O altruísmo e sacrifício da mãe mais dedicada do reino animal

Se você acha que 9 meses é muito tempo para carregar um ser vivo em sua barriga, é porque não conhece a mãe mais dedicada do reino animal: um polvo que choca seus ovos por quatro anos e meio (!).

Pesquisadores da Universidade de Rhode Island e do Instituto de Pesquisa do Aquário da Baía de Monterey, ambos nos EUA, observam que a espécie, que vive no fundo do mar, possui o maior tempo de ninhada conhecido entre todos os animais.

Durante esse longo período, a fêmea mantém os ovos limpos e os protege de predadores. O feito provavelmente representa um ato de equilíbrio evolutivo entre os benefícios para os pequenos polvos de ter tempo de sobra para se desenvolver dentro de seus ovos, e da capacidade da mãe de sobreviver durante tantos anos com pouca ou nenhuma comida.

“Esta pesquisa demonstra o quão pouco sabemos sobre a vida no fundo do mar e a vida em geral”, diz Brad Seibel, professor de ciências biológicas da Universidade de Rhode Island.

Anos de observação

Nos últimos 25 anos, uma equipe de pesquisadores da Baía de Monterey, liderada por Bruce Robison, tem realizado regularmente pesquisas sobre os animais das profundezas do Monterey Canyon, um cânion submarino.

Em maio de 2007, durante uma dessas pesquisas, eles descobriram um polvo fêmea apoiada em um rochedo pouco acima do chão do cânion, cerca de 1.400 metros abaixo da superfície do oceano.

O polvo, uma espécie conhecida como Graneledone boreopacifica, não estava naquele local durante o mergulho anterior da equipe na região, em abril.

Ao longo dos próximos quatro anos e meio, os pesquisadores mergulharam neste mesmo local 18 vezes. Todas as vezes, eles encontraram o mesmo polvo, que eles podiam identificar por causa de suas cicatrizes distintas, no mesmo lugar.

Conforme os anos passaram, os ovos translúcidos que o polvo protegia ficaram maiores, e os pesquisadores puderam ver jovens polvos se desenvolvendo no seu interior. No mesmo período, a fêmea gradualmente perdeu peso, e sua pele tornou-se mais mole e pálida.

Os pesquisadores nunca a viram longe de seus ovos ou comendo qualquer coisa. Ela nem sequer mostrou interesse em pequenos caranguejos e camarões que rastejavam ou nadavam por perto, desde que eles não ameaçassem seus ovos.

A última vez que os pesquisadores viram o polvo com sua ninhada foi em setembro de 2011. Quando eles voltaram um mês depois, descobriram que a fêmea tinha ido embora.

Em um artigo publicado na revista PLoS One, os cientistas relataram ter encontrado os restos de cerca de 160 ovos, o que sugere que esse era o número da ninhada do polvo.

Rainha dos polvos

Os ovos de Graneledone boreopacifica possuem a forma de uma gota e as cápsulas são do tamanho de pequenas azeitonas. Conforme os filhotes se desenvolvem dentro deles, necessitam de muito oxigênio.

Isto significa que as fêmeas precisam “lavar” continuamente os ovos em água fresca e oxigenada do mar, evitando que as cápsulas fiquem cobertas de lama ou detritos. A fêmea também deve proteger seus ovos para evitar que sejam comidos por predadores.
Como os jovens polvos passam tanto tempo em seus ovos, no momento em que chocam são totalmente capazes de sobreviver por conta própria e caçar pequenas presas. De fato, os G. boreopacifica recém-nascidos são maiores e mais desenvolvidos do que os filhotes de qualquer outro polvo ou lula.

Ninhadas longas representam um desafio evolutivo, especialmente para animais como o polvo, que não vivem muito tempo. Provavelmente, essa estratégia reprodutiva é possível nessa espécie porque a mãe tem uma grande capacidade de suportar um período grande sem comer. Por sua vez, essa capacidade se desenvolveu porque dá uma vantagem de competitividade a seus filhotes. Eles nascem muito bem desenvolvidos, o que lhes confere um elevado potencial de sobrevivência.

Esta pesquisa sugere que, além do recorde de maior tempo de ninhada em qualquer animal já visto, a Graneledone boreopacifica pode ser um dos cefalópodes (grupo que inclui polvos, lulas e seus familiares) com maior expectativa de vida. A maioria dos polvos de águas rasas e lulas vivem apenas um ano ou dois. Além isso, a maioria dos polvos fêmeas deposita apenas um conjunto de ovos e morre antes deles eclodirem. [ScienceDaily]

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