Em caso de extinção, cientistas armazenam o genoma humano em um ‘cristal de memória’ 5D que dura bilhões de anos

Por , em 20.09.2024

Pesquisadores conseguiram algo digno de ficção científica: codificaram o genoma humano em um “cristal de memória 5D”, na improvável (mas não impossível) chance de nossa espécie precisar de uma segunda chance após uma extinção. Mesmo que a ideia não salve a humanidade, o cristal pode permanecer intacto por bilhões de anos, aguardando que alguma civilização futura o encontre e talvez recrie nossa espécie a partir do código genético armazenado.

Desde 2014, quando um grupo de pesquisadores liderado pelo professor de optoeletrônica Peter Kazansky, da Universidade de Southampton, desenvolveu um disco de vidro nanostruturado, o cristal se tornou a tecnologia mais durável de armazenamento de dados. Com capacidade para armazenar até 360 terabytes, esse cristal consegue preservar informações por até 300 quintilhões de anos em temperatura ambiente. Se aquecido a 190°C, sua vida útil se “reduz” a 13,8 bilhões de anos, ou seja, a idade do universo. E como bônus, ele também sobrevive a temperaturas extremas, impactos de 10 toneladas por centímetro quadrado e longos períodos sob radiação cósmica. Esse conjunto de superpoderes garantiu a ele o título de meio de armazenamento digital mais durável, segundo o Guinness World Records.

Diante das incertezas sobre a durabilidade dos formatos de dados digitais atuais, esse cristal se destaca como uma alternativa de arquivamento a longo prazo. Kazansky e sua equipe, percebendo o potencial do cristal, decidiram gravar os três bilhões de caracteres do genoma humano nesse disco minúsculo, do tamanho de uma moeda. A codificação foi feita usando lasers ultrarrápidos para esculpir o código genético em lacunas microscópicas no sílica do cristal, com apenas 20 nanômetros de largura.

Embora muitas tecnologias de gravação de informações dependam de uma estrutura bidimensional, o cristal de memória utiliza cinco dimensões: duas ópticas e três espaciais. Isso garante que o código genético fique gravado em várias camadas dentro do cristal, o que, tecnicamente, é chamado de “5D” – embora a quinta dimensão seja mais um toque de marketing do que uma explicação física.

Inspirado pelos discos de ouro lançados na Voyager em 1977, que continham informações sobre a Terra e a humanidade para eventuais civilizações alienígenas, o cristal de memória também traz um manual visual de instruções. Entre as ilustrações, estão representações de humanos, os elementos básicos que compõem o DNA (hidrogênio, oxigênio, carbono e nitrogênio), e uma explicação simplificada de como sintetizar seres vivos com base nesse material. Se alguém, em algum canto do futuro, encontrar esse cristal, terá tudo o que precisa para entender como criar humanos — ou ao menos tentar.

Por mais visionário que o projeto pareça, Kazansky reconhece que a tecnologia atual está longe de ser capaz de colocar essas ideias em prática. Entretanto, ele aponta para avanços importantes na biologia sintética, como a criação de bactérias sintéticas em 2010, como sinais de que estamos no caminho certo. Ele acredita que, no futuro, será possível restaurar organismos complexos, como plantas e animais, a partir das informações genéticas armazenadas no cristal.

O disco com o genoma humano já foi guardado no Memory of Mankind, um projeto de cápsula do tempo instalado na mina de sal mais antiga do mundo, localizada em Hallstatt, Áustria. Se tudo der certo (ou errado, dependendo de como se vê), o cristal permanecerá intocado por um longo tempo, à espera de ser redescoberto. Afinal, seria ótimo que ele nunca fosse necessário. [Popular Science]

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