10 experiências fascinantes que aconteceram por acaso

Por , em 26.12.2013

Na maioria das vezes, fazer ciência requer um planejamento cuidadoso, design intricado e bilhões de reais. Ninguém decodifica acidentalmente o genoma humano ou encontra um bóson de Higgs sentado no sofá. Mas, às vezes, o mundo conspira para criar as condições ideais necessárias para homens e mulheres de jaleco ganharem um pouco mais de visão sobre como funciona a realidade. Confira:

10. Radioatividade e obesidade

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Uma equipe internacional de cientistas queria descobrir o quão rapidamente as pessoas ganham e perdem células de gordura. Quando o nosso peso muda, nós não mudamos o nosso número de células de gordura, elas só se esvaziam ou se enchem com diferentes quantidades de gordura. Enquanto o número permanece o mesmo, os cientistas queriam saber se nós criamos novas para substituir as que morrem, ou se mantemos as mesmas células para sempre.

Para descobrir isso em animais, os cientistas podem usar alimento radioativo. Isso resulta em DNA radioativo, e os pesquisadores podem acompanhar a rapidez com que ele desaparece do corpo. Por razões éticas, os cientistas não podem pedir que pessoas mastiguem refeições radioativas para fazer esta experiência. Felizmente para eles, não foi necessário. Os EUA e os soviéticos já se deram ao trabalho de irradiar toda a comida em todos os lugares durante os anos 1950 com seus testes nucleares, de modo que os marcadores radioativos já estavam nas pessoas. Ao olhar para a quantidade de carbono 14 em pessoas nascidas em vários pontos tanto antes quanto depois dos testes com bombas e seu auge na década de 1960, os cientistas foram capazes de perceber que nós aumentamos o nosso número de células de gordura até final da adolescência. Em seguida, elas são criadas a uma taxa de cerca de 9% ao ano. Valeu pela informação, Guerra Fria.

9. Dinheiro dado e futuro melhor

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Se ganhássemos aleatoriamente uma grande quantia de dinheiro, quão bem a vida de nossos filhos e netos seriam? Infelizmente, esse não é o tipo de experiência fácil de ser executada. Além do financiamento necessário, levaria um par de gerações para se descobrir algo significativo. A única maneira de responder a essa pergunta é encontrar um exemplo de alguém que distribuiu aleatoriamente riqueza para um grupo inteiro de pessoas em algum momento no passado. Felizmente para os economistas, o estado americano da Geórgia fez exatamente isso em 1832.

Quando o governo georgiano roubou um monte de terra dos nativos, eles decidiram que a coisa mais justa a se fazer seria colocar o nome dessas pessoas em um chapéu e dar dinheiro a alguns sorteados aleatórios (“justo” é um termo relativo aqui). Para muitos, isso seria um evento de potencial mudança de vida, já que a terra valia muito. Economistas analisaram o histórico de todas as pessoas envolvidas neste esquema, e descobriram que a obtenção de bastante dinheiro não fez diferença na escolaridade, alfabetização, ocupação ou riqueza dos filhos das pessoas que receberam as terras. Aqueles que não ganharam nada também enviaram seus filhos para a escola, e todo mundo se saiu mais ou menos igual. Claro, a Geórgia de meados do século 19 era um lugar muito diferente do que é agora, então pode ser que o resultado seria outro no século 21. No entanto, a obtenção de riqueza com certeza não é garantia de que você vai melhorar a vida dos seus descendentes.

8. Ordem de mérito

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Se você pegar um grupo de estudantes de igual capacidade e dar aleatoriamente à metade deles mais reconhecimento acadêmico, eles vão se sair melhor? Pais descontentes são o principal obstáculo para qualquer tentativa de responder a essa pergunta, então, onde você poderá encontrar os dados que simule esta experiência por si só?

Tudo que é preciso é considerar que “às vezes as pessoas só estão tendo um dia ruim”. Testes e exames são complicados. Capacidade desempenha um papel, mas às vezes o vento te mantém acordado a noite toda e você não vai bem na prova.

Se todo mundo que acertar acima de 80% em um teste receber uma nota “A”, um monte de pessoas que acertaram 79% uma vez invariavelmente vão ter atingido os necessários 80% em outro dia, e alguns que fizeram 81% podem ter conseguido um “A” quando normalmente não conseguem. Um estudo publicado em 1960 aproveitou-se desse fato. Os cientistas analisaram alunos que fizeram um exame para um Certificado de Mérito e compararam os alunos mais próximos da nota de corte de cada lado. Aqueles que quase passaram receberam cobertura jornalística e tiveram seus nomes impressos em um folheto que foi distribuído para universidades. Os cientistas consideraram que aqueles próximos da nota de corte eram aleatoriamente propensos a estar de um lado ou do outro. E então, eles foram beneficiados pelo reconhecimento? Felizmente, descobriu-se que isso pareceu não fazer diferença para as perspectivas futuras dos alunos.

7. Risco e grana

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Se você é pesquisador e quer medir o comportamento das pessoas em termos de aversão ao risco monetário, vai se deparar com algumas limitações. Você não pode colocar o dinheiro real das pessoas sob ameaça, e provavelmente não tem os recursos para balançar prêmios significativos na frente delas. O que fazer então?

A resposta é usar programas de TV. Todo mundo em um jogo está enfrentando as mesmas chances, e o que as pessoas podem ganhar pode significativamente alterar as suas vidas (embora talvez não a de suas crianças). O programa americano Deal Or No Deal, descrito em um trabalho acadêmico como tendo “tais características desejáveis que quase parece ser projetado para ser uma experiência de economia, em vez de um programa de TV”, já serviu a tal propósito de pesquisa. Uma das conclusões tiradas foi de que os homens são mais propensos a correr riscos envolvendo dinheiro. Curiosamente, a riqueza inicial de uma pessoa não parecia ter qualquer impacto sobre sua probabilidade de assumir um risco, em vez de se contentar com uma quantidade garantida. Notou-se também que, em geral, as pessoas são mais propensas a assumir riscos maiores quando tiveram recentemente uma maré de azar. Os pesquisadores especulam que isso é porque as pessoas estão tentando voltar para o ponto em que se encontravam antes de perderem algo, e fazem maiores apostas para alcançar esse objetivo.

6. Gêmeos e genes

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Uma das questões atemporais da condição humana é o quanto da nossa personalidade é o resultado da “natureza versus criação”. Uma maneira de descobrir a influência relativa destas duas coisas é criar um exército de clones e colocá-los em situações diferentes. Infelizmente, isso ainda não foi feito. A segunda melhor coisa é estudar gêmeos idênticos que foram adotados por famílias diferentes quando crianças.

Em Minnesota (EUA), a partir do final dos anos 1970, pesquisadores começaram a investigar as diferenças e semelhanças entre gêmeos que foram separados cedo. O que eles descobriram é que os gêmeos eram muito propensos a ser semelhantes em suas personalidades, interesses e atitudes. Na verdade, os gêmeos separados eram tão semelhantes quanto aqueles que cresceram juntos. Outros estudos descobriram que a homossexualidade parece ter mais base genética nos homes que nas mulheres, já que gêmeos do sexo masculino separados têm maior probabilidade de ser ambos gays do que gêmeas. Um estudo sueco com gêmeos sobre o consumo de tabaco também encontrou um componente genético na probabilidade de fumar, que também se manifesta mais comumente em homens.

5. Paisagem e sociedade

Bora Bora, French Polynesia 449023
O que aconteceria se você pegasse uma sociedade de pessoas, as dividisse e colocasse em um monte de lugares diferentes, com recursos diferentes? Os seres humanos têm sido deslocados de suas civilizações por séculos, e muitas das razões são provavelmente menos razoáveis do que curiosidade acadêmica.

O experimento natural que nos permitiu ter algumas ideias sobre esta questão veio do povo da Lapita Oriental, cuja cultura se estabeleceu nas ilhas polinésias alguns milhares de anos atrás. Quando pesquisadores analisaram a forma como as paisagens influenciaram as pessoas, eles descobriram que aqueles localizados nas ilhas mais esparsas e secas tendiam para uma sociedade mais violenta e militarista. Nas ilhas mais exuberantes, como o Havaí, a estrutura dominante era mais complexa e a ideia de uma realeza foi formada, o que ajudou a manter traços mais negativos em cheque.

4. Ditadura e TV

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Governos tirânicos gostam de controlar a informação. É por isso que a China bloqueia tanto a internet e a Coréia do Norte só tem televisão estatal. Qualquer informação vinda do mundo exterior tem o potencial de permitir que os cidadãos saibam exatamente quão horrível é a vida deles e quão melhor as coisas poderiam ser.

A Alemanha Oriental já foi palco de um experimento natural sobre a influência dos meios de comunicação externos. Muitos sinais de televisão da Alemanha Ocidental viajavam para a Oriental quando elas eram separadas e, assim, aqueles que viviam sob o regime comunista eram capazes de assistir a programas estrangeiros. No entanto, os locais das torres de radiodifusão e a geografia do país significavam que havia certas partes da Alemanha Oriental que não captavam qualquer sinal e eram totalmente dependentes de meios internos.

A sabedoria convencional sugere que as pessoas capazes de assistir à televisão de fora eram mais propensas a inquietação. Mas descobriu-se que as pessoas estavam realmente mais felizes com o regime se tivessem acesso à TV estrangeira. Os pesquisadores acreditam que as pessoas usavam os programas como uma forma de entretenimento, e isso significava que elas tinham menos motivos para ficar frustradas com suas circunstâncias. Você pode tirar suas próprias conclusões a partir do fato de que podemos ficar felizes sob um regime opressivo desde que possamos assistir a alguns seriados de vez em quando.

3. Doenças (como?) sexualmente transmitidas

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Se você quiser descobrir maneiras diferentes pelas quais doenças podem ser transmitidas, não vai ser fácil projetar um experimento. Deixar as pessoas doentes de propósito não é o tipo de metodologia que a maioria dos comitês de ética aprovaria. Portanto, não é surpreendente que o primeiro estudo de caso documentado de um vírus transmitido por insetos que foi transferido para outra pessoa por meio do sexo tenha surgido por engano.

Não havia mistério a respeito de como o biólogo americano Brian Foy acabou com o que ele acreditava ser dengue: ele foi a uma missão de campo em Senegal coletar mosquitos e foi mordido várias vezes. A doença de Foy era relativamente desinteressante por si só. No entanto, sua esposa Joy, uma enfermeira que não tinha saído de Colorado (EUA), desenvolveu os mesmos sintomas, enquanto a espécie de mosquito que transmite a dengue não existia por lá. Sendo assim, o casal percebeu que tinha de haver outra via de transmissão. Mais pesquisas, além de um encontro com um especialista em doenças tropicais raras, trouxe à tona a ideia de que Foy tinha na verdade pegado uma doença muito rara conhecida como Zika, muitas vezes confundida com dengue. Uma bateria de testes confirmou o novo diagnóstico. Uma vez que não havia nenhuma maneira da mulher ter pego Zika através dos canais normais, eles procuraram outra explicação. Com certeza quase completa, eles chegaram à conclusão de que a doença foi transmitida durante o sexo quando Foy retornou de sua viagem. A esposa não ficou feliz com isso.

2. Tempo insuficiente e material absorvente

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É importante manter as coisas secas, por exemplo, na produção de medicamentos e produtos eletrônicos. Por isso, é talvez surpreendente que o absorvedor de água mais eficiente do mundo tenha sido descoberto totalmente por acidente. Embora teorizado, foi apelidado de “material impossível”, já que muitos cientistas pensavam que não poderia ser criado. Pesquisadores da Universidade de Uppsala queriam provar que esses cientistas estavam errados. A resposta, como bem se vê, era deixar acidentalmente um experimento rodando no fim de semana e ver o que tinha acontecido na segunda-feira. O que os pesquisadores descobriram foi um gel que continha o material esperado. Melhor: não apenas absorvia água a uma taxa louca (uma única grama tinha uma superfície de 800 metros quadrados por causa de seus poros microscópicos), como precisava de menos energia para ser produzido do que outros materiais disponíveis. Depois de um ano de experimentação, eles foram capazes de ajustar o processo e criar o material chamado de “Upsalite”.

1. Brinquedos e correntes oceânicas

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Rastrear correntes oceânicas pode ser bastante complicado. Os oceanos são muito grandes, e jogar coisas neles só para ver o que acontece geralmente é um crime ambiental. A indústria do transporte marítimo internacional perde até 10 mil contêineres por ano por acidente, no entanto, e um contêiner que caiu no Oceano Pacífico em 1992 teve um impacto no nosso entendimento dos oceanos como nenhum outro.

Esse recipiente estava cheio de brinquedos de banho flutuantes – 29.000 castores vermelhos, tartarugas azuis, sapos verdes e patos amarelos – que acabaram em lugares estranhos. Alguns chegaram no Havaí e no Alasca (nos EUA). Outros foram para o norte e se moveram através do Ártico, terminando na Escócia. Na outra direção, certos bichos acabaram na costa da Austrália. Os brinquedos disseram aos oceanógrafos quanto tempo leva para os circuitos em correntes oceânicas completarem uma rotação, o que nós ainda não sabíamos. [Listverse]

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3 comentários

  • Cesar Grossmann:

    Existem algumas explicações mais simples que a “bioeletricidade humana”: a presença do corpo humano altera as características dielétricas do entorno do circuito, alterando a indutância e/ou capacitância de algum elemento, provavelmente uma bobina indutora.

    De qualquer forma boa sorte, talvez você realmente tenha descoberto uma forma de identificar as pessoas usando um circuito que “sente” a presença de pessoas próximas.

  • Fabricio Santos:

    Voces teriam a referencia do estudo usado no item 8. ORDEM DE MERITO.
    Desde já agradeço.

    • Cesar Grossmann:

      O exemplo citado de Natural Experiments in the Social Sciences, de Thad Dunning, e o trabalho é:

      http://psycnet.apa.org/journals/edu/51/6/309/

      Thistlethwaite, Donald L., and Donald T. Campbell. “Regression-discontinuity analysis: An alternative to the ex post facto experiment.” Journal of Educational psychology 51.6 (1960): 309.

      Abstract
      This study presents a method of testing casual hypotheses, called regression-discontinuity analysis, in situations where the investigator is unable to randomly assign Ss to experimental and control groups. The Ss were selected from near winners—5126 students who received certificates of merit and 2848 students who merely received letters of commendation. Comparison of the results obtained from the new mode of analysis with those obtained when the ex post facto design was applied to the same data. The new analysis suggested that public recognition for achievement tends to increase the likelihood that the recipient will receive a scholarship but did not support the inference that recognition affects the student’s attitudes and career plans. From Psyc Abstracts 36:01:1AF09T. (PsycINFO Database Record (c) 2012 APA, all rights reserved)

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