Como alguns peixes neotropicais se comunicam com campos elétricos

Publicado em 10.04.2012

Uma enguia pode gerar corrente suficiente para atordoar sua presa da mesma forma que um taser (máquina de eletrochoque, na expressão inglesa). E peixes da ordem Gymnotiformes, importantes componentes da fauna neotropical de água doce das Américas Central e do Sul, também podem gerar eletricidade, mas não a ponto de nos machucar.

“Esses peixes, entre eles o peixe faca, são únicos por produzir e detectar campos elétricos”, explica o neuroetologista Eric Fortune, da Universidade Johns Hopkins, que se debruça sobre a aproximação evolutiva e comparativa do comportamento animal. “Eles utilizam esses campos elétricos na comunicação social e na detecção de objetos”, completa o pesquisador ianque, que viajou ao Equador para estudar os peixes faca em seu hábitat natural. Ele instalou alguns instrumentos acústicos debaixo da água, para que pudesse ouvir e registrar os zumbidos elétricos dos peixes.

De volta à universidade, o pesquisador e engenheiro mecânico Noah Cowan, e o resto do grupo de Fortune, usaram as informações coletadas para fazer experimentos e observações no laboratório. Eles estudaram o peixe faca a fim de aprender mais sobre como os cérebros dos animais trabalham para controlar seus comportamentos.

“Nós observamos como eles interagem na natureza e depois criamos experimentos controlados, que nos permitem provar algumas questões científicas específicas”, conta Cowan. “Os pesquisadores querem compreender melhor como esses peixes usam seus campos elétricos, como se fosse um sexto sentido, não apenas para se comunicar, mas para nadar e para encontrar sua próxima refeição”.

Isso se deve a um pequeno órgão localizado na cauda do peixe, que gera o campo elétrico que o circunvolve. Quando algo passa através do seu campo, o peixe tem receptores em sua pele que detectam o objeto.

Cada peixe faca pode gerar sua própria frequência, que, em alguns casos, muda, quando outros peixes da mesma espécie se aproximam. Ainda não se sabe exatamente porque, mas os cientistas acreditam que seja para evitar um congestionamento dos sinais ou para se comunicar.

Agora os pesquisadores querem saber o que acontece quando mais que dois peixes faca interagem. Seus campos aumentam ou reduzem a habilidade de detectar predadores e presas? Dependendo da resposta, talvez viver em grupo para essa espécie seja mais benéfico.

Os cientistas destacam a capacidade de nado desse peixe, que é fantástica: eles podem nadar para frente, para trás e rodar rapidamente. Por esses motivos é que o peixe faca está sendo utilizado como modelo para o desenvolvimento de pequenos robôs submersíveis. O engenheiro mecânico e biomédico Malcolm MacIver, da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, está montando um robô ágil que pode nadar como a espécie de peixe em questão. E, algum dia, talvez, o robô também possa se utilizar de um ‘sexto sentido’ para monitorar a saúde dos recifes de coral ou para nadar nas águas escuras de um derramamento de petróleo. [NSF]

Autor: Luan Galani

é jornalista. Entusiasta da Teoria-M, é um rato de biblioteca apaixonado pelo que a ciência pode nos proporcionar. Nas horas vagas, é um amante inveterado de música erudita, que pede perdão aos russos por ainda considerar Mozart a grande lenda.

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1 comentário

  1. A natureza sabe de tudo,seria interessante copiar esse sistema e adaptar aos submarinos,pode ser que seja esse um dos propósitos da pesquisa alem dos robôs.

    Thumb up 3

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