Pacientes receberam implantes experimentais nunca aprovados – e morreram

Por , em 4.10.2017

Um inquérito investigou a prática do cirurgião Paolo Macchiarini e revelou que uma série de implantes experimentais foram utilizados em pacientes, apesar de nunca terem sido aprovados para uso humano.

O ex-cientista da Universidade College London, no Reino Unido, era uma espécie de celebridade até começar a ser acusado de ser um vigarista, cujos pacientes foram enganados e receberam tratamentos perigosos e não comprovados.

O cirurgião, nascido na Suíça com nacionalidade italiana, tornou-se famoso em 2008 por conta de seus supostos avanços na medicina regenerativa, antes de se envolver em escândalos repetidos à medida que sete de seus oito pacientes que receberam transplantes de traqueia sintética morreram.

A surpresa

Um inquérito conduzido pela Universidade College London descobriu que os órgãos sintéticos desenvolvidos no laboratório de um dos seus antigos pesquisadores, Alexander Seifalian, acabaram sendo implantados em pacientes humanos em operações ao redor do mundo, apesar de nunca serem aprovados para prática clínica.

“Isso é muito sério e é bastante assustador pensar que alguém poderia fabricar esse tipo de dispositivo sem conhecer os regulamentos que o governam”, disse o cirurgião de transplante Stephen Wigmore, da Universidade de Edimburgo, no Reino Unido, que supervisionou o inquérito.

Os órgãos artificiais não autorizados desenvolvidos no laboratório de Seifalian incluíam uma traqueia artificial implantada em um homem eritreu de 36 anos, no que foi aclamado na época a primeira operação de traqueia sintética do mundo. O implante falhou, e o paciente morreu mais tarde.

Outros casos abrangem um ducto lacrimal sintético, um enxerto arterial e discos de plástico inseridos atrás da orelha.

De quem é a culpa?

“Lamentamos profundamente que os materiais não tenham sido submetidos a uma avaliação pré-clínica rigorosa, mas sim fabricados e fornecidos pelo laboratório de pesquisa do Professor Alexander Seifalian para clínicas diretas”, afirmou a Universidade College London em um comunicado. “Nossos sistemas de governança deveriam ter prevenido isso. Também nos arrependemos do impacto mais amplo e negativo que este trabalho teve no campo da pesquisa da medicina regenerativa”.

Seifalian, que foi demitido da Universidade College London em 2016 devido a um assunto não relacionado, disse que desconhecia as operações não autorizadas.

“A implantação é trabalho do cirurgião, que exige obter aprovação ética e regulatória. Este não foi o meu trabalho”, disse ele ao portal New Scientist.

Paolo Macchiarini

Longe da ciência, a vida privada de Paolo Macchiarini também fez manchetes. Uma matéria muito divulgada da revista Vanity Fair caracterizava o pesquisador como um homem que buscava atenção, e que alegou que o papa oficiaria seu próximo casamento (ele já era, de fato, casado).

Em meio a todo o drama e a várias retrações de seus artigos científicos, Macchiarini perdeu seu posto na Universidade College London, no Instituto Karolinska, na Suécia e, mais recentemente, na Russian Science Foundation.

A pergunta que fica é: como as coisas conseguiram chegar nesse ponto, com tantas cirurgias e implantes não aprovados, seguidos de mortes? Um ex-colega de Macchiarini, Karl-Henrik Grinnemo, do Instituto Karolinska, disse que o cirurgião sempre imprimia uma sensação de emergência em seu trabalho, o que mascarava a situação.

“Era sempre ‘eles estão gravemente doentes e vão morrer muito em breve… Não podemos esperar para obter as permissões dos reguladores’”, Grinnemo contou ao portal The Guardian. [ScienceAlert]

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