Por que não existem barcos controlados por robôs?

Por , em 18.05.2011

Os robôs de hoje conseguem fazer coisas incríveis. Curiosamente, velejar não é uma delas.

No ano passado, Mark Neal, um cientista da computação da Universidade de Aberystwyth, Reino Unido, supervisionou o lançamento do Pinta, um barco à vela robótico que partiu da costa oeste da Irlanda, na tentativa de ser o primeiro barco-robô a atravessar o Oceano Atlântico. Sem sucesso.

Sua equipe perdeu comunicação com o barco aproximadamente dois dias depois da partida. A viagem, ainda assim, foi considerada uma conquista: “O período de 49 horas é o mais longo de navegação autônoma que já aconteceu”, ressalta Neal.

Quando lembramos que as aeronaves comerciais são controladas praticamente inteiramente por máquinas, pode parecer estranho ser tão difícil para um robô navegar em um barco. Só que, na verdade, os desafios são muito diferentes.

“Alguns dos mais longos voos não tripulados chegam a durar um ou dois dias, e isso é excepcional”, avalia Neal. Por outro lado, para ser verdadeiramente útil, um barco-robô precisa navegar por meses a fio lançando mão apenas de velas e energia solar. Durante esse tempo, os painéis solares podem endurecer com o sal, a embarcação pode ser danificada, ou ainda crustáceos e plantas podem crescer no leme.

Além do mais, barcos não tripulados não possuem a capacidade de lidar bem com as mudanças climáticas por vezes encontradas no oceano. “Os barcos não estão prontos para enfrentar um ambiente imprevisível”, diz Roland Stelzer, da Sociedade Austríaca de Ciências Inovadoras da Computação, em Viena.

Stelzer é o responsável pelo Roboat (trocadilho com “robot”, robô em inglês e “boat”, barco em inglês), um barco automatizado de 3,75 metros de comprimento que ganhou o Campeonato Mundial de Vela Robótica nos últimos três anos, concluindo com êxito as tarefas que incluíam corrida de resistência de 24 horas e navegação entre boias.

Apesar da tecnologia empregada no Roboat, que o faz capaz de encontrar a melhor rota calculando a velocidade e direção do vento mais adequadas em relação ao destino, o barco não se sustenta inteiramente sozinho durante as competições. “Nós tivemos que acompanhar o barco o tempo todo, seja em terra firme ou em uma outra embarcação navegando perto”, conta Stelzer.

Na comparação, o Pinta é menor e menos sofisticado do que o Roboat, o que é mais útil no caso de o barco se perder no mar. A embarcação de Stelzer pode ser forte o suficiente para atravessar o Atlântico, mas ele está relutante em experimentar a aventura. Um fracasso seria um retrocesso enorme, tanto psicológica quanto financeiramente falando.

Ainda há um terceiro elemento na jogada: os primeiros navegadores robóticos a passar longos períodos no mar podem vir a partir do projeto Protei, que visa construir embarcações autônomas para limpar vazamentos de petróleo. Concebido pelo designer Cesar Harada, que também lidera o projeto, os barcos têm um design único e articulado que permite que o casco se flexione, a fim de usar melhor o vento ao fazer curvas.

O hardware é open source, o que significa que qualquer um pode trabalhar ou modificar o projeto e ajudar a resolver os problemas. “Abrimos para pessoas do mundo inteiro contribuir com conhecimento e entusiasmo”, diz Peim Wirtz, que gerencia o projeto em Roterdã, na Holanda.

Então, teremos robôs navegando pelos mares em breve? Wirtz espera concluir o protótipo Protei até setembro. Pinta fará uma nova tentativa transatlântica na mesma época. “Se não acreditássemos que é possível, não estaríamos tentando”, declara Neal. “Alguém vai conseguir. Espero que sejamos nós”.

Mas afinal, para que construir um barco-robô? “No futuro, os veleiros autônomos serão usados ​​para tarefas como reconhecimento marítimo, controle e vigilância de mercadorias”, elenca Stelzer. Veleiros robóticos poderão também operar na coleta de dados meteorológicos em trechos remotos do oceano ou na medição da poluição das águas. Eles poderiam até mesmo ser usados para resgatar refugiados.[NewScientist]

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