A arte de ensinar e a arte de aprender

Publicado em 14.05.2008

O texto a seguir foi reproduzido, com permissão da editora, do livro Introdução ao conhecimento logosófico, de González Pecotche.

Entre a arte de ensinar e a arte de aprender existe uma grande diferença, não obstante acharem-se ambas intimamente vin­culadas. Em geral, quem começa a aprender o faz sem saber por quê; pensa que é por necessidade, por uma exigência de seu temperamento, por um desejo ou por muitas outras coi­sas, às quais costuma atribuir esse porquê. Mas quando já co­meça a vincular-se àquilo que aprende, vai despertando nele o interesse e, ao mesmo tempo, reanimam-se as fibras ador­mecidas da alma, que começa a buscar, chamando ao estudo, os estímulos que irão criar a capacidade de aprender.

Porém, que é o que o ser aprende, e para que aprende? Eis aqui duas indagações às quais nem sempre se podem dar res­postas satisfatórias. Aprende-se e continua-se aprendendo, ad­quirindo hoje um conhecimento e amanhã outro, de igual ou de diversa índole, Primeiro se aprende para satisfazer às ne­cessidades da vida, tratando de alcançar, por meio do saber, uma posição, e solucionar ao mesmo tempo muitas das situa­ções que a própria vida apresenta. Quando se completa a me­dida do estudo, parece como se na mente se produzisse uma desorientação: o universitário, ao conquistar seu título, aquele outro ao culminar sua especialização. Enfim, quando essa vi­da de estudos está terminada, começam as atividades nas dife­rentes profissões, o que paralisa a atividade anterior da mente dedicada ao estudo; muitos até chegam a esquecer aquela cons­tante preocupação que antes tinham, de alcançar cada dia um conhecimento a mais, encontrando-se como os que, tendo fi­nalizado o percurso de um caminho, não sentem a necessidade de dar um passo além, por não acharem o incentivo de um obje­tivo capaz de o propiciar. Eis aí uma das causas de onde pro­vém tanta desorientação nos seres humanos.

De outra parte, os que, além dos estudos da profissão aprendem outras coisas, o fazem muitas vezes sem ter disso verdadeira consciência. Acumulam este, esse e aquele conheci­mento, mas depois – salvo exceções – não sabem o que fa­zer com eles; não sabem usá-los em seu próprio bem, nem no bem dos demais. Assim é como vêm aprendendo ao acaso, em uma e outra parte, sem ter um guia que os leve para uma meta segura e lhes permita fazer de tudo uma aprendizagem útil pa­ra si mesmos e para seus semelhantes.

Ao dar a conhecer seus ensinamentos, a Logosofia mani­festa que existe uma imensidão desconhecida para o homem, na qual este deve penetrar. Dá a conhecer, além disso, que enquanto se interna nessa imensidão que é a Sabedoria, isto é, enquan­to aprende, pode também ensinar, porque a arte de ensinar consiste em começar ensinando primeiro a si mesmo, ou, dito de outro modo, enquanto de uma parte o ser aprende, aplica de outra esse conhecimento a si mesmo e, ensinando a si mes­mo, sabe depois como ensinar aos demais com eficiência.

Dissemos no começo que a arte de ensinar é muito dife­rente da arte de aprender. Com efeito, tratando-se do conheci­mento transcendente, que é o que guia para o aperfeiçoamen­to, não se pode ensinar o que se sabe, se, ao fazê-lo, não vai refletida, como uma garantia do saber, a segurança que cada um deve dar com seu próprio exemplo. Eis aí, justamente, on­de começa a tornar-se difícil a arte de ensinar, porque não se trata de transmitir um ensinamento, ou de mostrar que se sa­be isto ou aquilo; quem assim fizesse, se converteria em um simples repetidor do ensinamento, em um autômato, e seu la­bor careceria de toda eficácia. Já é outra coisa, quando atra­vés da palavra de quem ensina, coincidente com seus atos, vão se descobrindo qualidades relevantes; e outra coisa é, também, quando, no que escuta e aprende, vai se manifestando a capa­cidade de assimilação; então, o que aprende, aprende de ver­dade, e quem ensina, ensina com consciência.

Um ensinamento pode ser transmitido bem ou mal pelo que ensina, mas, o fato de transmiti-lo mal não tem porque implicar má intenção ou má vontade; comumente é transmiti­do de forma errônea, por não o haver entendido bem, vivido e incorporado a si mesmo. Quem faz isto não possui, certa­mente, o domínio do ensinamento, que permite não esquecê­-lo mais; e está longe de ser como aquele que, de posse de uma fórmula, pode reproduzir a qualquer momento o conteúdo da mesma. Esquece o ensinamento quem não teve consciência de­le e, por tal causa, acha-se na mesma situação do que apren­de. Estas particularidades da arte de ensinar e da arte de apren­der devem ser tidas sempre muito em conta.

Para cultivar estas artes, quando se aprende deve-se sem­pre situar a si mesmo na posição mais generosa, qual seja a de aprender sem mesquinhez, a de aprender para saber dar, para saber ensinar, e não com objetivos egoístas, fazendo-o para usufruto próprio, exclusivo, que é, em último termo, a negação do saber.

A Sabedoria logosófica prodigaliza-se, por isso, aos que mais tarde saberão ensinar, aqueles que terão em conta, ao fazê-lo, todos os detalhes que, correntemente, passam inad­vertidos e depois travam o entendimento dos seres.

Quem é generoso ao aprender, é generoso ao ensinar; mas nunca terá que se exceder nessa generosidade, pretendendo en­sinar antes de haver aprendido.

É mister conhecer a fundo a psicologia humana, para des­cobrir todos os subterfúgios que existem no complexo e miste­rioso mecanismo mental do homem.
Quando se inicia a heróica empresa do próprio aperfeiçoa­mento, é necessário acostumar-se a caminhar com firmeza, sem vacilações nem desacertos, buscando sempre a segurança no próprio conhecimento, e, quando aquela não existir, este deve ser cultivado, para que se consiga obter esses frutos que fa­zem, depois, a felicidade interna.

Falando já do conhecimento logosófico, deve-se advertir que, ainda que pareça, este não é igual, nem de longe, ao co­nhecimento comum. Tem uma particularidade que o distingue e que cada um adverte, comprova e confirma, à medida que vai realizando seu processo de evolução consciente. A referida particularidade manifesta-se no fato de que estes ensinamen­tos servem para ser usados na própria vida; aplicando os co­nhecimentos que deles emanam em uma observação diária de si mesmo, obtém-se uma superação constante, que leva a com­preender, mais tarde, o caráter universal do Saber logosófico. Isto deve ser recordado a todo momento, a fimde tratar o ensinamento logosófico como ele é: algo novo para o próprio saber individual, algo que deve tomar-se com todo carinho, com toda dedicação, sem descuidar jamais nenhuma de suas indicações.

O conhecimento transcendente, ou seja, o logosófico, ex­pressa tudo quanto pode o homem conhecer, ao internar-se nos arcanos da Sabedoria. É a tocha convertida em luminária que passando de mão em mão, através das gerações, continua­rá iluminando a vida dos que buscam no aperfeiçoamento de si mesmos a própria inspiração; inspiração que também surge observando os sábios e nobres exemplos que a história tem re­gistrado e que, igualmente, o coração humano registra, quan­do presencia todos aqueles casos em que um homem surge aci­ma dos demais, mostrando os caracteres inequívocos de uma estirpe superior.

A Logosofia tem, pois, a missão de arrancar o homem dos planos inferiores de consciência em que se encontra, para levá-lo gradualmente, passando por processos alternados de supera­ção, a conquistar o domínio consciente de suas possibilidades humanas. É então quando deixa de ser um homem comum, um ser comum, para converter-se em ser superior, capaz de transmitir seus conhecimentos aos demais e auxiliar aos que carecem de vontade para poder sobreviver às penúrias que de­vem suportar na vida.

Quantas vezes não temos ouvido um ser ou outro dizer que desejaria encontrar a si mesmo? Acaso, estas palavras, um tanto angustiadas, não dão a entender que se perderam de vista ou que se extraviaram, desde o momento em que não po­dem encontrar-se? Nestas ou em condições parecidas acodem muitos à fonte logosófica. Não seria o caso de perguntar aqui, como pensam encontrar-se? Os que buscam a si mesmos têm sequer uma vaga suspeita do que em verdade são? Reconhecer-se-iam ao encontrar-se? Teriam formado uma imagem exata daquele a quem buscam? Porque tem sucedido, mais de uma vez que, quando chega a oportunidade de apresentar-lhes o ausente, exclamam ante ele: “Este não sou eu, que esperan­ça!”, e continuam logo a busca, cada vez mais infrutífera. O que acontece, simplesmente, é que forjaram para si uma falsa imagem do que pessoalmente crêem ser, e o resultado é que cada um busca, em vão, ao que sua ilusão adornou generosamente de qualidades e virtudes. Ninguém quer ser, pois, aqui­lo que é na realidade; daí a desilusão ao encontrar-se.

Em presença desta realidade, a Logosofia permite, com seus conhecimentos, realizar um claro discernimento do problema, e auxilia, com elementos de juízo de grande valor, a quem anela superar-se, inclinando-o para a tarefa de realizar um processo consciente que culminará ao converter-se naquilo que antes ha­via imaginado, sem que na realidade o fosse. Desse verdadeiro encontro consigo mesmo surge o despertar promissor de uma vida fecunda, destinada a cumprir altos desígnios de bem.

A vida é o campo experimental onde têm lugar as lutas e onde cada um vence ou é derrotado; mas é, também, o cená­rio onde o espírito se tempera verdadeiramente e onde, pouco a pouco, com vontade e entusiasmo grandes, vai se lavrando um novo e elevado destino.

Tudo isto, naturalmente, convida a refletir com serenida­de. Cada um terá que tomar a decisão de seguir firmemente sob a direção do conhecimento logosófico, ou desistir dele por inércia, arrastado para outros caminhos. Se se toma a decisão de seguir, é necessário caminhar sem se deter, estu­dando, analisando, observando e tirando sempre, de cada ob­servação, felizes conclusões.

Autor: Alessandra Nogueira

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3 Comentários

  1. gostei do artigo pois estou estudando sobre o assunto arte se ensina e muito válido. o importante e ler opiniões de outro para firmar a nossa.

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  2. Em questão do aprender e do ensinar, indico Paulo Freire, autor de várias obras espetaculares, entre elas, duas que me conquistaram profundamente: “Pedagogia da autonomia” e “Pedagogia do Oprimido”.
    Excelentes!!!

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  3. Dançar e ensinar a dançar.
    A abordagem do artigo é muito interessante. Quando eu estava no 2 ano ginasial ( sou deste tempo rs rs rs) eu já havia aprendido muito da Língua Francesa pois me apaixonei por ela no primeiro dia de aula. A professora, Cidinha, minha amiga até hoje, atualmente uma jovem de 80 anos, encarregou-me de ensinar francês para alunos que vinham de escolas onde não haviam tido aulas de francês, uma hora antes do inicio das aulas. Com isso eles poderiam alcançar as turmas regulares. Foi aí que eu descobri que ensinar é a forma mais completa de aprender.
    Não me tornei professora de francês e sim de história. Lecionei por 25 anos. Quando parei, há alguns anos, resolvi ensinar Dança do Ventre e Dança Cigana. O interessante é que nesta modalidade de conhecimento que envolve mente e corpo não há nenhum espaço para mistificação: você tem que saber fazer para poder ensinar porque além de explicar é necessário demonstrar o que se deseja que a aluna faça. Envolve também descobrir qual a maneira de transmitir de acordo com a característica daquela aluna,individualmente, mesmo que a aula seja em grupo. Isso me estimula a aprender sempre mais para ensinar melhor. O artigo confirma teoricamente o que eu aprendi na prática com treze anos. Gostei muito.
    Wanda Regina Laguna

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