Poço cheio de esqueletos na Croácia pode revelar destino trágico de soldados romanos

Por , em 6.11.2025
Durante escavações em Osijek, na Croácia, pesquisadores desenterraram um poço antigo que guardava os restos mortais de soldados romanos do terceiro século. (Fonte da imagem: Mario Novak et al., PLOS One)

Arqueólogos da Croácia trouxeram à tona um achado perturbador: um antigo poço em Osijek, a antiga cidade de Mursa, escondia os restos mortais de sete homens. O estudo, publicado na revista PLOS One, sugere que eles eram soldados romanos que lutaram e morreram durante a Batalha de Mursa, no ano 260 d.C.

Descoberta embaixo da universidade

Os esqueletos vieram a luz em 2011, durante escavações para a construção de prédios universitários em Osijek. Os corpos estavam inteiros, mas jogados de forma aleatória dentro do poço — alguns até com a cabeça para baixo. Mario Novak, bioarqueólogo do Instituto de Pesquisa Antropológica em Zagreb, explicou que os homens foram provavelmente saqueados de armas, armaduras e qualquer objeto de valor antes de serem descartados. Não é exatamente a maneira mais honrosa de terminar a carreira militar.

O único artefato encontrado junto aos ossos foi uma moeda romana cunhada em 251 d.C., funcionando quase como um recibo histórico que ajuda a datar a tragédia.

Indícios de violência e doenças

A análise revelou que todos os sete indivíduos eram adultos do sexo masculino — quatro jovens e três de meia-idade. Muitos traziam marcas de violência: fraturas nas costelas, ferimentos de armas e até traumatismos cranianos. Mais curioso ainda foi a identificação de sinais de infecção respiratoria pouco antes da morte, possivelmente agravando suas condições de sobrevivência em meio ao conflito.

Incisivo central superior direito fraturado de um dos esqueletos. (Fonte da imagem: Mario Novak et al., PLOS One)

Um detalhe interessante: dois esqueletos mostraram perfurações no esterno e no quadril direito, evidência direta de golpes fatais. É o tipo de pista que até faria inveja em roteiristas de séries policiais modernas.

O contexto da Batalha de Mursa

Para entender por que esses homens foram parar em um poço, é preciso lembrar do cenário turbulento da chamada “Crise do Terceiro Século” (235–284 d.C.). O Império Romano era disputado por diferentes líderes militares. Em 260, a Batalha de Mursa opôs o imperador Galieno ao comandante Ingênuo, que tentava usurpar o trono. As fontes históricas descrevem a implacável severidade de Galieno com os derrotados — o que fortalece a hipótese de que os mortos do poço eram aliados de Ingênuo.

Esse episódio também mostra como a instabilidade política romana se traduzia em consequências muito concretas para os soldados comuns. Kathryn Marklein, bioarqueóloga da Universidade de Louisville, destacou que pesquisas como esta ajudam a enxergar as cicatrizes diretas da crise sobre as populações da fronteira do império.

Diversidade genética e exército romano

Exames de DNA revelaram que os homens enterrados em Mursa tinham alta diversidade genética. Isso bate com registros históricos de exércitos romanos, que frequentemente incluíam recrutas de diferentes origens: sármatas, saxões, gauleses e outros. Ou seja, o poço não apenas guarda ossos, mas também testemunhos da multiculturalidade que sustentava as legiões.

Um detalhe curioso é que estudos semelhantes identificaram até soldados napoleônicos enterrados em condições muito parecidas séculos depois, mostrando que a lógica brutal de descartar corpos de combatentes derrotados em covas coletivas atravessou diferentes épocas.

Próximos passos da pesquisa

A equipe de Novak também investiga um segundo poço em Mursa com características similares. A expectativa é encontrar outro grupo de combatentes ligados à mesma batalha de 260. Essas descobertas podem oferecer uma janela inédita para compreender como batalhas internas, pouco lembradas fora dos círculos acadêmicos, moldaram o destino de cidades e comunidades inteiras.

O que mais me chama atenção nesse caso é como a arqueologia consegue transformar um buraco esquecido no chão em uma narrativa épica. É como se o solo guardasse não apenas ossos, mas capítulos inteiros de uma história que insiste em ressurgir quando menos se espera. Fico imaginando o contraste: uma universidade moderna construída sobre os alicerces de um império em crise, com estudantes caminhando todos os dias sobre o mesmo terreno onde soldados respiraram suas últimas lutas.

Deixe seu comentário!