas cidades porque “sacoleiros de leite” ou “daigous” limpam as prateleiras dos supermercados australianos para revender por um preço 50% mais alto na China. Mercados até já impuseram limite de duas latas por comprador para tentar controlar o problema, mas as prateleiras ficam vazias minutos depois que o produto chega.

Para tentar elevar o nível dos produtos e empresas chinesas, o sistema de crédito social chinês prevê penalidades também para empresas, que podem ficar impedidas de conseguir empréstimos em bancos ou barrados de importar peças e materiais. Funcionários com baixa nota também são impedidos de ocupar cargos de gerência ou serem representes legais da empresa. O relatório mostra que 290 mil pessoas foram bloqueadas desses cargos em 2018.

O governo afirma que esse sistema de punição já obrigou 3,5 milhões de pessoas a “voluntariamente cumprirem suas obrigações legais”. Isso incluiu 37 indivíduos que pagaram o total de 140 milhões de yuan (US$22 milhões ou R$84 milhões) em multas vencidas ou confiscações.

Peças que faltam no quebra-cabeça

Apesar de ter publicado todas essas informações otimistas, o governo chinês ainda não divulgou alguns dados muito importantes. Um deles é o número de pessoas que vivem nas regiões com sistemas de crédito social.

O partido que está no poder anunciou que quer implantar um sistema nacional até 2020, mas ainda não forneceu detalhes de como ele vai funcionar. Além da restrição nos melhores meios de transporte, há também a possibilidade que pessoas na lista de restrições tenham acesso à educação barrado, o que é muito preocupante.

Outro problema é que grupos de direitos humanos dizem que os cidadãos afetados pelo sistema de crédito social não são informados diretamente sobre seu status ou como sair da lista.

Há também a denúncia por ativistas de direitos humanos de que minorias étnicas e religiosas foram obrigadas a fornecer amostra de sangue e ter a íris escaneada para fornecer informações a um banco de dados genético que tem como objetivo impor um controle ainda maior nesses grupos.

Digitais, DNA, voz, rosto e íris

Região de Xinjiang é controlada com punho de ferro pelo governo chinês

Tahis Imin, homem 38 anos da minoria Uighur, conta que foi coagido a fornecer seu sangue, suas digitais, teve a voz gravada e o rosto escaneado no que o governo chamou de “exame médico grátis”. Esses “médicos” se recusaram a auscultar seu coração e realizar outros procedimentos básicos, e informaram que ele não tinha direito de requisitar o resultado dos exames.

Em regiões em que há concentração de minorias, como Xinjiang, no noroeste da China, a polícia e autoridades locais telefonaram ou enviaram mensagem de texto para esses grupos dizendo que os exames eram obrigatórios.

O objetivo do governo, segundo o New York Times, é tornar os Uighures mais subservientes ao Partido Comunista. Um banco de dados extensivo poderia facilitar a perseguição de qualquer Uighur que resista ao governo. Milhares deles foram presos em acampamentos de “treinamento para conseguir empregos”, que na realidade são acampamentos de reeducação política e religiosa.

Empresas ocidentais que forneciam tecnologia para essa coleta de dados de minorias chinesas anunciaram recentemente que deixariam de fazer negócio na região de Xianjiang.

George Orwell estaria horrorizado

O autor de 1984 estaria horrorizado (ou muito satisfeito com sua capacidade de previsão do futuro) com o rumo que as coisas estão tomando na China. Tirar vantagem do cada vez mais potente poder computacional e outras tecnologias para acompanhar e controlar os cidadãos chineses parece mesmo digno de uma distopia de final trágico.

Esse sistema de controle dá ferramentas para que certos grupos sejam oprimidos e até exterminados, em um genocídio em proporções que fariam o holocausto parecer fichinha.

[AP News, New York Times, ABC]

1 Star2 Stars3 Stars4 Stars5 Stars (35 votos, média: 4,83 de 5)

Deixe seu comentário!